terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A PRIMEIRA DAMA DO BAIXO




A PRIMEIRA DAMA DO BAIXO



Conheça um pouco sobre o toque feminino por trás do pop norte americano

Sempre quando ouvimos alguma música é comum darmos uma importância maior ao intérprete que a canta ou ao conjunto "headliner" que a executa, mas infelizmente, neste mundo de meros consumidores, a parte mais crucial, formada por compositores, maestros e demais músicos, acaba ficando de lado. E é justamente em homenagem a um desses ilustres "anônimos" que dedicamos este espaço!
Carol Kaye nasceu no noroeste dos EUA, em março de 1935. De família de músicos, começou cedo no ofício. Aos 14 anos já era conhecida como uma talentosa guitarrista de big bands. Em pouco tempo, passou a lecionar aulas sobre um novo instrumento que então entrava em evidência, a guitarra elétrica, criação de Les Paul. Assim sendo, ganhou fama como uma das primeiras guitarristas da história.
Em meados da década de 50, quando os melhores músicos de estúdio se encontravam na estrada com caras da estirpe de Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Roy Orbison e muitos outros, acontecia uma certa escassez de músicos de estúdio, e os poucos que se encontravam disponíveis, além de terem um custo muito alto, freqüentemente declinavam de convites para gravar rock'n'roll, tementes às possíveis retaliações do mercado (!!!).
No entanto foi bem em meio a esse "vácuo" que a jovem Carol Kaye - bem como uma diversidade de músicos de formação jazzística - encontrou seu lugar ao sol...

1955, na Henry Busse's Band.

Em 1957, a lenda do soul e r'n'b, Sam Cooke, procurava urgentemente um guitarrista e um baixista para gravar suas músicas em estúdio. A escolhida para as guitarras foi Carol Kaye, uma jovem professora que já acumulava grande experiência em guitarras jazzísticas. Entretanto faltava alguém para tocar os baixos. Nisso, o estúdio já dispunha da nova criação de Leo Fender: o Fender Bass.
A ideia principal do Fender-bass era a de executar o som dos baixos, mas com a praticidade de uma guitarra elétrica, já que até então a função cabia tão somente aos rabecões, que apesar de terem um charme único e insubstituível, ainda sim, perdiam muito no quesito praticidade.

Apenas uma tarde foi o tempo que Kaye pediu para conhecer o novo instrumento... No dia seguinte, já o dominava quase tão bem quanto à guitarra. Enfim, para Sam Cooke, gravou tanto as guitarras quanto os baixos dos discos "Sam Cooke" (57) e "Encore" (58).

capa da coletânea CAROL KAYE, The First Lady On Bass

A fama se espalhou, e em pouco tempo Carol Kaye teve de reduzir suas aulas e seu trabalho de tocar em clubes noturnos para ocupar-se apenas do ofício de músico de estúdio e de mãe de família também.
Escreveu métodos de guitarra e foi a responsável pelo (efetivamente) primeiro método de baixo-elétrico da história: "Como Tocar Baixo-Elétrico" (69); que até hoje é seguido! Aliás, foi ela quem quem rebatizou o instrumento, de "Fender-bass" (baixo Fender) para "electric-bass" (baixo-elétrico).
Ultra requisitada, Kaye, além de estar à frente do Wreckin' Crew (a maior orquestra de estúdio dos EUA), tornou-se presença constante nos maiores estúdios de Los Angeles.
Para se ter uma idéia de sua importância na música pop, basta levarmos em conta que no decorrer da década de 60, 9 entre 10 hits do pop norte-americano, seguramente têm os dedos dessa Rainha. Afinal, ela gravou nada menos que 10.000 músicas!!!
Exemplos não faltam, já que além de constar nos discos de Henry Mancini (Peter Gun, A Shot In the Dark, The Pink Panter Theme etc), Lalo Schifrin (Missão Impossível) e Quincy Jones, gravou também inúmeros temas para a TV (Família Addams, Hawaii 5-0, Mulher Maravilha, M*A*S*H etc) e foi inclusive a baixista preferida de jovens maestros como Frank Zappa e Phil Spector, tendo participado de hits memoráveis como "River Deep, Mountain High" (Tina Turner), "Unchained Melody" (Righteous Brothers), "Be My Baby" (Ronettes) etc.


Ah sim, Mme. Kaye também esteve presente no surgimento da surf-music, o primeiro "boom" do rock instrumental, pois gravou inúmeras pérolas com o guitarrista Dick Dale, participou de gravações cruciais dos Lively Ones, dos Marketts e dos Centurians, isso sem falar que seus baixos e guitarras aparecem em quase todos os discos de Jan & Dean e dos Beach Boys de então, que aliás, contavam frequentemente com o mesmo trio de feras do Wrecking Crew: Carol Kaye (guitarras e baixos), Glenn Campbell (guitarras) e Hal Blaine ou Earl Palmer (bateria e percussão).
Para não deixarmos de citar, os baixos que aparecem em gravações de estúdio dos Doors, como "Light My Fire", "People Are Strange", "Riders On The Storm", entre tantos... foram todos gravados por ela! O lendário bateirista Mitch Mitchel sempre frisa sua inesquecível experiência de um dia ter gravado com ela e com Jimi Hendrix.

1974

Hoje em dia, Carol Kaye se encontra aposentada das rotinas frenéticas, no entanto, continua gravando e recebendo por todo seu trabalho ao longo dos anos (só pelas músicas que aparecem em filmes de Quentin Tarantino, Kaye recebe todo mês alguns bons dólares pelos direitos de execução).
Homenagens são uma constante em sua vida, já que caras como Brian Wilson, Sir Paul McCartney, Geezer Butler e Sting, frequentemente lhe prestam seus respeitos publicamente. Não faz muito, participou do disco "Smile 2004" de Brian Wilson e também de gravações com Frank "Pixies" Black. Bom, caríssimos, por enquanto é isso. Até a próxima!


