sexta-feira, 19 de maio de 2017

KiD ViNil, o Adeus ao Heroi do Brasil

O Adeus ao Herói do Brasil 
Por Max Merege

     


 Eu ainda estava na primeira série e já sabia de cor e salteado todas as músicas do Magazine que então tocavam no rádio e na tv.... reza até uma lenda que na mesma época um caminhão bateu na minha cabeça enquanto eu cantarolava "tic tic nervoso"...Três anos mais tarde, no Natal de 86, ganhei dos meus pais um walkman com duas fitas cassetes: uma do RPM e outra do Kid Vinil & Os Herois do Brasil; uma era de um conjunto de pop bonitinho, rock serio etc, e a outra, bem, era de rock elegantemente escrachado, por vezes sacana e muitíssimo bem humorado. Não havia dúvidas, meu coração pulsava melhor na segunda fita.

Em meados de 88, já com 12 aninhos, eu rodava São Paulo toda do modo mais pilantra possível, pulando catraca e por aí segue.... criei coragem e zarpei de Pinheiros até o auditório Franco Zampari, pertinho da estação Tiradentes do metrô, só para assistir a gravação do Programa Boca Livre, da TV Cultura. A primeira vez que eu colei por lá troquei uma ideia com ele que então me falou que tinha material novo pra sair, se não com os Heróis do Brasil [sua parceria com André Cristovam], possivelmente com o Magazine, e de quebra ainda ganhei de presente dele umas revistas Bizz, daqueles especiais de letras traduzidas... por outras vezes mais ainda fui lá ver o Boca Livre :)


Legítimo cavalheiro e por vezes desbocado ["ô Max, manda esse contra-regra chato ir cifudê!!!"], Kid Vinil estava sempre muitíssimo bem humorado. Grande crooner e conhecedor de sonzeragens, muito do meu pequeno conhecimento sonoro devo a seus reviews presentes na extinta revista SomTrês [de uma coleção que aliás resgatei de um lixo também na capital paulista ], tendo inclusive me apresentado oficialmente ao verbete Psychobilly nos idos de '87. Na era digital cheguei a tê-lo no finado orkut e a segui-lo em uns 3 perfis de facebook, mas nada que substituísse uma boa troca de ideias. Mês passado passara mal em Lafayette - por instante pensei: "puta cara sortudo! Foi passar uns dias na Louisiana e certamente vai trazer na bagagem um monte de compactos da Excello"; mas a coisa não era bem assim, já que se tratava um show em Conselheiro Lafaiete, no interior mineiro, ao lado de outros grandes nomes do roque brasuca oitentísta. Foi hospitalizado e todo mundo ficou na torcida para que logo ele se recuperasse e voltasse com tudo, mas pelo jeito não foi desta vez.... hoje o Herói do Brasil se foi para a dimensão sem fronteiras, onde certamente vai encontrar grandes figuraças que tanto admirava e que nos ensinou a curtir.


Segue em Paz, KiD ViNiL
e que ainda possamos nos falar muito mais aí do outro lado...
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

LEMMY, lived to Win



Brinde a Deus - cervejada e nao lágrimas era o que ele quereria. 





LEMMY
Lived to win
por Max Merege

Será verdade mesmo?! Pior que é, Lemmy morreu!!!! E tudo o que podemos fazer, além de rezar e o escambau, é celebrar seu legado! Churrascada, cervejada, smurfetes de biquini, e muito, muito ROCK'N'ROLL, em alto e bom som!!!!
Recém completou 70 anos e soube no dia seguinte (26 dez) que estava com um câncer agressivo. (Vale lembrar que problemas de saúde atormentavam-lhe a vida já tinha um tempo. Diabetes, marca-passo e safenas no coração, e tudo mais que servia para avisar que Lemmy não era um sujeito indestrutível. Basta lembrar que em abril mesmo, no festival Monsters Of Rock, em São Paulo, ele acabou nem indo tocar por causa de sua já fragilizada saúde.)

O comunicado oficial da página do Motörhead

"Não existe um jeito fácil para dizer isso ... nosso poderoso, nobre amigo Lemmy faleceu hoje após uma curta batalha contra um câncer extremamente agressivo. Ele ficou sabendo da doença em 26 de dezembro, e estava em casa, sentado na frente da TV, curtindo seu jogo preferido do The Rainbow, onde fora recentemente com sua família.
Não tem nem como a gente expressar nosso choque e tristeza, não existem palavras.
Diremos mais nos próximos dias, mas por ora, por favor ... toquem Motörhead alto, toquem Hawkwind alto, tocar a música de Lemmy NAS ALTURAS!
Tome uma birita ou umas.
Compartilhar histórias.
Celebre a VIDA deste adorável e maravilhoso cara, que celebrou tão vibrantemente a si mesmo.
ELE IRIA QUERER EXATAMENTE ISSO AÍ.
Ian 'Lemmy' Kilmister
1945 -2015

Nascido para perder, viveu para ganhar."

Nascido no interior da Inglaterra, em 1945, foi criado pela mãe e pela e pela avó. Teve inúmeros oddjobs até ingressar aos 20 anos nos Rocking Vickers, sua primeira banda, na qual tocou guitarra e mandou ver num iê-iê-iê bem ao estilo The Who, tendo se lançado de fato a partir da Finlândia, já que lá eles eram bem mais populares que no Reino Unido propriamente.
Pouco tempo depois, Lemmy foi tocar com Sam Gopal, um pirado malaio de vibe holística que misturava blues com música oriental, soul e hardrock primitivo. Em seguida tornou-se roadie de ninguem menos que Jimi Hendrix. Em '70 conheceu Dave Brock e Robert Calvert, ao lado de quais passou a correr a estrada como baixista e vocalista do Hawkwind, uma banda avantgarde de prog-spacerock que em muito flertava com o krautrock que se produzia então na Alemanha. Doidão que era, Viu-se obrigado a deixar a trupe. Pouquinho tempo depois, formou o Motörhead, a banda mais barulhenta do planeta, que orgulhosamente manteve por 4 décadas a fio. Teve outros projetos também, segurou as pontas como baixista do Damned, montou banda de rock bailinho com Slim Jim Phantom e Danny B. Harvey, atacou de ator em "Eat the Rich", escritor, colecionador de tranqueiras de guerra e muito mais coisas que o tornaam um sujeito incrivelmente carismático e fascinante.
No último dia 15 de novembro, Lemmy enterrou seu velho parceiro, o baterista Phil Taylor.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RAVI SHANKAR - O adeus ao mestre da citara






RIP
RAVI SHANKAR
Por Max Merege

No dia 11 de dezembro o mundo da música foi apanhado de surpresa com a notícia da morte do mestre indiano da citara Ravi Shankar, vítima de uma insuficiência cardíaca e respiratória. Se por um lado ficamos tristes, por outro ficamos felizes por saber que este cumpriu com louvor sua missão, e de certa forma, fez do mundo um lugar melhor por meio de sua obra e de sua influência.
A Índia, também conhecida como a Terra dos Mil Deuses, é um país mysteryoso, repleto de contrastes e permeado por mais de cinco mil anos de história. É um lugar que transborda filosofia e exala religiosidade, e cuja cultura espalha sua influência pelos mais distantes rincões do planeta.
Na segunda metade do século XX, entre as décadas de 50 e 70, o ocidente viu-se diante de um gigantesco fluxo migratório oriundo do oriente, mais precisamente da Índia, da China, da Coreia e do Vietnam. Se cidadãos comuns emigravam em busca de uma vida melhor, o mesmo por assim dizer, também ocorria com mestres das mais diversas correntes, que neste interim enxergavam uma nova oportunidade de expandirem seus conhecimentos por meio de um compartilhamento com pessoas e pensamentos tão distintos. De certa forma, a geração beatnik e o flower power são reflexos dessa nova "remixagem" cultural.
Além da ansiosa espera pela Era de Aquário e do consumo inveterado de arroz integral e ácido lissérgico, pensadores ocidentais traziam à luz inúmeras obras do pensamento oriental. Meditação, yoga e artes marciais variadas enriqueciam o leque das práticas corriqueiras do dia-dia.
Na música, por sua vez, a coisa não poderia ser diferente. A cítara tornava-se um instrumento onipresente no pop de então, fosse com hippies norteamericanos, fosse com ídolos do rock britânico (vide os Byrds de Grahan Nash, os Beatles, os Rolling Stones, os Yardbirds, Led Zeppelin etc), e até mesmo com maestros modernos da Cinecittá de Roma. Os ragas de Ravi Shankar ecoavam por todos os lados...



