sexta-feira, 19 de maio de 2017

KiD ViNil, um ATÉ BREVE ao Heroi do Brasil

O Adeus ao Herói do Brasil 
Por Max Merege

     


 Eu ainda estava na primeira série e já sabia de cor e salteado todas as músicas do Magazine que então tocavam no rádio e na tv.... reza até uma lenda que na mesma época um caminhão bateu na minha cabeça enquanto eu cantarolava "tic tic nervoso"...Três anos mais tarde, no Natal de 86, ganhei dos meus pais um walkman com duas fitas cassetes: uma do RPM e outra do Kid Vinil & Os Herois do Brasil; uma era de um conjunto de pop bonitinho, rock serio etc, e a outra, bem, era de rock elegantemente escrachado, por vezes sacana e muitíssimo bem humorado. Não havia dúvidas, meu coração pulsava melhor na segunda fita.

Em meados de 88, já com 12 aninhos, eu rodava São Paulo toda do modo mais pilantra possível, pulando catraca e por aí segue.... criei coragem e zarpei de Pinheiros até o auditório Franco Zampari, pertinho da estação Tiradentes do metrô, só para assistir a gravação do Programa Boca Livre, da TV Cultura. A primeira vez que eu colei por lá troquei uma ideia com ele que então me falou que tinha material novo pra sair, se não com os Heróis do Brasil [sua parceria com André Cristovam], possivelmente com o Magazine, e de quebra ainda ganhei de presente dele umas revistas Bizz, daqueles especiais de letras traduzidas... por outras vezes mais ainda fui lá ver o Boca Livre :)


Legítimo cavalheiro e por vezes desbocado ["ô Max, manda esse contra-regra chato ir cifudê!!!"], Kid Vinil estava sempre muitíssimo bem humorado. Grande crooner e conhecedor de sonzeragens, muito do meu pequeno conhecimento sonoro devo a seus reviews presentes na extinta revista SomTrês [de uma coleção que aliás resgatei de um lixo também na capital paulista ], tendo inclusive me apresentado oficialmente ao verbete Psychobilly nos idos de '87. Na era digital cheguei a tê-lo no finado orkut e a segui-lo em uns 3 perfis de facebook, mas nada que substituísse uma boa troca de ideias. Mês passado passara mal em Lafayette - por instante pensei: "puta cara sortudo! Foi passar uns dias na Louisiana e certamente vai trazer na bagagem um monte de compactos da Excello"; mas a coisa não era bem assim, já que se tratava um show em Conselheiro Lafaiete, no interior mineiro, ao lado de outros grandes nomes do roque brasuca oitentísta. Foi hospitalizado e todo mundo ficou na torcida para que logo ele se recuperasse e voltasse com tudo, mas pelo jeito não foi desta vez.... hoje o Herói do Brasil se foi para a dimensão sem fronteiras, onde certamente vai encontrar grandes figuraças que tanto admirava e que nos ensinou a curtir.


Segue em Paz, KiD ViNiL
e que ainda possamos nos falar muito mais aí do outro lado...
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

LEMMY, lived to Win



Brinde a Deus - cervejada e nao lágrimas era o que ele quereria. 





LEMMY
Lived to win
por Max Merege

Será verdade mesmo?! Pior que é, Lemmy morreu!!!! E tudo o que podemos fazer, além de rezar e o escambau, é celebrar seu legado! Churrascada, cervejada, smurfetes de biquini, e muito, muito ROCK'N'ROLL, em alto e bom som!!!!
Recém completou 70 anos e soube no dia seguinte (26 dez) que estava com um câncer agressivo. (Vale lembrar que problemas de saúde atormentavam-lhe a vida já tinha um tempo. Diabetes, marca-passo e safenas no coração, e tudo mais que servia para avisar que Lemmy não era um sujeito indestrutível. Basta lembrar que em abril mesmo, no festival Monsters Of Rock, em São Paulo, ele acabou nem indo tocar por causa de sua já fragilizada saúde.)