Brian Wilson & Carol Kaye

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ORIGINALMENTE PUBLICADO
28 de Dezembro de 2008

Caderno FOLHA 3Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiaba - Mato Grosso
visite http://carolkaye.com/ Carol Kaye - The Searchers (1965) *guitarras & baixo Carol Kaye - Boogalloo (1965) Carol Kaye - Slick Cat (1971) The Marketts - Out Of Limits (1964) Dick Dale - Misirlou (1963) Henry Mancini - A Pantera Cor de Rosa (1964) Henry Mancini - A shot In the Dark (1962) Beach Boys - Surf In USA (1964) *guitarra e baixo Beach Boys - Good Vibrations (1967) The Monkees - Last Train To Clarksville (1966) Four Tops - I can't help myself (1965) Nancy Sinatra - These Boots Are Made For Walking (1965) The Supremes - Baby Love (1964) Tina Turner - River Deep mountain High (1965) Lalo Schiffrin - Missao Impossível (1967) Familia Addams (1964) Mulher Maravilha (1975) Hawaii 5-0 (1977) Ronettes - Baby I Love You (1965) Ramones - Rock N'Roll Radio (1979)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

THE POGUES

É comum quando se fala em THE POGUES, associar de cara à figura bizarra do vocalista Shane McGowan, cuja imagem parece se sobrepôr ao talento, principalmente em um mundo forjado sobre as aparências.

Sim, nos anos 80 e 90, muito tempo antes da Amy Winehouse aparecer, o cara já bagunçava o coreto pelas ruas de Londres, e infelizmente, além de ser lembrado como o sujeito mais feio da face da Terra (se cara tiver 6 dentes na boca, ainda é muito!), ele também se notabilizou como o pior junkie e bebum do mundo pop.

Fora esses defeitos irrefutáveis, McGowan carrega consigo a pecha de mestre do chamado etno-punk, fusão do punk-rock com a música folk, já que o próprio Shane McGowan, além de ter cantado em uma banda chamada The Nips (77-80), também crescera como um entusiasta da cultura céltica; afinal, apesar de ter nascido nos suburbios de Londres, McGowan é irlandês de pai e mãe e também foi criado na bucólica Irlanda.

Em 81, logo após o fim dos Nips, Shane se uniu a Peter "Spider" Stacy (flauta) e Jem Finer (banjo), para começar algo realmente diferente...



Feio é apelido, e um apelido bonzinho!




DEBUT



Até então, a inserção de elementos tradicionais ao punk-rock era algo muito tímido e justamente os Pogues "chutaram o pau da barraca" ao mesclarem pra valer o punk de sua formação juvenil com melodias tradicionais irlandesas, com as quais foram criados.

Em 82, a banda que a princípio se chamava Pogue Mahone, já fazia suas primeiras apresentações pelos pubs londrinos. Outros 3 membros somavam-se então ao conjunto: James Fearnley (acordeão), Cait O'Riordan (baixo) e Andrew Ranken (bateria).

Gravaram um single por conta própria, em 83, e em seguida abriram shows do The Clash. No ano seguinte, ganharam atenção especial, apareceram na BBC e em outubro lançaram o disco "Red Roses for Me" pela Stiff Records, uma gravadora que, aliás, estava com os dois pés na bancarrota.

Mudando um pouco de ares, a banda pode contar ainda com a entrada do guitarrista Philip Chevron e com a força do músico Elvis Costello para produção do disco "Rum, Sodomy & Lash", cujo título se referia a um suposto e polêmico comentário de Winston Churchill acerca da marinha britânica na Segunda Guerra. Destaque para "The Old Main Drag" e "The Sick Bed of Cúchulainn", que revelaram o lado mais poético de Shane, e releituras condignas para "And the Band Played Waltzing Matilda" (Eric Bogle) e a clássica "Dirty Old Town" (Ewan MacColl).

Em 86, lançam apenas um EP de 4 faixas chamado "Poguetry in Motion". A baixista Cait O'Riordan deixa a banda para se casar com Elvis Costello, entrando para seu lugar Darryl Hunt e o multi-instrumentista Terry Woods.




FAIRYTALE OF NEW YORK



Já com tudo em cima, a banda grava dois discos que figurariam por um bom tempo no top 5 das paradas britânicas: "If I Should Fall from Grace with God" (88) e "Peace and Love" (89).

Do disco de 88 vem o single "Fairytale of New York", clássico natalino com a participação da cantora Kirsty MacColl, que por conta de alguns versos tidos por "desbocados" pela conservadora sociedade britânica, deu muito o que falar nos últimos 20 anos.


Kirsty MacColl & The Pogues



Em 91, após gravarem "Hell's Ditch" e às tampas com o comportamento de Shane, a banda deu um jeito de tirá-lo da jogada. Quem acabou segurando as pontas nos vocais foi o eterno Clash e também produtor da trupe, Joe Strummer.

Tão logo Strummer saiu, os Pogues remanescentes gravaram e lançaram "Waiting for Herb", que continha o bem sucedido single "Tuesday Morning".

Em meio às constantes entradas e saídas de integrantes, a banda já não via a hora de acabar. Assim, em 96, entoa o seu "canto do cisne" com o disco “Pogue Mahone”, que apesar de ser um bom disco, demonstra-se um fracasso nas vendas quando do seu lançamento, o que foi um tiro de misericódia para a banda.

Um detalhe curioso é que há pouco tempo, a música “Love You 'Till The End", do mesmo disco “Pogue Mahone”, foi o tema de amor no filme baba “P.S. I Love You”, cantada em dueto por Hillary Swank e Gerard Butler, em uma trilha também contou com "Fairytale of New York".


"Love you 'till the end ..."



PELAS ADJASCÊNCIAS DO OFÍCIO


Mal acabaram os Pogues, seus remanescentes continuaram tocando sob os nomes de The Wisemen e The Vendettas. Shane criou uma banda chamada Shane McGowan & The Popes e que teve até participações de Johnny Dep na guitarra.



A VOLTA


Brixton, Dezembro de 2004



O "intervalo" só durou 5 anos, até a volta da banda - com sua formação clássica - em 2001 para um especial de Natal. A coisa deu tão certo que tours e shows ao redor do mundo passaram a ser agendados.

Para cada apresentação, têm conseguido esgotar a lotação de onde quer que toquem. Isso tem sido uma constante na vida da banda por esses últimos 7 anos. Ainda não vieram tocar no Brasil.

Por hoje é isso, meus caros. Desejo a todos um FELIZ NATAL, ao som de “Fairytale of New York”.




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Max Merege, além de ser um inveterado curtidor de rock e dedicado pesquisador musical de Cuiabá, também é publicitário e, certamente, um sujeito bem mais bonito que o Shane McGowan.