Robindro Shaunkor Chowdhury nasceu em Varanasi, Índia , no dia 7 de abril de 1920. Filho de um professor de violino, de família bramane, desde muito cedo transitou pelo mundo artístico-cultural. Até os quatorze anos correu o mundo na companhia de teatro de seu irmão Uday Shankar. Aos quinze decidira que a música era o sua missão e foi ter aulas de com ninguém menos que Allauddin Khan, o maior mestre de citara de toda a Índia. Aos vinte e quatro anos, após concluir seus estudos, começou a trabalhar como compositor de trilhas sonoras e como diretor musical da All India Radio, de Nova Delhi, onde ficou até 1956, quando passou a excurcionar pela Europa, América do Norte e Australia, tendo inclusive gravado e lançado seu primeiro elepê 'Three Ragas', em Londres. No decorrer da década de 1950, Shankar e o violinista Yehudi Menuhin consolidaram uma forte e sincera parceria que duraria até a morte de Menuhin, em março 1999.
Das tantas corridas pelo mundo, Shankar tornou-se também amigo de Richard Bock, poderoso chefão da World Pacific Records, pela qual gravou e lançou muitos de seus discos nos anos 50 e 60. Brock, por sua vez, apresentou a música de Shankar para os Byrds, que não se fizeram de rogados e trataram de prontamente levar o novo acepipe sonoro para seu amigo, o Beatle George Harrison. A partir de então, Harrison fez de Shankar seu grande mestre na vida e na música... para tanto, basta constatar sua influência a partir da música "Norwegian Wood".
A imprensa chamou Shankar de "músico indiano mais famoso do planeta". Ravi Shankar tocou pelos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969).
Durante os noventa e dois anos em que caminhou pela Terra lecionou nos mais importantes centros do mundo; foi agraciado pelo premier Rajiv Ghandi com uma cadeira na alta câmara do Parlamento Indiano (1986-1992); e além de muitos amigos e parceiros que amealhou ao longo do tempo (trablhou com Mehunin, Harrison, John McLaughlin, Frank Zappa e tantos outros), colecionou Grammies, indicações ao Oscar (por "Gandhi", mas perdeu para John Williams em "ET", em 1982), casamentos e filhos músicos. De seus rebentos, os mais conhecidos são: o instrumentista Shubhendra Shankar (1942-1992), a cantora Nora Jones (1979) e a citarista Anoushka Shankar (1981). Curiosidade: tanto Ravi Shankar quanto sua filha Anoushka concorrem ao Grammy de 2013, com trabalhos distintos, na categoria "Melhor Album de World Music".
No último dia 6 de dezembro, Shankar deu entrada no Scripps Memorial Hospital, em San Diego-CA, EUA, com dificuldades respiratórias, tendo falecido às 4h30 da manhã do dia 11.
Segundo espiritualistas das mais diversas correntes, a partir do dia 11 de dezembro o mundo se veria diante de uma nova mudança, com o fechamento de um ciclo de 26 mil anos e o início de uma nova era chamada de "Precessional". Coincidência ou não, Ravi Shankar foi-se justamente na virada desta nova era. Misticismos à parte, a obra de Ravi Shankar transcende o tempo, o espaço e quaisquer convenções políticas, filosóficas e religiosas, já existentes ou que venham a surgir. Sua música etérea e eterna ficará para sempre guardada no coração da humanidade.

Ao vivo em Woodstock, 1969

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ED "BIG DADDY" ROTH e a Arte de Se Esquartejar os Signos



Como a Coluna do Max chega agora ao seu segundo ano na ativa, este resolveu que seria a hora de comentar um pouco sobre uma figura que exerceu uma influência MONSTRUOSA, não apenas sobre este colunista, mas na cultura pop dos últimos 50 anos e no rock'n'roll em si ...
Ed Roth (04/03/1932 - 04/04/2001) foi de fato uma figura iluminada. Filho de imigrantes alemães, aprendeu desde cedo que se quisesse conseguir algo, teria que pôr a mão na massa e meter as caras. Antes de completar 18 anos, já montava seus próprios carros Hot Rod a partir de sucata "garimpada" pelos ferros velhos e cemitérios de automóveis. Tido como um dos pais da cultura hot rod, juntamente com Von Dutch, Roth foi além e transformou sua arte num verdadeiro estilo de vida.
Seus carros conceito despertavam tanto a cobiça de quem os via que passaram a fazer parte de uma série de kits para montar da Revell. Aliás, graças a isso Roth tornou-se um híbrido de modelo e garoto propaganda ao encabeçar sua própria linha de produtos, passando então a ser conhecido com Ed "Big Dead" Roth.
Das suas criações, além dos super carros, a mais lembrada certamente é o Rat Fink (ou Ratazana Sacana, se preferir), que Roth bolou num instante de indignação com o culto ao Mickey Mouse, que tomava o mundo de assalto. Enquanto o camundongo de Disney simbolizava o belo, sem falhas, o rato de Roth era sua antítese pois além de ser grotesco e politicamente incorreto, Rat Fink era mais humano, e suas maiores virtudes, obviamente, eram seus defeitos, o que também o tornou um ícone da contracultura, sendo aclamado até mesmo por gente de peso como o escritor Tom Wolfe. Aliás, foi com o Rat Fink que Roth inaugurou a cultura das camisetas com mensagens, pois como o seu clube de hot rod precisava ter um uniforme, ele descobriu que poderia fazê-lo de modo mais simples possível, pintando com aerógrafo camisetas lisas brancas.
Não obstante, é bom lembrarmos de sua inconteste influência sobre a cultura roqueira a partir dos anos 60, desde o pessoal da cena surf californiana (Dick Dale, Beach Boys, Jan & Dean, Lively Ones, Frank Zappa etc), até as correntes "revivalistas" que brotaram sem dó nem piedade entre os anos 80 e 2000 (Stray Cats, Fuzztones, The Bomboras etc), passando pelo psychobilly (Cramps, Meteors, Batmobile), punk (Ramones, Dead Kennedys, Agent Orange e Misfits, que inclusive regravou o tema de Rat Fink), metal (Anthraxx, Metallica, White Zombie) e no gótico (a inglesa Alien Sex Fiend, cujo guitarrista e baterista carrega o nome artístico de Rat Fink Jr.).
Durante os anos 60 e 70, Roth teve um bom público por terras brasileiras, pois seus kits passaram a ser fabricados por aqui pela Revell e seus intrépidos carros e adoráveis monstrengos tornaram-se uma coqueluche entre os jovens de então (uma forte lembrança da minha infância é que meu pai tinha um boneco do Rat Fink, que eu adorava e chamava de "Monstrinho"! ). Em 2007, a Conrad Editora lançou um álbum de figurinhas. Aliás, nunca foi tão bom ter figurinhas repetidas já que cada uma era sempre um belo adesivo.
Roth partiu em 2001, mas deixou uma obra de valor inestimável, que ainda influenciará muitas e muitas gerações além por este mundo.
Por hoje é isso, meus caros. Um grande abraço a todos e até a próxima!
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Max Merege, que a exatos dois anos mantém a Coluna do Max, é um bandido que some mas não morre e que por muito tempo mais vai continuar escrevendo sobre rock.