O comunicado oficial da página do Motörhead

"Não existe um jeito fácil para dizer isso ... nosso poderoso, nobre amigo Lemmy faleceu hoje após uma curta batalha contra um câncer extremamente agressivo. Ele ficou sabendo da doença em 26 de dezembro, e estava em casa, sentado na frente da TV, curtindo seu jogo preferido do The Rainbow, onde fora recentemente com sua família.
Não tem nem como a gente expressar nosso choque e tristeza, não existem palavras.
Diremos mais nos próximos dias, mas por ora, por favor ... toquem Motörhead alto, toquem Hawkwind alto, tocar a música de Lemmy NAS ALTURAS!
Tome uma birita ou umas.
Compartilhar histórias.
Celebre a VIDA deste adorável e maravilhoso cara, que celebrou tão vibrantemente a si mesmo.
ELE IRIA QUERER EXATAMENTE ISSO AÍ.
Ian 'Lemmy' Kilmister
1945 -2015

Nascido para perder, viveu para ganhar."

Nascido no interior da Inglaterra, em 1945, foi criado pela mãe e pela e pela avó. Teve inúmeros oddjobs até ingressar aos 20 anos nos Rocking Vickers, sua primeira banda, na qual tocou guitarra e mandou ver num iê-iê-iê bem ao estilo The Who, tendo se lançado de fato a partir da Finlândia, já que lá eles eram bem mais populares que no Reino Unido propriamente.
Pouco tempo depois, Lemmy foi tocar com Sam Gopal, um pirado malaio de vibe holística que misturava blues com música oriental, soul e hardrock primitivo. Em seguida tornou-se roadie de ninguem menos que Jimi Hendrix. Em '70 conheceu Dave Brock e Robert Calvert, ao lado de quais passou a correr a estrada como baixista e vocalista do Hawkwind, uma banda avantgarde de prog-spacerock que em muito flertava com o krautrock que se produzia então na Alemanha. Doidão que era, Viu-se obrigado a deixar a trupe. Pouquinho tempo depois, formou o Motörhead, a banda mais barulhenta do planeta, que orgulhosamente manteve por 4 décadas a fio. Teve outros projetos também, segurou as pontas como baixista do Damned, montou banda de rock bailinho com Slim Jim Phantom e Danny B. Harvey, atacou de ator em "Eat the Rich", escritor, colecionador de tranqueiras de guerra e muito mais coisas que o tornaam um sujeito incrivelmente carismático e fascinante.
No último dia 15 de novembro, Lemmy enterrou seu velho parceiro, o baterista Phil Taylor.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RAVI SHANKAR - O adeus ao mestre da citara






RIP
RAVI SHANKAR
Por Max Merege

No dia 11 de dezembro o mundo da música foi apanhado de surpresa com a notícia da morte do mestre indiano da citara Ravi Shankar, vítima de uma insuficiência cardíaca e respiratória. Se por um lado ficamos tristes, por outro ficamos felizes por saber que este cumpriu com louvor sua missão, e de certa forma, fez do mundo um lugar melhor por meio de sua obra e de sua influência.
A Índia, também conhecida como a Terra dos Mil Deuses, é um país mysteryoso, repleto de contrastes e permeado por mais de cinco mil anos de história. É um lugar que transborda filosofia e exala religiosidade, e cuja cultura espalha sua influência pelos mais distantes rincões do planeta.
Na segunda metade do século XX, entre as décadas de 50 e 70, o ocidente viu-se diante de um gigantesco fluxo migratório oriundo do oriente, mais precisamente da Índia, da China, da Coreia e do Vietnam. Se cidadãos comuns emigravam em busca de uma vida melhor, o mesmo por assim dizer, também ocorria com mestres das mais diversas correntes, que neste interim enxergavam uma nova oportunidade de expandirem seus conhecimentos por meio de um compartilhamento com pessoas e pensamentos tão distintos. De certa forma, a geração beatnik e o flower power são reflexos dessa nova "remixagem" cultural.
Além da ansiosa espera pela Era de Aquário e do consumo inveterado de arroz integral e ácido lissérgico, pensadores ocidentais traziam à luz inúmeras obras do pensamento oriental. Meditação, yoga e artes marciais variadas enriqueciam o leque das práticas corriqueiras do dia-dia.
Na música, por sua vez, a coisa não poderia ser diferente. A cítara tornava-se um instrumento onipresente no pop de então, fosse com hippies norteamericanos, fosse com ídolos do rock britânico (vide os Byrds de Grahan Nash, os Beatles, os Rolling Stones, os Yardbirds, Led Zeppelin etc), e até mesmo com maestros modernos da Cinecittá de Roma. Os ragas de Ravi Shankar ecoavam por todos os lados...