21 de Dezembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiaba - Mato Grosso

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DENGUE FEVER, não tem como escapar!


Como o próprio nome diz, DENGUE FEVER é a "Febre da Dengue". Diga-se de passagem que isso também vai direto na saúde da alma, afinal trata-se de um tipo exótico de música pop que a cada dia tem se proliferado pelos cantos do mundo real e virtual. É o que podemos chamar de banda "multi-cultural" ou grosseiramente falando, um "bom fruto da globalização".


Formada em 2001, na cidade de Los Angeles, Califórnia, o Dengue Fever tem em seu line-up dois irmãos de origem judaica e uma cantora cambojana, mais um trio formado por experientes musicos da área.

Achou estranho? E olha que isso dá samba, e dos bons!


HOLLIDAY IN CAMBODIA...

Só para se situar um pouco no tempo-espaço, no Camboja produzia-se música pop de excelente qualidade, já que na época da ocupação americana no vizinho Vietnã, de 1967 a 1975, as rádios do exército costumavam tocar os grandes sucessos do ocidente, como Beatles, Rolling Stones, Beach Boys, The Who, Animals, The Doors etc. Assim, jovens cambojanos resolveram reinterpretar aquelas músicas à sua maneira e criaram algo completamente diferente de tudo o que se conhecia.

Pena que a cena que então surgia, morreu prematuramente em 1975, quando o khmer vermelho - a ditadura de lá - cuidou de matar quase todos os artistas. Desses, alguns conseguiram fugir para países vizinhos como a Tailândia e o Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, os “agentes culturais” do governo tiveram o cuidado de aniquilar os acervos das gravadoras e também fizeram o favor de queimar tudo quanto era disco de vinil, sob o pretexto de erradicar qualquer tipo de influência "burguesa" advinda do ocidente capitalista.

O que restou foram alguns discos, cuidadosamente escondidos nas casas e que tempos mais tarde circulariam sob a forma de fitas k7, vendidas nas barraquinhas de camelôs, pelas ruas de Phnom Pehn.

Passados alguns anos, as tais fitas k7 tornaram-se um valioso souvenir entre mochileiros europeus e norte-americanos, que passaram a carregá-las em suas bagagens. Não demorou muito e o pop cambojano ganhou o mundo por meio das facilidades da internet e do advento do mp3, tanto é que pelos softwares de compartilhamento, as coletâneas “Cambodia Rocks” são campeãs de downloads.


ENFIM, UMA BANDA

Em 1999, inspirados por uma viagem ao Camboja, os irmãos Ethan e Zac Holtzman, fãs de carteirinha dos Mutantes e de Sérgio Mendes, tomaram conhecimento da tal sonoridade exótica e fascinante e a incorporaram às influências de uma banda que então nascia. À trupe somaram-se ainda os amigos Senon Williams, Paul Smith e David Ralicke. Todavia, só faltava uma voz para entoar tais melodias no misterioso idioma...

Passados poucos mêses, circulando pelos karaokes de um bairro cambojano de Los Angeles, depararam-se com uma jovem cantora chamada Chhom Nimol. Pronto! Finalmente encontraram a peça que faltava em seu quebra-cabeças.

Chhom Nimol já era uma estrela de karaoke no Camboja. Viajara aos EUA apenas para visitar sua irmã. Gostou tanto de lá que acabou se fixando, pois mesmo acompanhada de play-backs ela podia sempre contar com um dinheirinho dos cachês pagos pelos diversos clubes e restaurantes da comunidade. Demorou algum tempo para ela digerir a idéia de cantar com uma banda e após insistentes convites, aceito enfim ensaiar com os irmãos Holtzman e seus amigos. A química deu tão certo que ela se tornou de fato a voz da banda.

Chhom Nimol



A ESTRADA...

Em 2003 debutaram com seu auto-intiulado primeiro disco, cujas letras eram todas cantadas no idioma khmer e cujo repertório consistia em grande parte de regravações para canções de Ros Sereysothea e Sinn Sisamouth, os maiores ídolos da música cambojana.

Com uma boa vendagem nas comunidades de imigrantes, a princípio, Dengue Fever atingiu também o público de múscia independente local e, por acréscimo, fãs da world music.

Excursionaram pelo Camboja e tocaram por tudo quanto foi buraco de lá, tornando-se verdadeiros ídolos nacionais. No mesmo ano de 2005, apareceram na trilha sonora do filme “Broken Flowers”, de Jim Jarmush, e também lançaram “Escape From Dragon House”, que além de ter sido um enorme sucesso de vendas no site amazon.com, também mereceu (em agosto de 2008) uma reedição em vinil colorido.

Em junho deste ano, após ganharem a simpatia do músico Peter Gabriel, lançaram o disco “Venus On Earth”, por seu selo Real World Records. Curiosamente, o disco foi lançado primeiro para fora dos EUA e Canadá, e para variar, fizeram o maior sucesso pelo mundo...

Por hoje é isso, meus caros, semana que vem tem mais. Um grande abraço a todos!

DENGUE FEVER é: Chhom Nimol (vocais), Zac Holtzman (guitarra e voz), Ethan Holtzman (órgão Farfisa), Senon Williams (baixo), David Ralicke (metais) e Paul Smith (bateria).

Discografia:

Dengue Fever (2003)


Escape from Dragon House (2005)


Venus On Earth (2008)

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14 de Dezembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiaba - Mato Grosso

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Simplesmente MUTANTES


A história começa nos idos de 1965, no bairro da Pompéia, em São Paulo, quando os irmãos Dias Baptista - Cláudio e Arnaldo - e os amigos Raphael Vilardi e Roberto Loyola se juntaram com as amigas Rita Lee Jones e Suely Chagas para um barulho, pois ao mesmo tempo em que os meninos tocavam freakbeat tupiniquim, sob o nome de The Wooden Faces, as meninas tinham um grupo vocal chamado The Teenage Singers.
Somaram-se então à trupe, o guitarrista Sérgio Dias - irmão caçula dos Dias Baptista - que veio para o lugar de Cláudio, e o baterista Pastura. Nascia assim a banda O'Seis.
Em 1966, lançaram um compacto que deu o que falar, pois além de explorarem sonoridades avançadas, suas letras também vinham recheadas de humor negro, coisa nada comum no mundo da jovem guarda. Vendeu pouco, mas por outro lado conquistou a simpatia do cantor e apresentador Ronnie Von, que os convidara para tocar em seu programa na TV Record. Como viviam uma fase de muitas mudanças, por sugestão do então novo grande amigo, mudaram o seu nome para Mutantes.
Em seguida, acompanharam Ronnie Von em um disco arranjado pelo Maestro Rogério Duprat. Este disco contém o clássico tropicalista “Pra Chatear" e que conseguiu renir os Mutantes, Ronnie Von, Caetano Velloso e o Maestro Duprat em uma mesma faixa.
Ainda em 1967, acompanharam Gilberto Gil em “Domingo No Parque”. Nesse embalo, sob os cuidados do maestro, gravaram também cinco músicas com a "Banda Tropicalista de Rogério Duprat" e acompanharam Caetano Velloso em “É Proibido Proibir”.