domingo, 17 de outubro de 2010

OS DOIS LADOS DE UMA FARSA DO ROCK


Eis que finalmente temos um review sobre uma das situações mais polêmicas da história do rock, o filme "The Great Rock'n'Roll Swindle".
A história em questão gira em torno de como Malcolm MacLaren "inventou" os Sex Pistols e, por que não, como tudo desmoronou; pois em cerca de dez mandamentos devidamente ilustrados, ele explica passo a passo como fazer dinheiro do caos, já que um "lucro sujo não é nenhuma novidade", conforme diz a letra que dá título ao filme.
Contudo, por mais que ele se diga "o inventor" do punk, é bom lembrarmos que ele apenas o inventou dentro da cultura mainstream, como uma forma de se obter um boa receita para a Sex, uma botique temática que tinha com sua então esposa, a estilísta Vivien Eastwood. Ademais, o punk britânico há muito já fervilhava pelos subúrbios com bandas como Hollywood Brats, The Jam, Cock Sparrer e The Stranglers.
Feito pelo cineasta Julien Temple, o filme soa mais como uma série de alfinetadas de Malcolm MacLaren no vocalista John Lydon - a quem demitira da banda no começo de 78, que nos créditos ddo filme aparece como "O Colaborador" - do que um filme de rock propriamente. É claro que existem inúmeros momentos divertidos e que sua trilha é um dos mais maiores clássicos do gênero, pois além dos Sex Pistols em si, podemos ouvir pérolas do TenPole Tudor (banda do conde Edward Tudor Pole, sobre quem ainda falaremos por aqui), o próprio MacLaren, o famoso ladrão Ronald Biggs direto do Brasil e por aí segue... Rola também uma série de desenhos animados pra lá de toscos que ilustram a trajetória da banda, com a pretensão de chocar ( isso, para 30 anos atrás!).
Lançado em 1979/80, o filme "the Great Rock'n'Roll Swindle" conta com um final "extendido" pela aparição das inúmeras notícias de jornal acerca da morte do baixista Sid Vicious, um talento promissor vitimado por sua própria vaidade aos 21 anos de idade.
Duas décadas mais tarde, entre o final de 1999 e o começo de 2000, é chegada a vez dos remanescentes da banda darem o troco no empresário...
Desta vez o filme "The Filth And the Fury" ( o Lixo e a Fúria ), feito pelo mesmo Julien Temple, trata da visão dos próprios Sex Pistols a respeito de tudo o que envolveu a "grande farsa do rock'n'roll". Desde o antes até o depois, passando por um durante marcado por excertos do filme de 79 em si, cenas dos bastidores e cenas inéditas. John Lydon, Steve Jones, Paul Cook e Glenn Matlock, não pouparam "elogios" ao seu antigo empresário. Todos os integrantes, já na casa dos 45, aparecem com seus rostos escondidos pela escuridão.
Realista, "The Filth And the Fury" mostra não apenas uma banda "forjada", mas uma turma de garotos que apesar de não morrerem de amores uns pelos outros, canalizavam suas energias para algo maior, tocando muito punk rock! O que fazia todo o sentido, ainda mais em uma Inglaterra em petição de miséria, onde gente deslumbrada fingia que tudo estava bem, mesmo vivendo em cidades entupidas de lixo pelas ruas (os garis faziam uma greve atrás da outra).
Ao mesmo tempo em que tudo é posto em pratos limpos, muitas máscaras também caem e eis que a tônica de tudo é dada por John Lydon, logo no final de seu último show à frente da banda, em 78, quando perguntou para a platéia: "Vocês já tiveram a sensação de estarem sendo enganados?"; certamente foi nesse instante que Malcolm MacLaren teve o insight e vislumbrou sua grande chance de formalizar seu golpe e dissertar acerca de uma "farsa de rock", ainda que por meio de um filme. Entretanto, ele nunca podia imaginar que aqueles até então ingênuos meninos do subúrbio pudessem lhe retribuir a "gentileza", mesmo que para tanto precisassem amadurecer uns vinte anos.



sábado, 9 de outubro de 2010

VARIAÇÕES D'ALÉM MAR


Pouco ou quase nada conhecida por aqui, a música de Antônio Variações é um desses belos tesouros cuja descoberta só foi possível graças ao advento da internet. Não se trata de algum grande vendedor de discos ou de galã de fama universal, mas de um grande artista da língua portuguesa ao qual apenas agora podemos conhecer e entender que, apesar de “tudo”, suas ideias refletiam (e refletem atemporalmente) apenas verdades universais cabíveis a todo e qualquer ser humano.
Nascido na cidade portuguesa de Braga e criado no interior, Antonio era filho de gente humilde do campo. Sua infância dividiu-se entre os estudos e o trabalho na roça. Aos onze anos, teve o seu primeiro emprego, e, um ano depois, partiu para Lisboa. Foi officeboy, barbeiro, balconista e caixeiro. Entrou para o quartel e foi servir na Angola, o que lhe encorajou a seguir para outros cantos. Primeiro foi Londres e em seguida Amsterdam, quando descobriu um novo mundo, sentiu que podia trazer para Portugal, um lugar então afundado no atraso econômico e cultural, uma nova maneira de viver. Em Amsterdam aprendeu a profissão de cabelereiro que mais tarde, quando voltou, passou a exercer em Lisboa, quando também resolveu “sair do armário” e assumir-se ante àquela obscura realidade conservadora que permeava Portugal.

Montou uma banda, o grupo Variações, que em pouco tempo já atraia as atenções. Por um lado, um visual excêntrico ao extremo e, por outro, sua versátil musicalidade que combinava muito bem estilos como o rock, o pop, o blues e, é claro, o fado.

Em 1978, grava uma demotape e logo assina seu primeiro contrato. Em 1981 começou a participar de programas de televisão. Sua música e seu estilo próprio e inconfundível fizeram com que depressa alcançasse considerável fama em seu minúsculo porém diverso país.

Gravou pouca coisa, mas gravou material de muito boa qualidade, não apenas sonora mas poética também. Editou o primeiro single com “Estou Além” e “Povo que Lavas no Rio”, de Amália Rodrigues (sua maior referência). Logo em seguida, gravou o seu primeiro elepê, Anjo da Guarda, onde se destacaram sucessos portugueses como “É p´ra Amanhã” eO Corpo É que Paga”.

Em fevereiro de 1984 vem à luz seu segundo trabalho, “Dar e Receber”, de onde vem sua música mais famosa, a “Canção do Engate”. Dois meses mais tarde, dia 22 de Abril, Antonio Variações se apresentaria pela última vez, em um concerto pelo interior. Depois disso, só apareceria mais uma vez em público, em um conhecido programa da RTP.

Quando Canção de Engate invadiu as rádios, António Variações já se encontrava com a saúde bastante debilitada. Internado em um hospital da Cruz Vermelha, morreu aos 40 anos, na noite de Santo Antônio (13 de Junho), vítima de uma broncopneumonia, causada pela AIDS.