Robindro Shaunkor Chowdhury nasceu em Varanasi, Índia , no dia 7 de abril de 1920. Filho de um professor de violino, de família bramane, desde muito cedo transitou pelo mundo artístico-cultural. Até os quatorze anos correu o mundo na companhia de teatro de seu irmão Uday Shankar. Aos quinze decidira que a música era o sua missão e foi ter aulas de com ninguém menos que Allauddin Khan, o maior mestre de citara de toda a Índia. Aos vinte e quatro anos, após concluir seus estudos, começou a trabalhar como compositor de trilhas sonoras e como diretor musical da All India Radio, de Nova Delhi, onde ficou até 1956, quando passou a excurcionar pela Europa, América do Norte e Australia, tendo inclusive gravado e lançado seu primeiro elepê 'Three Ragas', em Londres. No decorrer da década de 1950, Shankar e o violinista Yehudi Menuhin consolidaram uma forte e sincera parceria que duraria até a morte de Menuhin, em março 1999.
Das tantas corridas pelo mundo, Shankar tornou-se também amigo de Richard Bock, poderoso chefão da World Pacific Records, pela qual gravou e lançou muitos de seus discos nos anos 50 e 60. Brock, por sua vez, apresentou a música de Shankar para os Byrds, que não se fizeram de rogados e trataram de prontamente levar o novo acepipe sonoro para seu amigo, o Beatle George Harrison. A partir de então, Harrison fez de Shankar seu grande mestre na vida e na música... para tanto, basta constatar sua influência a partir da música "Norwegian Wood".
A imprensa chamou Shankar de "músico indiano mais famoso do planeta". Ravi Shankar tocou pelos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969).
Durante os noventa e dois anos em que caminhou pela Terra lecionou nos mais importantes centros do mundo; foi agraciado pelo premier Rajiv Ghandi com uma cadeira na alta câmara do Parlamento Indiano (1986-1992); e além de muitos amigos e parceiros que amealhou ao longo do tempo (trablhou com Mehunin, Harrison, John McLaughlin, Frank Zappa e tantos outros), colecionou Grammies, indicações ao Oscar (por "Gandhi", mas perdeu para John Williams em "ET", em 1982), casamentos e filhos músicos. De seus rebentos, os mais conhecidos são: o instrumentista Shubhendra Shankar (1942-1992), a cantora Nora Jones (1979) e a citarista Anoushka Shankar (1981). Curiosidade: tanto Ravi Shankar quanto sua filha Anoushka concorrem ao Grammy de 2013, com trabalhos distintos, na categoria "Melhor Album de World Music".
No último dia 6 de dezembro, Shankar deu entrada no Scripps Memorial Hospital, em San Diego-CA, EUA, com dificuldades respiratórias, tendo falecido às 4h30 da manhã do dia 11.
Segundo espiritualistas das mais diversas correntes, a partir do dia 11 de dezembro o mundo se veria diante de uma nova mudança, com o fechamento de um ciclo de 26 mil anos e o início de uma nova era chamada de "Precessional". Coincidência ou não, Ravi Shankar foi-se justamente na virada desta nova era. Misticismos à parte, a obra de Ravi Shankar transcende o tempo, o espaço e quaisquer convenções políticas, filosóficas e religiosas, já existentes ou que venham a surgir. Sua música etérea e eterna ficará para sempre guardada no coração da humanidade.