Um ano que não acabou...


Finalmente em 1968 lançararam seu primeiro lp: "Os Mutantes"; e também participaram do antológico álbum "Tropicália", com o Maestro Duprat, Caetano Velloso, Gilberto Gil, Nara Leão e Tom Zé.
Nesses tempos, as vaias eram constantes, já que até então a mpb não tolerava o uso de guitarras elétricas e nem extravagâncias que extrapolassem o seu rígido padrão “banquinho e violão”. Os Mutantes - bem como o Chacrinha - viraram a coisa do avesso e fundiram o Brasil com o Mundo, quebrando todas as fronteiras artísticas e estéticas possíveis. Seus álbuns ganharam lugar de destaque entre os discos mais importantes dos últimos cinquenta anos, e até hoje figuram entre os nomes mais influentes da cultura pop universal.
Posteriormente, entre 1969 e 1972, sob sua já consolidada formação clássica - Arnaldo, Sérgio, Rita, Liminha e Dinho - apresentaram oficialmente outros quatro discos como “Os Mutantes” e mais dois creditados a “Rita Lee & Os Mutantes”.




Do Brasil para o mundo



Em 1970, os Mutantes viajaram à Europa para tocar em um importante evento na França. Conseguiram um ótimo esquema para gravação e lançamento de material por aqueles lados, mas graças à burocracia da gravadora, o tal disco que por lá gravaram ficou engavetado por trinta anos e só saiu em 2000 sob o nome de "Technicolor", cuja arte de capa fora assinada por Sean Lennon, filho de John Lennon e discipulo de Arnaldo Baptista.


O primeiro final


Em 1972, o casamento de Rita e Arnaldo estava com seus dias contados. A banda enfrentava problemas com a gravadora: restrições contratuais, gravações "sem apelo comercial" etc. Rita Lee já nem estava mais com eles. Um dos casos foi a "geladeira" de vinte anos para o disco "o A e o Z".
Em meio a esse estresse, Arnaldo troca a banda pela carreira-solo e em 74 lança o disco “Lóki” que, bem ou mal, teve a participação dos Mutantes e arranjos do maestro Duprat, mas revelou também a face melancólica de um artísta que até há pouco era lembrado por sua irreverência. Fora isso, formou o Patrulha do Espaço, passou um tempo no hospício, rachou a cuca, virou pintor e escritor, e voltou a tocar.
Quanto aos demais Mutantes, só restara Sérgio Dias que tocou o nome da banda até 1978 e gravou três discos de rock progressivo. Rita Lee fundou o Tutti Frutti e teve uma bem sucedida carreira-solo. Liminha se tornou um dos maiores produtores do Brasil. Dinho Leme largou a música para virar empresário. E o Maestro Duprat, vítima do mal de alzheimer, faleceu em 2006.



A volta...

Arnaldo Baptista, dinho Leme (fundo) e Sérgio Dias

Em 2006, após 3 décadas longe dos Mutantes, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Dinho Leme voltam a tocar juntos! Todavia, por conflitos de agenda, tanto Rita Lee quanto Liminha tiveram que declinar do convite. A cantora Zelia Duncan foi a escolhida para os vocais e a um sexteto de apoio coube a missão de preencher a lacuna de Liminha, possibilitando ao vivo coisas que só existiam em estúdio.

Esgotaram a lotação de um grande teatro de Londres e de lá paratiram para uma tour pelos EUA. Não demorou e excursionaram pelas principais capitais do Brasil (pena que não vieram a Cuiabá!).
Missão cumprida, tanto Arnaldo Baptista quanto Zélia Duncan deixaram a banda para se dedicarem a projetos pessoais. Desde então, Sérgio Dias e Dinho Leme têm dirigido a trupe, sem necessariamente usarem o nome Mutantes, mas sempre buscando preservar os arranjos e a magia originais.




O filme


Em abril deste ano foi lancado Lóki, documentário do cineasta Paulo Henrique Fontenelle sobre a vida de Arnaldo Baptista e a trajetória dos Mutantes, com direito a imagens raras, depoimentos de vivos e finados e tudo o que é de se esperar de algo que levou anos para ser feito.
O filme tem sido muito bem falado, mas infelizmente está fora do circuito comercial e sem previsão para sair em dvd. Assim, só resta a nós - meio desligados - esperar a chegada do filme e curtir o que ainda temos à mão...



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Max Merege é um pesquisador musical de Cuiabá que AMA música brasileira, muito mais que muita gente por aí!


Artigo originalmente publicado
dia 07 de Dezembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O JUDEU ERRANTE