Vinte anos após a sua morte, foi lançado um álbum em sua homenagem, com canções da sua autoria que nunca tinham sido editadas; conhecidos músicos portugueses juntaram-se e gravaram 12 músicas selecionadas de um conjunto de fitas "perdidas" no património de Variações.

Em entrevista, António Variações explicou o nome escolhido: "Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exatamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos."


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 10/10/2010.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MINUTEMEN: O Legado Dos Homens-Minuto Ao Longo Dos Anos

MINUTEMEN: George Hurley, Mike Watt & D-Boon


Minutemen foi uma das bandas mais emblemáticas do punk californiano da década de 80 e, acreditem, sua influência ainda é sentida por toda parte, não apenas por seu clássico "Corona", eternizado como tema do Jackass, mas também pelo interesse daqueles que querem saber quem é o tal do Mike Watt, que hoje é o baixista dos Stooges.
Pois bem, tudo começou mesmo nos idos de 72/73, quando dois amigos de vizinhança, Mike Watt e D. Boon, resolvem tocar apenas por diversão. Até onde se sabe, nenhum dos dois fazia a menor ideia da diferença entre um baixo e uma guitarra, até a mãe D. Boon pô-lo para estudar guitarra. Os anos se passaram e ambos integraram inúmeras bandas de curta duração
Em 78, encantados pela rebeldia punk, juntaram-se aos amigos Martin Tamburovich e George Hurley para formarem o The Ractionaries. Não gravaram nada formalmente, apenas algumas demos ao vivo. Já em 1980, o mesmo pessoal mudava o nome e a ideia sonora da banda, dando início a uma nova empreitada: The Minutemen.
O nome em si já dizia a que vieram: Os Homens Minuto; ou seja, músicas que nunca chegavam aos dois minutos de duração; mas era também uma sacanagem com uma organização paramilitar de extrema direita que existiu nos anos 60.
"Paranoid Time", seu primeiro epê de 7", foi gravado de modo simples, em apenas dois takes e produzido pelo lendário Greg Ginn, líder e guitarrista da banda Black Flag. Como toda banda DIY que se preze, tanto esse epê quanto seu sucessor "Joy" eram vendidos em seus gigs. No entanto acertaram-se mesmo com seu primeiro elepê "Punch Line" e o epê "Bean-Spill", de 81, tornando-se uma das maiores bandas do underground norte americano.
Dispostos a fazer rock simples e sem frescura, logo apareceram com seu segundo elepê, "What Makes a Man Start Fires?", que atraiu para si as atenções da imprensa especializada de então. Logo em seguida caíram na estrada e excursionaram pela europa com o pessoal do Black Flag
Entre epês e elepês, os "Homens Minuto" mantiveram uma carreira bastante produtiva, até 1985. Lançaram: "Buzz or Howl Under the Influence of Heat" (1983), "The Politics of Time", "Double Nickels on the Dime" e "Tour-Spiel" (1984), "3-Way Tie (For Last)" e "Project: Mersh" (1985), tendo ainda participado do projeto MINUTEFLAG, com o pessoal do já citado Black Flag.
Infelizmente, em dezembro de 85, D Boon morreu brutalmente em um acidente de carro. Mike Watt se afundou em uma terrível crise depressiva, que duraria cerca de ano e meio, época que se junta ao amigo George Hurley no projeto fIREHOSE, encabeçado por Ed Crowford, um guitarrista e fã do Minutemen que os encorajou a voltar a tocar. O projeto fIREHOSE durou 8 anos!
Logo após o fim do fIREHOSE, George Hurley seguiu tocando pelo underground norte americano e Mike Watt, ascendeu-se como um excelente "concatenador" de figurões, afinal, encabeçou uma reunião dos remanescentes do Nirvana (Dave Grohl, Kyrst Novosellic e Pat Smear) e, é claro dos Stooges.

Em 2005 saiu o documentário "We Jam Econo", dedicado ao legado do Minutemen.

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CEDÊS

Nina Hagen, Personal Jesus

Nina Hagen cantando gospel?!?! Pode até soar um tanto estranho, mas é a mais pura verdade! Até porque, com toda sua estrada e experiência acumulada ao longo de 55 anos de uma vida extremamente musical, a diva alemã é uma dessas poucas personalidades que tem o total e irrestrito direito de gravar o quê e como bem entender. Fortemente influenciado pelo blues, folk, country e gospel das igrejas americanas, este cedê (cuja produção Nina custeou do próprio bolso) mostra uma vertente surpreendente da cantora e serve também de lição para o chamado "white metal" e o famigerado "pop cristão", seja de qual orientação for.


Brian Wilson
Reimagines Gershwin

Há quem diga que releituras da obra de George Gershwin sejam algo pra lá de batido, principalmente entre veterânos que já não têm mais o que mostrar. O novo disco de Brian Wilson, o eterno Beach Boy, desmente essa máxima e traz à luz muito material então inédito do compositor norte americano de origem judaica. Brian Wilson sempre foi um fã de Gershwin e este cedê pode, sim, soar algo tão pessoal quanto os clássicos "Pet Sounds" (1966) e "Smile" (1967/2004), dos quais é possível ouvir ecos em seu transcorrer. Uma justa e honrosa homenagem a Gershwin e que também deixa transparecer muitos elementos de nossa bossanova, em clássicos como "Summertime", "I Love You Porgy", "I Got Rhythm" etc.

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 22/08/2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

CRUMB STUFF: o pai das HQs underground, no Brasil

"Não estou aqui para ser polido"


Eis que o pai dos quadrinhos underground chega ao Brasil... Ele esteve na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. “Extravagâncias” à parte, Robert Crumb é considerado um dos maiores gênios dos quadrinhos nos últimos 50 anos. Talvez o nome nem soe tão familiar para nosso amado público leitor, mas seu traço inconfundível, sim!
Bons exemplos não faltam.... a capa do clássico álbum “Cheap Thrills” da Janis Joplin foi feita por ele, e personagens do universo adulto das HQs como Mr. Natural e Fritz the Cat também são figurinhas carimbadas que saíram da mente desse autor.
Filho de um militar ultra autoritário e de uma dona de casa superprotetora, Crumb tinha tudo para acabar seus dias em um hospício, já que em sua casa ninguém funcionava bem da cabeça. No entanto, com ele a história foi muito diferente...
Feio, corcunda, magrela, vesgo e com um baita óculos fundo de garrafa, ele sempre foi a antítese do bonitão escolar, capitão do time de futebol americano que pegava todas as líderes de torcida. Tornou-se, sim, um legítimo cronista da realidade que o cercava, principalmente do sistema fascistóide que previa o “extermínio” de todos os nerds.
Ganhou notoriedade na década de 60, quando passou a desenhar, produzir e vender suas próprias revistas em quadrinhos – a Zap Comix, principalmente – pelas ruas de uma San Francisco povoada por bichogrilos e cantada por hippies notáveis.
Reza a lenda que tanto Robert Crumb, quanto seu parceiro Gilbert Shelton, mais o guitarrista Jerry Garcia, costumavam fumar meio quilo de maconha por vez para fazerem suas brainstorms e assim criarem suas histórias mirabolantes, mas o próprio Crumb já desmentiu isso por diversas vezes.

famosa capa do disco "Cheap Thrills" da cantora Janis Joplin


Ano passado, saiu em terras brasileiras seu álbum “Genesis”, a versão em quadrinhos para o famoso livro da Bíblia. Não obstante, Crumb já fez excelentes adaptações em HQ para obras de Franz Kafka, Charles Bukowski e Phillip K. Dick.
Dentre suas preferências, duas coisas são sagradas: música e mulheres. No tocante às mulheres, seu maior trunfo é fazer mulheres realmente fortes, dotadas de pernões, coxões, peitões, bundões e outros tantos atributos mais. Aliás, a perfeita oposição às insossas modelos que povoam as passarelas e o mundo da moda em geral.
Quanto a música, além de “quadrinizar” a vida de lendas do blues como Robert Johnson e Charlie Patton, tem lançado coletâneas com pérolas do mundo inteiro – retiradas principalmente de sua coleção de discos 78rpm – e, é claro, mantém um grupo de “chorinho” também.