Ao vivo em Woodstock, 1969

terça-feira, 24 de julho de 2012

MICHAEL MONROE


A única apresentação no Brasil de Michael Monroe e sua super banda, formada por músicos do mais alto quilate - Steve Conte (New York Dolls) e Dregen (Hellacopters, Backyard Babies) nas guitarras, Sammi Yafa (Hanoi Rocks, Joan Jett, New York Dolls) no baixo, e Karl Rockfist (Danzig) na bateria - aconteceu ainda em maio, dia 25, mais precisamente no Inferno Club, em São Paulo. Um mês antes, pequenos e bem humorados video-teasers com recados da banda sobre a fissura para conhecer o Brasil já circulavam pela rede. Quanto ao show, pode-se dizer que teve um bom público, embora pequeno ante a importância do evento, regado a um repertório de clássicos que remontam a uma trajetória de três décadas de trabalho suado de Monroe - sucessos que, mesmo não tendo lhe rendido dividendos bilionários, tornaram-no uma das criaturas mais cultuadas da história do rock. O finlandês Matti Antero Kristian Fagerholm, ou simplesmente Michael Monroe, é sem dúvida uma das figuras mais importantes que o rock produziu nos últimos trinta anos e tornou-se referência obrigatória para quem aprecia a honestidade musical. A mesma Finlândia que hoje exporta para o mundo Klamydia, Him, Flaming Sideburns, Korpiklaani, mais uma infinidade de nomes do metal sinfônico, e cujo hardcore rápido e direto tanto influenciou o punk e o metal brasuca nos anos 80 e 90 - vide a forma carinhosa e respeitosa como João Gordo e os irmãos Cavalera se referem a nomes como Kaaos, Rattus, Tervet Kadet - exerceu também um papel fundamental na reformulação do chamado Glam Rock, ao final dos anos setenta com os primeiros punks da região, a começar pelo clássico Hurriganes de Remu Altonen.


Hanoi Rocks

 Nos idos de 1980, meninos que até há pouco acompanhavam grupos como Pelle Miljoona e Briard, juntavam-se para fazer algo novo e muito diferente também. Andy McCoy, Sammi Yafa, Nasty Suicide, e é claro, Michael Monroe, formavam então a banda de glampunk Hanoi Rocks. O que a princípio deveria ser uma versão mais envenenada dos lendários New York Dolls, superou todas e quaisquer expectativas, conseguiu atrair para si os olhares do mundo, levando-os a se mudar para Londres. No entanto, seus maiores fãs - e imitadores - encontravam-se mesmo do outro lado do Atlântico: Mötley Crüe, Guns N'Roses, Skid Row, Poison e Faster Pussycat eram apenas alguns dos que copiavam a glamourosa trupe escandinava, tida por banda mãe do "hair metal"


De sonoridade festeira e visual espalhafatoso, fizeram um alvoroço só! Colecionam hits que são verdadeiros clássicos: “Taxi Driver”, “Motorvaiting”, “CaffeAvenue”, “Mistery City”, “Malibu Nightmare”, “No Law Or Order”, “Don't You Ever Leave Me” etc; contudo no final de 84, morre o baterista Razzle em um acidente envolvendo Vince Neil (Mötley Crüe), Sammi Yafa por sua vez deixa o grupo e banda se desmantela. Ainda que em 85 o Hanoi Rocks não mais existisse oficialmente(salvo a antológica reunião com Terry Chimes do Clash na bateria), todos seus integrantes mantiveram estreito contato entre si, participando ativamente dos trabalhos uns dos outros. Exemplo claro disso foi o Demolition 23, um projeto "solo" de Monroe que conseguiu a proeza de reunir quase toda a formação clássica da banda.


Muito além da Finlândia...

 Já vivendo em Nova York, Michael Monroe fez-se presente de todas as maneiras ao tornar-se amigo e discípulo direto de figuras históricas como Debbie Harry, Alice Cooper, Johnny Thunders, Joey Ramone e Stiv Bators, entre tantos outros nomes mais. Reza a lenda, inclusive, que foi ele quem prestou toda a assistência a Stiv Bators em seus dois últimos anos de vida. Diga-se de passagem que neste malfadado meio artístico poucos podem se dar ao luxo de ser tão bem relacionados como nosso artista o é. Seja nos EUA, seja na Finlândia ou em qualquer canto da Europa ou do mundo, raras são as notícias de alguma rusga sua - aliás, seu único desafeto conhecido foi com o guitarrista Steve Stevens, com quem tocou o projeto Jerusalem Slim; ademais, são poucos os que como ele conseguem concatenar correntes tão distintas entre si pelo puro e simples amor ao rock'n'roll. Prova disso é sua estreita relação com os Guns N'Roses, banda notória pelas inúmeras desavenças internas entre seus antigos integrantes e o vocalista Axl Rose. Todos, sem exceção, amam, admiram e respeitam Michael Monroe, haja vista suas participações nos discos Use Your Illusion (sax e harmônica em “Bad Obsession”) e Spaghetti Incident (cantando “Ain’t It Fun”, dos Dead Boys), e é claro, suas inúmeras jam sessions com Slash, Duff e cia espalhadas pelos youtubes da vida.