Por Max Merege

Reza uma tradição judaica que todos aqueles que carregam o sobrenome Cohen, descendem de um personagem muito importante do Velho Testamento: o profeta Aarão, irmão de Moisés; e trazem consigo a missão de ajudar a humanidade, principalmente por meio da palavra…
Leonard Cohen, escritor e músico canadense, é filho de judeus ashkenazi oriundos do Leste Europeu. Cresceu entre as lições do Talmude e a vida numa Montreal católica. Com 17 anos ingressou na faculdade de direito e em seguida trilhou o caminho das letras, sob a tutela do mestre Irwing Layton.
Na década de 50, com alguns amigos, montou uma banda de country-hillbilly para tocar canções de Hank Williams, Tex Ritter e Frankie Lane, mas lançou-se mesmo foi como escritor aos 22 anos, com o livro de poemas “Let Us Compare Mythologies” (1956), sucedido por "The Spice Box of Earth" (1961), o qual lhe renderia fama internacional.
De 1963 a 1966, morou ilha grega de Hydra, de onde lançou a coletânea de poemas "Flowers for Hitler" (1964) e as novelas "The Favorite Game (1963) e "Beautiful Losers" (1966).
Em 1966 mudou-se para New York e decidiu apostar na música como o melhor veículo para a difusão de sua obra e suas idéias, lançando-se primeiramente como compositor.
A primeira intérprete foi a cantora Judy Collins, por meio da qual sua canção “Suzanne” conseguiu atrair a atenção de público e crítica, principalmente por contar a história de uma fantasia amorosa inconcretizável com a esposa de um amigo seu. Aliás, sua obra é um mosaico permanente de histórias de amor impossível e palco de constantes reflexões filosóficas existênciais que remetem claramente a episódios da Torah e do Talmude.
Entre o final ’67 e meados de ’69, LC lançou os discos “Songs Of Leonard Cohen” e “Songs From a Room”, que por meio de canções como a já citada “Suzane”, “So Long, Marianne”, “The Sisters Of Mercy”, “Bird On A Wire” etc, lançou-se de vez no restrito círculo dos poetas cantores.
Seu terceiro álbum, “Songs Of Love And Hate”, é lançado em 1971 e até hoje é considerado um dos discos mais tristes e soturnos dos últimos 50 anos na história da música pop. Em 1972, LC traz à luz o livro “The Energy of Slaves”, uma novela que ainda mantém o clima melancólico de seu último disco, mas com alguns resquícios de “esperança”.
Nos EUA, LC gozou de razoável sucesso e conquistou respeito de todos. No Canadá, tornou-se uma espécie de herói nacional, e pela Europa, uma figura amada.



Em 1973, tão logo lançou o disco ao vivo “Live Songs”, LC foi convidado pelo governo israelense para fazer alguns shows para os soldados na guerra do Yom Kippur. Bebeu taças de vinho e dividiu conhaque com um então fã seu, o General Ariel Sharon, mas por conta de tanta tensão, Leonard Cohen acabou se desolando com a guerra, até então vista apenas pelo lado romântico das histórias contadas pelos vencedores. Em virtude de tal situação, no ano seguinte, em seu álbum “New Skin For The Old Ceremony”, lançou a música “Who By Fire”, baseada no poema litúrgico "Unetaneh Tokef", que reflete sobre o que vale e o que não vale a pena nessa vida.
A coletânea “Greatest Hits: The Best Of Leonard Cohen”, é lançada em 1975 e passa a abranger todos os seus grandes êxitos, desde seu primeiro disco de ’67 até seu último disco de ’74.


DEATH O LADIES’ MAN


1977 ficou marcado como um ano conturbado para LC, pois além de se divorciar da mãe de seus filhos, gravou o disco “Death Of A Ladies’ Man”, fruto de uma tempestuosa parceria com o produtor Phil Spector.
A relação de Cohen com Spector fora um tanto tumultuosa, pois tão logo concluiram-se as sessões de gravação, Spector trancou-se no estúdio e pôs-se a mixar sozinho o disco, à revelia de LC.
Mesmo tendo participações de Bob Dylan e do escritor Allen Ginsberg, “Death Of A Ladies’ Man” (que inclusive conta com uma foto de sua ex-mulher na capa) foi por vários anos um disco “renegado” por LC. Entretanto, àquela época, o álbum ganhou o status de cult por entre punk-rockers e afins, que passaram a lhe escrever constantemente cartas e mais cartas de elogios e agradecimentos por ter sido este o “portal de entrada” para o conhecimento mais aprofundado de sua obra.
No ano seguinte, ainda injuriado com a vida, LC lançou o livro “Death Of A Lady’s Man”, cujo título era claramente alusivo ao seu “fatídico” disco anterior, haja vista que o título do disco era sobre a “Morte de Um Mulherengo” enquanto o título do livro era sobre a “Morte de Um Marido”. Enfim, é a licença poética em ação…
Para fechar a década de modo dígno, segundo o próprio Cohen, vem à luz, em ’1979, o álbum “Recent Songs”, cuja idéia principal era a de resgatar uma sonoridade que ficou em “New Skin For The Old Ceremony”.



Bem sucedido entre público e crítica, o álbum rendeu-lhe até mesmo uma tourneé que ficou registrada em um disco que só iria sair em cd no ano de 2001, sob o nome de “Field Commander Cohen: Tour of 1979”. Após toda essa badalção, Leonard Cohen decide-se por tirar umas “férias” de 5 anos, mas aí já é assunto para uma próxima ocasião…
Um grande abraço a todos e até lá!


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Parte 2


A Volta das Férias...

Após a conturbada década de ’70, Leonard Cohen optou por se retirar do show business. Entre ’80 e ’84, nada de inédito foi lançado até o álbum “Várious Positions”, que trouxe uma série de pérolas como “Dance Me To The End Of Love”, “If It Be Your Will”, “Heart With No Companion” e “Hallellujah”. Em 1985, LC lança o livro de poesia “Book Of Mercy”, cujos poemas mantém o mesmo teor temático de seu último disco.
“Hallellujah”, apesar de não ser a música mais regravada de Cohen, certamente é a mais executada, mesmo que por interpretes tão diversos, como Bono Vox, KD Lang, Sheryl Crow, John Cale, Rufus Wainwright (no filme do Shrek), Bob Dylan, e principalmente, Jeff Buckley, versão esta que além de aparecer na trilha de The OC, também foi a mais baixada no iTunes, em março de 2008.


Em 1987, a cantora Jennifer Warnes, que nos anos 70 foi vocalista de apoio de LC, apresenta “Famous Blue Raincoat, The Songs of Leonard Cohen”, um importante e abrangente álbum-tributo à obra de Cohen. Dentre os convidados, presenças ilustres como o guitarista Stevie Ray Vaughan, o baterista Vinnie Colaiuta, o maestro Van Dyke Parks e o próprio Cohen cantando "Joan of Arc". O disco foi muito bem recebido, principalmente por um público que já a conhecia de “Time Of My Life”, trilha do filme “Dirty Dancing”.
Um ano mais tarde, o disco “I’m Your Man” é lançado. Além da faixa título, o álbum conta também com “Everybody Knows”, “Tower Of Song”, “I Can’t Forget”, “First We Take Manhattan” e “Take This Waltz”. Esta última, uma brilhante adaptação para o poema “Pequena Valsa Vienense”, de Federico Garcia Lorca. Aliás, poucos discos até então alcançaram a proeza de emplacar 80% de seu repertório nas paradas, como foi o caso deste.