Mulher Crumbiana

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 08/08/2010.

CJ RAMONE - Brasilia, 23 de Julho de 2010

Para quem não está familiarizado com o nome, Christopher Joseph Ward é ninguém mais ninguém menos que o C.J. Ramone, ex-baixista dos lendários RAMONES.
Em tour pelo Brasil, CJ tem tocado por diversas capitais. No centro oeste, as capitais escolhidas foram Goiânia e Brasilia, e é justamente do show de Brasília que a gente fala...
Foi simplesmente incrível! Meio burocrático, sim! Mas em se tratando de músicas dos Ramones tocadas por seu mais ilustre herdeiro, isso já era de se esperar.
Foi na madrugada de sexta para sábado, no America Rock Club, uma casa de shows de Taguatinga que tem recebido muita figurinha carimbada do rock. A barulheira começou mesmo às 11h da noite, com abertura impecável da banda The Squintz, tocando punk rock puro e sem frescura. Em seguida, um intervalo de 20 minutos e um teste para os nervos do público ávido por clássicos tocados por alguém que os conhece como ninguém. Enfim, começa o show...
"Blitzkrieg Bop" foi chute inicial e seguiu-se uma série de clássicos ramonianos como "Judy Is A Punk", "Beat On The Brat", "Sheena Is A Punk Rocker", "Animal Boy", "Wart Hog", "Pet Semetary", "Poison Heart" etc. O povo se agitava e pulava incansavelmente nos 60 minutos de pauleira. Foi um belo show, extremamente simples e profissional, baseado na total sinergia entre os músicos e o público. Além do CJ, a banda contava com a presença do guitarrista e produtor Daniel Rey, também conhecido como "O 5º Ramone" e que desde '87 tornou-se parte crucial em tudo que os Ramones (tanto releases da banda quanto material solo dos integrantes) viriam a fazer em estúdio desde então, e do muy competente baterista Mike El Bastardo. Sem mais  delongas, um show para ficar na história!

Max Merege, CJ Ramone & Rodrigo Licar - Foto: Jessyca Hagen


Um pouco de História...

Tudo começa em 1990 quando o baixista fundador, Dee Dee Ramone, resolve parar de tocar com a banda, já que a estrada era implacável com uma média de 360 shows por ano. Mas isso não significou o seu afastamento total, afinal, ele continuou compondo e cuidando bem de seu sucessor.
Os Ramones, por sua vez, trataram de buscar logo um sucessor à altura. Fizeram inúmeros testes com vários elementos, sendo que muitos nem sequer tocavam e só apareciam por lá apenas para contemplar a presença de Joey e Johnny. Algum tempo passou e vários tantos pretendentes também, até que alguém de fato chamou atenção por seu jeito despojado, sem querer parecer cópia de ninguém, pois só queria mesmo saber de tocar: era o C.J. ! Não deu outra e no dia seguinte já ensaiavam para dentro de um mês caírem na estrada. A história deu tão certo que C.J. permaneceu fiel à banda até os seus últimos dias, durante 7 anos e ainda continuou em diversos outros projetos.
Graças à sua vida de RAMONE, C.J. obteve tudo o que simples mortal podia almejar: fama, grana e mulheres ... Afinal, casou-se bem por duas vezes. Tem se mantido na ativa à frente de projetos como as bandas LOS GUSANOS, BAD CHOPPER e seu trabalho solo ao lado de do "5º Ramone", o guitarrista e produtor Daniel Rey - Rock'N'Roll enérgico, sem frescura e escalpelante, assim é a estrada desse bravo guerreiro.

Agradecimentos: AMERICA ROCK CLUB e Andy Robbins, por nos cederem todo o background para a realização desta pequena porém honesta matéria.


VINICIUS DE MORAES: QUEBRA-SE O SILENCIO DE UM SILENCIO


Quando faltavam exatos 97 dias para que ele completasse 97 anos de seu nascimento (contudo, no trigésimo aniversário de sua morte), eis que recebemos uma agradável notícia: uma letra sua, inédita, apareceu!
Seu novo achado foi a letra de "Silêncio", que a princípio deveria ter sido musicada por Baden Powell, mas que graças ao eterno caos de suas coisas - uma bagunça generalizada entre seus livros, discos, escritos etc; nunca chegou a ver a luz do dia, não até que seus filhos "desenterrassem" uma folha com os seguintes versos: é o amor que te fala / é o amor que se cala / e que despetala / a flor do silêncio. Agora, ela se encontra aos cuidados de Edu Lobo, a quem fora confiado musicar a preciosidade. É só uma questão de tempo para seu lançamento (16 de outubro próximo, talvez).
Tudo bem que muito já se falou sobre sua figura por aqui, mas convenhamos que Vinícius de Moraes é sempre um assunto tão agradável quanto um bom vinho, ou até mesmo um daqueles raros prazeres da vida.
Nosso amado e eterno Poetinha foi tudo o que muitos de nós gostariamos de ser ou de ter sido. Até seus 33 anos conquistara muitas coisas e logo em seguida foi advogado, jornalista, correu o mundo, viveu a boemia, namorou demais, bebeu um monte e curtiu a vida adoidado. Agora digam: tem coisa mais rock'n'roll que isso?!
E o mais doido de tudo é que ele sempre se dava bem, e só foi bater as botas com quase 67 anos, depois de nove casamentos, cinco filhos e três netos.
Sua parceria com Tom Jobim é o maior marco da bossanova, e "Garota de Ipanema" então?! Disputa com "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, a medalha de ouro no top 10 das canções brasileiras mais lembradas mundo afora.
Em 1968, quando se apresentava em Portugal, recebera a notícia de que o governo, por meio do AI-5 o demitira do cargo de Embaixador Brasileiro em Lisboa. E para completar, uma turminha de manifestantes slazaristas faziam muito barulho do lado de fora. Vinícius fora orientado a sair pela porta dos fundos, mas como era teimoso, saiu pela frente mesmo! Não deu outra, encarou todo aquele povinho e conquistou seu silêncio. Tão logo proferiu os versos de "Poética I" ("De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo"), os estudantes estenderam-lhe suas capas ao chão, como um tapete, gesto este que na Europa tem um significado muito próximo ao de se honrar um mestre.
Outra das histórias curiosas acerca de seu nome é a de que nos idos da década de 60, a jovem estudante norteamericana, Stanley Ann Dunham, encantada por filme "Orfeu Negro" (filme de Marcel Camus, baseado na peça "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes), descobriu o seu amor em um estudante queniano, e assim gerou o mais icônico dos presidentes dos EUA. Trocando em miúdos, não fosse o nosso Poetinha, é possivel que o Obama jamais teria existido.
Enfim, mesmo tendo partido há exatos trinta anos, Vinícius de Moraes é uma presença constante em nossas vidas, como alguém que nunca de fato se foi. Desde as musicas infantis ensinadas desde o jardim de infância até canções de amor que nos fazem pensar mais e mais a cada vez que as curtimos, com ouvidos, coração e alma. Canções eternas enquanto duram...
Por hoje é isso, caríssimos, um grande abraço a todos e até a próxima.
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Max Merege é fã do Poetinha desde criancinha!
Ah, sim! Acabou de sair o livro do Henrique, "Casa de Espelhos" ( (65)9605.4394 ).