Uma estrada que não para

 Se os anos 90 foram bons, embora às vezes turbulentos, os anos 2000 prometiam. Em 2001, após um reencontro com seu velho parceiro, o guitarrista Andy McCoy, o Hanoi Rocks volta à ativa. De 2002 a 2009 lançam três ótimos discos e um dvd gravado ao vivo, para enfim encerrarem mais este capítulo. Certa feita, em 2010, após dividir o palco com os New York Dolls - que contavam em suas fileiras com os préstimos do ex-Hanoi Rocks, Sammi Yafa, no baixo; Monroe convida tanto Yafa quanto o guitarrista Steve Conte para fazerem alguns shows. A ideia deu tão certo que rendeu o primoroso disco Sensory Overdrive, em agosto de 2011, o qual alem do repertório de pedradas sonoras do início ao fim, conta com participações de Lemmy Kilminster e da cantora country Lucinda Williams. Não obstante, Michael Monroe e sua banda fizeram até uma bem sucedida tour com o Motörhead pela Europa.

Assim sendo...

É certo que os fãs mais ardorosos de Guns N'Roses podem até chiar, mas verdade seja dita: Michael Monroe põe Axl Rose no bolso! Sim, ambos têm a mesma idade e pertencem a uma mesma geração, mas enquanto o americano se oxidava em termos artísticos, profissionais e, por que não, físicos, o europeu soube como poucos administrar sua carreira e sua figura pública, apesar dos revezes ao longo dos anos. O resultado disso pode ser conferido ao vivo. Mas afinal, quem cargas d'água é Michael Monroe? Ora, é só um sujeito que todo bom curtidor de rock deveria conhecer. Agradecimentos: Costabile Salzano Jr. ( http://theultimatemusic.com ) e Juliana Lorencini ( http://metalrevolution.net ) FOTO por Juliana Lorencini

Motorvatin’ Tragedy Up around the bend Fashion Day Late Dollar Short: People Like me Trick of the wrist 78 Motorvatin + Hammersmith Palais @ Inferno I Wanna be Loved (Johnny Thunders) @ Inferno Bama Lama Loo, Look at you etc feat. Eduardo Martinez [Flaming Sideburns](jan. 2012)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Roaring Jack


Com vocês, ROARING JACK!

Roaring Jack, grande banda de celtic-punk que nasceu em Sidney (NSW, Australia), em 1985, sob a liderança de Alistar Hulett, um cidadão de origem escocesa que desde muito cedo frequentava os círculos de música folk e cultivava em si o sentimento de inconformismo com as desigualdades humanas.

Na metade dos anos setenta, Alistair fez uma viagem de dois anos para a Índia, e ao voltar para a Austrália no finzinho da década, deparou-se com uma cena híbrida de punk e pubrock em plena ebulição, encabeçada por bandas como AC/DC, Rose TattooThe Saints, Radio Birdman e outras mais.

Ao mesmo tempo em que detonava com a banda The Furious Chrome Dolls, também cantava folk e bluegrass pelos pubs com seu parceiro Hunter Owens, um imigrante norte-americano, que além de ser um exímio bandolinista, também desenvolvia um belo trabalho de fusão da música celta com vários outros ritmos. Da junção de toda essa força, iniciou-se  assim o prolífico projeto Roaring Jack.

Marcado por uma sonoridade bem dosada entre o peso e a velocidade da música celta com uma certa malandragem típica do rock australiano, somado a uma temática panfletária de esquerda, suas letras abordavam principalmente assuntos relacionados à vida proletária, ao sectarismo escocês/irlandês e aos direitos dos povos aborígenes.