WAITING FOR A MIRACLE TO COME…


Seu único disco de inéditas na década de 90, “The Future”, é lançado em ’92.
Profético, pode ser considerado uma advertência para um futuro que pode ser mudado, já que muito do que figura em suas letras, tem se concretizado nos últimos tempos, como a queda das Torres Gêmeas, a interminável Guerra do Golfo, a crise econômica mundial, a banalização da violência, a eleição do Obama e muitas outras coisas mais…

Em 1994 sai o disco “Cohen Live, In Concert”, com gravações de shows de ’88 a ’93. Neste mesmo ano, por sugestão do roteirista Quentin Tarantino e do músico Trent Reznor, o diretor Oliver Stone usou 3 faixas do disco “The Future” no filme “Assassinos Por Natureza” (Natural Born Killers).
No ano seguinte, LC tira novas “férias” prolongadas, desta vez em mosteiro zen-budista, sendo no ano seguinte ordenado monge. Seu retiro durou até ’99.
Durante os anos de reclusão, muita coisa é lançada, principalmente entre 1995 e ’97. “Dance Me To The End Of Love” torna-se um vídeo-clipe pelas mãos de Quentin Tarantino e Aaron A. Goffman, sendo que sob o mesmo título vem à luz uma coletânea de poemas ilustrada por pinturas de Henry Matisse, ao passo que em 1997 sai a coletânea “More Best Of”, abrangendo os anos de ’84 a ’94.


DEZ NOVAS CANÇÕES…

De 2001 a 2004, de volta à música, Leonard Cohen grava os discos “Ten New Songs” e “Dear Heather”, que muitos fãs consideraram como material de despedida. No entanto, o próprio Cohen assegurou que melhores coisas ainda estavam por vir…
Mas isso só até 2006, quando é lançado o show-documentário “I’m Your Man”, co-produzido por Mel Gibson, e que intercala depoimentos do próprio Leonard Cohen com cenas de um show-tributo feito na Austrália, por artístas do porte de Nick Cave, Ruffus & Martha Wainwright, Jarvis Cocker, U2, Perla Batalla & Julie Christensen, e vários outros convidados especiais. Outros tributos de peso foram os discos “I'm Your Fan” (1991) e “Tower Of Songs” (1995), que igualmente contaram com a presença de muita gente famosa…
No mesmo ano, LC encabeça a produção e a co-autoria das músicas do disco de sua então nova namorada, a cantora havaiana Anjani Thomas. Em 2007, de uma parceria com o também canadense Philip Glass, lança “The Book Longing”, uma “ópera minimalista” composta em cima do livro homônimo de poemas de Cohen.


LEGADO

Apesar de pouco conhecido no Brasil, Leonard Cohen é um dos compositores mais queridos da música pop. Mote de acaloradas discussões em círculos literários e mesas de bar, este é tema constante de teses e monografias mundo afora, “comparável” a Vinícius de Moraes.
Tendo recebido até uma homenagem de Kurt Cobain em “Pennyroyal Tea”, Leonard Cohen também tem sido regravado por artístas como Johnny Cash, Willie Nelson, Neil Diamond, Elton John, Eric Burdon, Bob Dylan, Dion Di Mucci, Joan Baez, John Cale, Frida Lyngstadt, Echo & The Bunnymen, REM, Jeff Buckley, Pixies, U2 etc e brasileiros como Renato Russo e Tony Platão, só para citar alguns.
Uma boa dica aos que o desconhecem, é a coletânea “The Essential Leonard Cohen”, um cd duplo que cobre quase 4 décadas de sua carreira na música.
Especula-se que até março de 2009, um novo disco seu sairá. É esperar para ouvir!

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Max Merege é pesquisador musical de Cuiabá. Já foi radialista, trabalha na propaganda, já teve banda de rock e influenciou muita gente. Só não cumprimentou o Leonard Cohen, ainda!
Artigo originalmente publicado em duas partes
dias 23 e
30 de Novembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

O Q Q A ALEMOA TEM ?!


LINDA GAROTA DE BERLIM

Nina Hagen é uma das figuras mais enigmáticas que apareceram na cultura pop dos últimos 40 anos. Com uma vida e uma carreira recheadas de altos e baixos, ela é prova viva do artísta que se recicla e que atravessa os anos com a mesma vitalidade de quando surgiu para o mundo.


O começo de tudo


Leste de Berlim, há 5 décadas atrás...


Catharina Hagen nasceu no dia 11 de Março de 1955, em Berlim, na então Alemanha Oriental. Filha de Hans Hagen e Eva-Maria Hagen, uma artísta muito conhecida por aqueles lados da Alemanha.
Aos 2 anos testemunhou a separação de seus pais, sendo que com o passar do tempo seu contato paterno fez-se cada vez mais raro. Contudo, foi na família que Nina teve sua primeira grande influência na vida artística. Aos 4 anos entrou para o ballet e aos 9 já era considerada um prodígio na ópera. Quando fez 11 anos, sua mãe se casou com um intelectual subversivo chamado Wolf Bierman. Tamanha foi a influência das idéias do padrasto que, no ano seguinte, Nina conseguiu ser expulsa (!!!) da Juventude Socialista. Aos 16, deixou a escola para montar uma banda, com a qual conseguiu a proeza de adicionar ao repertório muitas músicas que até então eram proibidas pelo regime, como canções de Janis Joplin e Tina Turner.



Carreira


Capa de "Du Hast den Farbfilm vergessen",
coletânea
que abrange todo o começo de sua carreira.


Por volta de 1972-73, Nina estudou performance musical no "Estúdio Central da Música Leve de Berlim Oriental" (!) e em seguida formou a banda Automobil, tornando-se muito conhecida naquela região, principalmente como a mais jovem revelação da schlagermusik (música pop alemã), o que durou até 1975, tendo inclusive lançado alguns singles pelo selo estatal AMIGA e excurcionado por toda a região da Saxônia e de Brandemburgo.