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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 11/07/2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O ROCK NA TERRA DA COPA

SPRINGBOK NUDE GIRLS, um dos maiores nomes do rock sulafricano hoje.


Hoje, os olhos do mundo se voltam para a África, já que o continente mais carente da Terra tem sua primeira copa da Fifa.
Não é surpresa nenhuma a região aparecer por esta coluna, haja vista que de lá sempre saíram verdadeiras joias sonoras. Na abertura mesmo, foi possível vermos uma mescla de estrelas do pop mundial com figurinhas carimbadas da música africana contemporânea, principalmente astros renomados da world music. No entanto, o foco de hoje é sobre uma vertente sonora pouco cogitada da área: o rock branquela!


UMA SUTIL REVOLUÇÃO

Tal qual sempre nos foi mostrado, em nossa vida escolar e também nos inúmeros noticiários, a África do Sul (principalmente) como palco de uma horrenda guerra entre os negros nativos e uma minoria branca detentora do poder, até o começo dos anos 90, época em que o macabro regime segregacionista do apartheid deixava de (formalmente) existir. No entanto, o que poucos sabem é da ocorrência de uma revolução silenciosa, porém muito barulhenta, que se desenvolveu em meio aos brancos.
No final da década de 50, a ideia de juventude transviada dava as caras na África do Sul e aquele estilo chamado rock'n'roll começava a tomar de assalto as mente e os corpos dos jovens. Acontecia, enfim, uma situação inusitada: o blues, criação dos negros do outro lado do Atlântico, passava a criar suas raízes no seio das famílias conservadoras, mexendo com a cabeça de seus filhos e, por sua vez, semeando o inconformismo com tudo e todos, ao passo que as famílias liberais de classe média recebiam com simpatia algo que encaravam apenas como mais uma "tendência moderna".
Surgiam os primeiros roqueiros por lá: The Meteors, The Vikings, The Amazons, a primeira banda totalmente feminina da região, só para citar alguns.


CHERRY WAINER, a primeira rockstar sulafricana!


É curioso observar que, a exemplo das Amazons, a presença feminina na produção roqueira sulafricana era incrivelmente forte. Se hoje ainda temos criaturas fabricadas pela indústria e que ganham espaço apenas pelos atributos físicos, à época, por aqueles lados, era preciso ter talento de fato, e ainda sim, era deveras árduo conseguir um bom espaço, já que rock era tido como música marginal. Logo, viam-se na obrigação de sair daquele ambiente conservador, racista e machista, para tentarem a sorte em outros lugares do mundo. E foi justamente o que aconteceu com a tecladista Cherry Wainer e as cantoras Sharon Tandy e Dana Vallery; o produtor Frank Fenter; os ex-Vikings, Manfred Lubovitz (Manfred Mann) e Harry Miller (King Crimson); Blondie Chaplin e Ricky Fataar (The Beach Boys), John Kongs e outros tantos que se mudavam para a Inglaterra, Canadá, EUA e Australia.


SHARON TANDY, diva sulafricana, de origem judaica,
que teve o apoio de muita gente de peso, como Jimmy Page e Isaac Hayes.



Êxodos à parte, muito das preciosidades roqueiras redescobertas pelo mundo através da internet, vieram da África do Sul: June Dyer, John E. Sharpe & The Squiers, The A-Cads, The Giants, The Couriers, The Gonks, The Invaders (primeira banda rockeira só de músicos negros) e muitos outros mais, são apenas uma parte dos nomes que então fomentavam a rebeldia juvenil. Todavia, se muitos de lá saim, para lá outros tantos iam para a sorte tentar, como Mickie Most, Bill Kimber e Dickie Lodder, e não obstante, tornavam-se verdadeiras estrelas regionais.


THE INVADERS,
primeira banda de rock multirracial da região,
formada por negros e indonésios.


DOS HIPPIES A 2010
Se muitos iam embora, outros tantos ficavam e tornavam-se um incômodo para o sistema, já que muitos dos valores propagados pela contracultura no final dos 60's, chegavam por lá também. Foi o caso do norte americano Sixto Rodriguez, um misterioso cantor de folk rock protesto, completo desconhecido em seu próprio país mas que tornou-se ídolo máximo na África do Sul, e causou muita dor de cabeça ao regime fascista. Outro caso é o de bandas como Freedom's Children e SUCK, que tocavam hardrock e psicodelia, para os quais já era prática comum passar uma ou mais noites no xilindró! Reza a lenda que suas apresentações por lugares públicos eram também palco de inflamadas panfletagens estudantis envoltas em verdadeiras nuvens de fumaça entorpecente.
Ademais, mesmo sendo produtiva entre os 70 e 80, à exceção do pop açucarado do 4 Jacks & A Jill, da easy listening do maestro Dan Hill, de punks como Radio Rats/Pop Guns e Fathoms Of Fire da new wave do Via Afrika, a cena sulafricana manteve-se carente de ícones, já que iniciava-se um processo de "clonagem" do que se fazia na Inglaterra e nos EUA. Logo, o maior nome de então foi a rádio Springbok que nunca deixou de rodar o que se produzia por lá, ainda que fossem só covers de rock importado e muitas novelas importadas da Austrália também.
Na segunda metade dos anos 90, com um giro maior da informação, os ventos da mudança sopravam e novos nomes surgiam, fundindo estilos consagrados como punk, gótico e metal, e muito do pop de seu tempo a elementos da world music, ocorria um "renascimento" na cena, e nomes como Springbok Nude Girls, Urban Creep, Matthew Van Der Want, Ashton Nyte etc tornariam-se figurinhas fáceis.
Nos dias de hoje, mesmo com bacaninhas da envergadura de Dave Matthews, BLK JKS, The Parlotones e 340ml (moçambicanos radicados em JHB), a África do Sul apresenta-se ao mundo como um celeiro incrivelmente produtivo em termos roqueiros, com sons para todos os públicos e gostos.

Por hoje é isso, caríssimos. Um grande abraço a todos e até a próxima!

CEDÊS:

CAZUMBI (No Smoke, Portugal)

CAZUMBI 1


CAZUMBI 2

Esta série conta a história do rock no continente africano, entre as décadas de 60 e 70. Mesmo que as bandas sejam em sua maioria da África do Sul ou de Moçambique, é possível deparar-nos com diversas pérolas de países como Angola, Congo, Gana e Costa do Marfim. Destaque especial para as sulafricanas John E. Sharpe & The Squires, The A-Cads e The Gonks, as moçambicanas Os Inflexos/Os Impacto, H2O, e a congolesa Les Krakmen.