Nina Hagen & Automobil, 1974

No ano seguinte, seu padrasto havia consiguido um visto de trabalho para entrar na Alemanha Ocidental, todavia teve negada sua entrada na volta ao lado leste. Eva-Maria e Nina, por sua vez, conseguiram um visto para "passar uns tempos" com Bierman do outro lado. Ambas foram embora para nunca mais voltarem à Alemanha Vermelha.
Já no lado ocidental, Nina se mandou para Hamburgo e assinou um contrato com a CBS de lá.
Aconselhada pelo pessoal da gravadora a se aclimatar ao estilo de vida ocidental, viajou por toda Alemanha Ocidental, Austria e Suiça, tendo ainda passado uma temporada na Inglaterra, onde frequentou a cena local e estreitou seu convívio com gente como The Slits, Joe Strummer, John Lydon, Siouxie Sioux etc.
De volta à Alemanha, formou em 1977 a Nina Hagen Band, com a qual gravou os discos "Nina Hagen Band" (’78) e "Unbehagen" (’79), sendo que este último se dividiu em uma parte instrumental gravada na Alemanha e os vocais gravados em Los Angeles, EUA, já que ela tinha outros planos para sua carreira que não ficar na Europa germânica...




Anos 80

Nina & Cosma Shiva, 1982


Tocando com uma nova banda, Nina fez uma bem sucedida tour pela América do Norte. Pouco tempo depois, engravidou do músico Ferdinand Karmelk e em maio de '81, deu a luz à filha Cosma Shiva Hagen, em Los Angeles mesmo. No ano seguinte lançou o album "NunSexMonkRock", seu primeiro disco inteiramente em inglês e recheado com toda sorte de sonoridades.
Por volta de '83, as mudanças se fizeram mais pungentes, pois passou a incluir em suas entrevistas assusntos como transcendência, ufologia, direitos dos animais e vegetarianismo.
Não demorou muito e Nina Hagen fez seu primeiro show no Brasil, em 1985, no primeiro Rock In Rio. Foi uma das melhores apresentações de então, pois poucos artístas tinham a capacidade de concatenar públicos tão diversos, como fãs de heavy-metal, punk rockers e entusiastas da new wave. De quebra, um então garoto conhecido como Supla convidou a diva para um dueto na música "Linda Garota de Berlim", que saiu no disco "Humanos", da banda Tokio. Verdade seja dita, esse disco do Tokio só vendeu mesmo por causa da participação de Nina, algo que se repetiu em 2002, com a mesma música, no disco “Charada Brasileiro”

1985...

Uma parceria com Lene Lovich, traz em '86 o single "Don't Kill The Animals". No ano seguinte, para celebrar o fim de um contrato de 10 anos com a CBS e o casamento com um carinha 15 anos mais novo, Nina lança, de forma independente, o EP "Punk Wedding".
Em '89, sai o album "Nina Hagen" e ela parte para uma tour pela Alemanha, na mesma época em que, da relação com o francês Frank Chevallier, nasce seu segundo rebento: Otis Chevalier-Hagen.



Anos 90


1995

Entra uma nova década e Nina está vivendo em Paris, com seus dois filhos. Lançando discos regularmente, faz muitas tours pela europa e parcerias com muita gente importante (Udo Lindemberg, Dee Dee Ramone, Adamski, Christopher Franke, Rick Jude, Thomas D., KMFDM etc).
Os anos de 1998 e ’99 foram os mais atribulados em termos de trabalho, pois além de gravar o hino de um time de futebol Eisern Union, como um cd-single, Nina também passou a apresentar um programa sobre ficção científica na tv inglesa. Em ’99, lançou o puramente religioso “Om Namah Shivay”, que só foi vendido pela internet. No mesmo ano realizou um velho sonho: encenar uma peça de Kurt Weill e Bertholdt Brecht, na qual fez o papel de Celia Peachum, na peça “Die Dreigroschenoper” (A Ópera dos 3 Centavos).

Die Dreigroschenoper, 1998




Anos 2000

Big Band Explosion, 2004


Após um período de constantes acontecimentos, Nina Hagen adentra a nova década com o pé direito! Seu single “Schön Ist Die Welt” torna-se a música oficial da Expo 2000. Em fevereiro do ano seguinte, lança o disco “The Return Of The Mother” e ainda faz alguns trabalhos com Rosenstolz e Mark Almond (Soft Cell).
Não faz muito, ela gravou com os finlandeses do Apocalyptica o single “Seeman”, uma música do Rammstein, e também o album “Big Band Explosion”, no qual evidenciou sua faceta de crooner ao gravar vários clássicos de swing .

Nina Hagen & Apocalyptica - Seemann / 2003


Nos últimos anos, Nina Hagen tem sido uma ferrenha opositora à guerra no Iraque, além de, é claro, uma incondicional defensora dos direitos dos animais e vegetariana convicta. Enfim, uma legítima deusa da música pop, herdeira artística de Marlene Dietrich, Carmen Miranda e David Bowie, que a toda hora se reinventa, sem correr o risco de envelhecer, mesmo com 50 e poucos anos nas costas...


Promo do Programa de Sci-Fi da tevê Inglesa


Dinamarca, 2002




Artigo originalmente publicado
dia 09 de Novembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

COMO BRIAN WILSON MUDOU A HISTÓRIA

por Max Merege

BENDITO SEJA O SOL …


Há exatos dois mêses, o cantor e compositor norte-americano Brian Wilson lançou o disco “That Lucky Old Sun”, que contou com a participação mais que especial de Van Dyke Parks, um velho amigo e parceiro de longa data, na composição das letras.

“That Lucky Old Sun” surge em um momento mais que oportuno (os EUA têm encarado maus bocados ultimamente!), pois ao mesmo tempo em que evoca imagens de um passado contrastante, também ajuda a reescrever um futuro, na esperança de que mesmo em tempos tão difíceis é possível fazer boa música.

Para os saudosistas, um prato cheio de sonoridades que nunca envelhecem. Para os leigos, um prato cheio de “barulhinhos” delíciosos e canções perfeitas para se ouvir no último volume, ao final da tarde, curtindo um happy hour!

Entretanto, este disco nunca teria saído se BW não tivesse pavimentado seu caminho, ao longo de muitos e muitos anos…




PET SOUNDS E O CONCEITO DE ALBUM CONCEITO




Há quem afirme que o dito rock progressivo tenha surgido com os Beatles, ou também da psicodelia garageira que perdurou no primeiro mundo entre 1964 e '68 (Pink Floyd é o exemplo mais comum!).

Fato é que as verdadeiras experimentações no rock só vieram mesmo à tona - para o grande público - quando Brian Wilson, à frente dos Beach Boys, e que havia 5 anos colecionava um hit atrás do outro, lançou em 1966 a pérola sonora "Pet Sounds", o primeiro disco da história a esgotar todos os recursos técnicos de estúdio até então disponíveis e a explorar os limites da percepção humana.

Ainda que fossem bons músicos na estrada, os Beach Boys propriamente, só gravavam as vozes. Para BW, o trabalho de estúdio precisava ser tercerizado mesmo, uma vez que o album "Pet Sounds" foi inteiramente escrito e arranjado por ele (salvo algumas co-autorias de Tony Asher e Mike Love nas letras) e teve toda a parte instrumental gravada pelos melhores músicos de estúdio da época, o pessoal do WRECKIN' CREW.

Para se ter uma idéia da importância, basta lembrar que até então a produção de um artista da música pop se baseava na cultura dos “singles” e em critérios canônicos estabelecidos pelas gravadoras, firmados em músicas de trabalho e hits em potencial, por exemplo.

“Pet Sounds” inaugurou a era dos "discos conceito". As músicas passavam a ser interdependentes, como se uma faixa fosse a continuação da anterior, como capítulos de um filme.

Mas voltando ao "Pet Sounds", o episódio mais conhecido de sua supremacia foi o fato de o então beatle Paul McCartney ter todos seus sentidos mexidos após ouvir o disco, tanto que até hoje ele cita a faixa "God Only Knows" como a melhor música já feita na história! Tamanho foi o encanto exercido que, logo após escutá-lo, McCartney correu para o produtor da banda, o maestro George Martin, e pediu-lhe "encarecidamente" para orientar os Beatles na composição de uma obra tão linda quanto aquela preciosidade vinda da Califórnia. Não demorou muito e nasceu assim "The Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"...




UMA SINFONIA ADOLESCENTE PARA DEUS




Ao ouvir "The Sgt. Peppers...", Brian Wilson sentiu na alma e na carne a mesma sensação que Paul McCartney antes sentira ao ouvir "Pet Sounds". Não deu outra: decidiu que era hora de ir "à forra"! Lançou mão do mesmo time presente em Pet Sounds e da parceria de seu amigo Van Dyke Parks, um músico e poeta fruto da beat generation, e assim iniciou o projeto “Smile”...

Inspirado em Phil Spector e no maestro Esquivel, BW se enfiou de cabeça nos estudos da música contemporânea (minimalismo, serialismo, música aleatória etc) e no fantástico mundo das drogas psicodélicas.

“Smile” foi definido pelo próprio BW, do alto de seu deslumbre lissérgico, como “uma sinfonia adolescente para Deus”. O disco em si já havia sido todo composto e teve inúmeras horas de gravação de estúdio. Todavia, no meio-tempo em que se cunduzia a execução do trabalho, os Beatles já haviam lançado uma seqüência de outros petardos, como o filme "Yellow Submarine", "Magical Mistery Tour" etc. Já com seu cérebro literalmente corroído pelas drogas e por um trabalho que nunca se concluia, BW acabou saindo de órbita e dos Beach Boys também, deixando assim uma obra inacabada.

Tamanha foi a densidade do projeto “Smile”, que os próprios Beach Boys remanescentes cuidaram de "esquartejar" o repertório e montar os 6 discos subseqüentes da banda. O material bem que saiu, mas sem o aval de BW!



ANOS MAIS TARDE...

Chegando os anos 90, após duas décadas e meia de muitas idas e vindas, BW enfim está limpo!

Retomando em 1995 sua parceria com Van Dyke Parks, faz os vocais no modesto porém honesto album “Orange Crate Art”, que segundo muitos fãs, soa como “desfecho” para uma trilogia bizarra iniciada em ’66 com a perfeição absoluta de “Pet Sounds” e permeada pelo caos de um “Smile” inacabado.




SÉCULO XXI




Em 2002, amparado pela banda The Wondermints, BW reproduz ao vivo o clássico Pet Sounds, sob o nome de “Brian Wilson Presents Pet Sounds”, respeitando à risca a ordem das músicas e os arranjos originais!


Na carona desse sucesso e por sugestão dos Wondermints, o projeto “Smile” é retomado em 2003, sob a forma de um show ao vivo. A idéia deu tão certo que o pessoal se reuniu em estúdio para o filtrar todo o material já gravado em '67, estabelcer as devidas emendas e assim concluir de uma vez por todas sua “sinfonia adolescente para Deus”. O time era encabeçado por ninguém menos que o próprio BW e o letrista Van Dyke Parks, com o suporte dos próprios Wondermints, Jeff Foskett (guitarrista de estrada dos Beach Boys) mais uma orquestra de afinação impecável!


O cd “Brian Wilson Presents Smile” finalmente sai em 2004, o que rende a BW um certo reconhecimento tardio, marcado por matérias jornalísticas em todos os veículos possíveis, ótimas vendas, recorde de downloads, várias indicações ao Grammy etc. Justiça essa que o tempo cuidou de fazer...

Dos Beach Boys, os irmãos Dennis e Carl Wilson já não se encontravam mais pelo mundo dos vivos. Nesse interim, enquanto Mike Love, Bruce Johnston e Al Jardine ainda vivem de tournées caça-níqueis, Brian Wilson colhe os louros da glória de ser uma das personalidades mais influentes na história da música pop. Inclusive, há cerca de 2 anos, BW até veio tocar no Brasil, mas é uma pena que não tenha vindo conhecer nosso Pantanal...




Discos recomendados:


Beach Boys: Greatest Hits Vol. 1/ Vol. 2 / Vol. 3 (coletânea) e Pet Sounds (1966)

Brian Wilson: Love And Mercy (1988), Orange Crate Art (1992), Pet Sounds Live (2002), Brian Wilson Presents Smile (2004) e That Old Lucky Sun (2008).



Boneco Comemorativo. PET SOUNDS, 40 anos em 2006


Originalmente publicado
dia 02 de Novembro de 2008
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

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