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 20/06/2010.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

blogue do Henhippie



Há pouco mais de uma semana, a blogsfera ganhou mais um entre tantos zilhões de blogues que povoam nosso infinito cyberspace: o Pihenrique’s Blog! Seria mais um, com certeza, não fosse ele criado e mantido por ninguém menos que o cuiabano Henrique Camargos.
Cansado de procurar uma editora para seu livro de poemas, poemetos e crônicas cônicas, nosso caro Henhippie (como é comumente conhecido) resolveu postar tudo em um blog. Conhecido por escrever tudo o que lhe vem na veneta, Henrique não se poupa e nem tampouco preocupa-se em reler ou filtrar, apenas passa o seu recado, doa a que doar.
Morador do Coxipó, estudante de engenharia elétrica na UFMT, e um dos cabeças da Fraternidade Cultural OCT, Camargos é também um escritor que a cada novo texto revela-se um legítimo cronista urbano de nosso Cuiabá, ainda que tantos se arrisquem por esses meandros.
No entanto, é bom lembrarmos que não se trata de uma página de fã ensandecido com alguma frivolidade do momento ou um rompante passageiro de exposição pública, mas da vontade de um jovem em passar o seu recado, mesmo que de forma tão urgente a ponto de engolir pontos, vírgulas e inúmeras regras da boa ortografia e da sintaxe canônica. Fã devotado de Arnaldo Baptista, Johnny Thunders e Tom Waits, e ávido leitor de Paulo Leminski e F.W. Nietszche, Henrique despeja suas influências em todos seus escritos e, por que não (?!), na exposição de suas ideias também.
Não nos cabe discutir aqui o valor literário e o quanto cada um de nós pode se identificar com seus escritos, mas a atitude em “meter as caras” e produzir algo que, certamente, há de muito crescer, ainda mais quando levamos em conta a profusão de modinhas macabras e da nefasta lobotomia feita nas cabeças de nossos jovens.
Conheçam o blogue do Henrique:
http://pihenrique.wordpress.com/
E, é claro, confiram este e outros tantos reviews mais deste que aqui escreve, no http://colunasdomax.blogspot.com
Um grande abraço a todos e até a próxima!!!



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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 06/06/2010.

domingo, 30 de maio de 2010

TROLOLOLOLOLO



De um tempo pra cá, tem rodado pela internet um vídeo viral no qual um homem muito bem vestido, de cabelo ajeitado, sorriso doidão e uma presença no melhor estilo Silvio Santos, aparece cantando uma música sem letra, cuja melodia pega na cabeça de quem ouve. Trata-se do famigerado video do "trlolololo" ou "trololó", gravado em meados da década de 70 pelo barítono russo Eduard Anatolyevich Khil.

Eduard Khil foi um cantor de bastante renome na antiga União Soviética. queridinho do governo vermelho, cantava por toda parte, desde canções tradicionais até hinos nacionais e canções do Partidão.
Nascido em setembro de 1934, na cidade de Smolensk do Oeste (pertinho da Polônia e da Lituânia), Khil graduou-se em canto, aos 25 anos, pelo Conservatório de Leningrado. Fez um grande sucesso nas décadas de 60 e 70 cantando canções de Arkady Ostrovsky, Andrey Petrov e outros tantos. Entre 1977 e 1980, lecionou canto na Academia de Artes de são Petesburgo, e no meio da década de 80, aos poucos, sua carreira foi amornando. Não demorou muito e Eduard Khil mudou-se para França, tendo ido viver tranquilamente em Paris, onde montou seu próprio Caffe.


Seu reaparecimento na mídia eslava esboçou algumas voltas, dentre as quais quando passou a participar da banda de retro-pop de seus filhos, Prepinaki, na segunda metade dos anos 90. No entanto, foi somente no começo de 2010 que os holofotes se voltaram para sua pessoa, já que alguem, em algum canto do mundo, postou pelo youtube um video um tanto bizarro que acabou sendo batizado de "trolololo", uma onomatopéia para seu canto, já que a música era desprovida de letra.
Obviamente, a música nunca se chamou "trolololo", mas "Я очень рад, ведь я, наконец, возвращаюсь домой", o que em tradução livre quer dizer algo como "Eu estou muito feliz de poder voltar para casa", uma canção bastante popular no leste europeu.
Tamanho o sucesso que essa história de "trololololo" fez que uma turma de fãs pôs no ar um site onde pode ver e ouvir incessatemente o famoso vídeo e também assinar uma petição para que Eduad Khil faça uma tournée mundial. Segundo o próprio Khil, o sucesso do vídeo foi a maior e mais louca surpresa que ele ja teve em sua vida! Que venha logo para o Brasil e também dê as caras por aqui!



Site oficial: http://edhill.narod.ru/
(está todo em alfabeto cirílico, mas as fotos de época são ótima)

Fansites: http://trololololololololololo.com/ e http://eduardkhil.blogspot.com/

Um grande abraço a todos e até a próxima semana.


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 29/05/2010.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

DIO SANTO!


Domingo passado uma notícia tomou conta do meio roqueiro: o passamento de Ronnie James Dio para o outro lado da vida, vítima de um câncer no estômago. Foi um choque, não só para fãs, mas para todos aqueles que o respeitavam e admiravam sua carreira, pautada por uma estrada de mais de 50 anos. Tudo bem que o Iuri Simples já publicou algo a respeito por essas páginas, mas assim mesmo, não poderíamos ficar de fora, e assim mesmo vamos dar nosso recado, ainda que soe como uma Missa de Sétimo Dia, pois a coluna de hoje homenageia (ainda que singelamente) essa figura que foi e que sempre será Ronnie James Dio.

O Começo
Ronald James Padavona nasceu em uma pequena cidade perto de Boston, Estados Unidos, no dia 10 de julho de 1942. De origem italiana, foi criado dentro da religião católica, à qual aprendeu a questionar e criticar. Na música, começou ainda menino tocando trompa e trumpete na banda do colégio. Aos 15 anos junto-se a colegas de escola e formou a banda The Vegas Kings, que passaria por outros dois nomes diferentes: Ronnie & The Rumblers e Ronnie & The Redcaps; até finalmente se chamar Ronnie Dio & The Prophets, em 1962, quando pela primeira vez usou o nome artístico Dio, inspirado no mafioso Johnny Dio. Entre 62 e 67, À frente do The Prophets, como baixista e vocalista, gravou uma série de singles e um lp ao vivo. Apesar da qualidade precária das fitas já deterioradas pelo tempo, sua qualidade musical fica bastante clara, já que se tratava de um misto de rock primitivo com doowop (algo comum em artistas ítalo-americanos), um meio-termo entre Dean Martin, Dion DiMucci, Jack Scott e Roy Orbinson.

Dio, nos idos de 65

Em 1967, com a vinda do movimento hippie, Dio e o guitarrista Nick Pantas, formam a banda The Electric Elves e entram de cabeça no rock garageiro psicodélico. Em pouco tempo, a banda muda seu nome para The Elves e, finalmente, em 1969, passa a se chamar apenas Elf. Tocavam, além de um bom material autoral, clássicos do The Who (fase Tommy), Jehtro Tull e, é claro, a "War Pigs" do Black Sabbath. Tornaram-se a banda de abertura para o Deep Purple que, aliás, os apadrinhara de fato, já que em 1974 Dio participou como cantor no disco "The Butterfly Ball And The Grasshopper's Feat" do tecladista Roger Glover.

Rainbow
No entanto, em 1975, o guitarrista Nick Pantas, parceiro de Dio desde 1958, morre em um acidente automobilístico. No mesmo período, Ritchie Blackmore sai do Deep Purple para formar uma nova banda e para tal chama Dio e seus elfos remanescentes para começarem o Rainbow.
Sem titubear, de cara já lançam o primeiro disco, o que nos 4 anos seguintes se sucederia com mais 3 grandes albuns.

Black Sabbath
Por divergências artísticas, Dio sai do Rainbow. Na mesma época, Ozzy Osbourne também deixava o Black Sabbath. Por recomendação de Sharon Arden (atual Sharon Osbourne), filha do empresário da banda, Dio é chamado para preencher a vaga de cantor. Segundo o guitarrista Tony Iommi, a entrada de Dio causou uma reviravolta na casa, já que este tinha voz, técnica e atitude completamente diferentes de seu antecessor Ozzy, o que além de ser uma injeção de sangue novo, impulsionou a composição de material novo. Entre 80 e 82 fizeram dois discos de estúdio: Heaven And Hell e Mob Rules; e um excelente album ao vivo: Live Evil. O lineup Tony Iommi, Geezer Butler, Vinnie Appice e Ron James Dio, marcou pungentemente a história da banda, uma vez que foi com Dio que se popularizou o sinal dos "chifrinhos" com os dedos, já que Ozzy fazia o sinal de "paz e amor". Segundo o próprio, quem costumava fazer esse sinal era sua avó, para espantar "mau olhado".
No final de 1990, Dio voltou para o Black Sabbath e dois anos mais tarde lançaram "Dehumanizer", o mais bem sucedido disco da banda em muitos anos e que emplacou hits como "Time Machine" e "TV Crimes".

Dio
Em 1982, após deixar o Black Sabbath, Dio e seu colega de banda, o baterista Vinnie Appice, formam enfim o Dio, banda que tem nome o apelido de seu fundador. Durante um período de 25 anos, tendo apena Ronnie James Dio como integrante fixo, a banda tornou-se cultuada. Lançaram uma média de 25 discos, entre material de estúdio, ao vivo e coletâneas. Tocaram pelo mundo todo e inclusive fizeram até mesmo um disco metal para arrecadar fundos para ajudar na luta contra a fome na África. Aliás, o próprio dio sempre foi um sujeito engajado em causas sociais, já que ultimamente estava em uma campanha contra a exploração sexual de menores.

Heaven And Hell
Não fazia muito o Black Sabbath havia voltado com sua formação original: Tony Iommi, Geezer Butler, Ozzy Osbourne e Bill Ward. No entanto, a banda entrou em "férias" e Ozzy retomou sua carreira solo. Em A Rhino Records relançou um boxset com todos os discos da fase Dio e a banda, uma coletânea chamada "Black Sabbath: The Dio Years" para a qual a formação de 1980 se reuniu para gravar quatro músicas. A banda então seguiu mundo afora, mas desta vez sob o nome de Heaven And Hell, uma forma de homenagear o antológico álbum do Black Sabbath que apresentara Dio ao seu público. Tocaram inclusive pelo Brasil em 2009. Mantiveram-se firmes na estrada, até o último dia 5, quando Dio precisou ser hospitalizado.
O Final
Será que há?!

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 23/05/2010.

sábado, 22 de maio de 2010

THE NEDERBEAT, o Rock de Tamancos

The Shocking Blue


Certa vez, há mais de um ano atrás publicamos aqui uma matéria especial sobre o indo-rock, e por incontáveis vezes o famoso país das Terras Baixas foi citado por aqui.
Pois bem, hoje esta coluna volta novamente suas atenções para a Holanda já que, bem ou mal, o rock daquela área é uma constante em nossas vidas, haja vista sua influência em boa parte das coisas que curtimos, seja na música do eterno Nirvana, seja em algum filme do Tarantino.



RECAPITULANDO...

THE TIELMAN BROTHERS


O rock holandês nasceu de fato graças aos jovens de origem indonésia que, à sua maneira, combinavam o kratchang (um tipo de música regional indo-malaia) com o blues norte-americano de que eram fãs e muita surf music instrumental, para fazerem um tipo visceral de rock que só seria (re)descoberto pelo mundo nos tempos da internet e do youtube (vide o caso dos video-clipes dos Tielman Brothers).



THE NEDERBEAT

É claro que por lá existiam bravos rockeiros como Peter Koelewijn e as Melody Sisters, que faziam rockabilly em holandês, mas foram mesmo os bravos indonésios que literalmente fizeram o rock incendiar por aqueles prados. Já na metade dos 60, como a cena indo rock ia se enfraquecendo, as bandas passavam a ceder o talento de seus músicos para uma cena que então surgia, a Nederbeat, cujo epicentro se deu na cidade de Den Hague, de onde aliás, emergira a maior parte das bandas de indo-rock. No entanto, o grande difusor de toda esta cultura alternativa foi a radio Veronica, um rádio offshore que funcionava a partir de um barco ancorado há várias milhas da costa holandesa, e que rodava tudo o que as rádios legalizadas do continente não rodavam.
Dos nomes que mais se destacaram nesta cena, alguns nos são até bem conhecidos. A saber...



OUTSIDERS


Liderada pelo cantor Wally Tax, foi primeira banda da cena a alcançar alguma projeção fora dos Países Baixos. Emplacaram clássicos como Lying all the time, Keep on trying e Touch. Reuniram-se em 1997, após vinte e sete anos. Por diversas vezes, Kurt Cobain tentou encontrar-se com seu ídolo Wally Tax, mas por conta das agendas de ambos, isso nunca se concretizou. Tax morreu em 2005.





Q65


Figurinha fácil em todas as coletâneas de rock holandês, o Q65 ganhou notoriedade por seu som rápido, cru, preciso e extremamente bem trabalhado. Reunem-se frequentemente para tocar nos mais diversos lugares da holanda. Destaque especial para as músicas "The Victor", "I Despise You", "The Life I Live" e "Ann". São amados e respeitados pelas mais diversas correntes sonoras da Holanda, desde os irmãos Van Hallen até os psychobilly do Batmobille e dos Cenobites, passando pelo punk dos Bambix.



GOLDEN EARRINGS


Esta foi a primeira banda a emplacar nas paradas da Inglaterra e dos Estados Unidos, e continua na ativa até os dias de hoje. Começaram com o single "Please, Go" em '65, e sucederam com "That", "Dong Dong Diki Digi Dong" e outras tantas. Nos anos '70, "Radar Love" tornou-se o seu carro chefe.





SHOCKING BLUE


Certamente a mais lembrada da bandas da cena. Iniciaram como um quarteto masculino e gravaram apenas um disco nesta formação. Em seguida, após recrutarem a cigana Mariska Veres como sua crooner, a carreira da banda deslanchou! "Venus", "Send Me A Postcard", "Waterloo" e "Love Buzz" (a mesma que o Nirvana regravou) são apenas alguns de seus inúmeros hits. Infelizmente, em 2006, Mariska Veres passou para o outro lado, mas legou sua influência a tantas outras cantoras que o rock haveria de produzir nos anos seguintes.





GEORGE BAKER SELECTION


Quem assistiu o filme "Cães de Aluguel", de Quentin Tarantino, certamente se lembrará da música de abertura em que todos os personagens eram apresentados. Era "Little Green Bag", cantada por Johannes Bouwens, ou simplesmente George Baker, que também emplacou no começo dos '70 pérolas kitch do sunshine pop como "Una Paloma Blanca" e "Fly Away Little Paraguayo".


THE HUNTERS

Eis a banda onde o guitarrista Jan Akkerman (Focus) começou suas atividades. Aliás, alguém se lembra que ele já veio tocar em Cuiabá?! É uma pena que a divulgação pífia e a curadoria precária das bandas para abertura de seu show, tenham contribuído para seu esquecimento entre nós. Uma lástima, já que se trata de história viva do rock.


Outros nomes que também não poderíamos deixar de citar são: The Motions, Ro-d-ys, Bumble Bees, The Shoes, Les Baroques e Cuby & the Blizzards, entre tantos outros grandes; mas que por conta do espaço de hoje, ainda aparecerão em uma outra edição da coluna do Max.

Por hoje é isso, caríssimos. Semana que vem tem mais. Um grande abraço a todos e até lá!

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 09/05/2010.