Apesar de uma curta existência de seis anos, o Roaring Jack conseguiu marcar muito bem o seu nome na história. Excursionaram com os Pogues pela Austrália, foram indicados algumas vezes na categoria independente ao Grammy australiano e ajudaram a pavimentar o caminho para bandas como Dropkick Murphys, Real McKenzies, Flogging Molly, The Tossers, The Mahones d'entre outras tantas mais.

Muitos rumores circularam acerca de uma possível  reunião da banda para comemoração dos vinte e cinco anos do lançamento de seu primeiro elepê; no entanto, na virada do ano de 2009 para 2010, Alistair Hullet foi internado com suspeita de intoxicação alimentar,  mas recebeu o diagnóstico de câncer no fígado, tendo morrido três semanas mais tarde, antes que qualquer providência pudesse ser tomada. Foi-se o homem e ficou a obra...
Pela Mighty Boy Records, um selo independente de Sydney, gravaram os LPs: "Street Celtabillity" (1987), "The Cat Among The Pigeons" (1988) e "Through The Smoke Of Innocence" (1990); e os singles: "The Swaggies Have All Waltzed Matilda Away"/"Song of a Drinking Man's Wife" (7", 1989) e "Framed"/"Criminal Justice" (12", 1991).

Em 2002, a Jump Up Records, um selo independente alemão, teve o cuidado de recompilar e relançar (quase) todo esse material sob a forma de um CD duplo, contendo ainda alguns bonus, mesmo que as versões do single de 1989 tenham ficado de fora.

Tudo bem! De qualquer forma, esse CD ainda é o melhor caminho para se conhecer o som do ROARING JACK, e o mais legal é que vem com um livreto bem interessante, contendo todas as letras da banda e recheado de outras informações úteis escritas pelo próprio Alistair.


ROARING JACK foi: Alistair Hulett (violão e vocais), Dave Williams (baixo), Bob "Rab" Mannell (guitarra e bouzouki), Hunter Owens / Stephen Miller (acordeão / bandolim e vocais), Steve Thompson / Rod Gilchrist (bateria).

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Max Merege, apesar de não tocar violino nem bandolim, é ainda assim, um fã devotado do VERDADEIRO folk-rock.

Conheça mais sobre o ROARING JACK:

Vídeos

The ROARING JACK Archives

Blog oficial da banda

Site do vocalista Alistair Hulett



Alistair Hulett em seus últimos dias


Obs: está tudo em inglês!


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PUBLICAÇÃO ORIGINAL

sábado, 14 de maio de 2011

AOS BANANAS DO ROCK....


Certa vez, na aula literatura, uma professora comentou: "o melhor poeta não é o que entope sua obra com ricas rimas e arranca lágrimas do leitor com coisas profundamente superficiais, mas o que expressa sabiamente sua realidade, seu tempo e o espaço onde vive"; o que se aplica perfeitamente ao grupo em questão, ainda mais quando se trata de coisas atemporais e dilemas universais, certos detalhes preenchem muito bem inúmeras lacunas de nossos dias, pois por mais felicidade e sucesso que tenhamos na vida, nunca seremos pessoas 100% resolvidas.
Há poucos dias, uma querida amiga minha, a Miss Jhei, recheou o meu mural do facebook com inúmeros vídeos de um irreverente grupo alemão chamado The Baseballs, especializado em fazer releituras 50s para hits das últimas duas décadas. Tudo bem, eles são ótimos e mandam muito bem, mas a coisa pára por aí.
Todavia, mesmo distante da grande mídia, exceto por um single que recentemente foi tema de uma novela praiana, os corações brasileiros (ao menos os que estão na casa dos 30, como este que vos escreve) guardam consigo, não apenas por mero saudosismo de suas letras açucaradamente marotas, mas também pela qualidade sonora, algo realmente precioso...
Pois bem, em tempos ligeiramente remotos já tivemos (e de certa forma ainda temos) uma galerinha que não ficava devendo nada aos doowopeiros teutônicos. Estou falando da João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, uma das melhores coisas que o rock brasileiro produziu na década de 80! Para ser bem franco, a coisa toda nasceu no meio dos anos 70, em algum lugar entre o pátio da escola e a vizinhança do bairro, no Rio de Janeiro, mas só aconteceu mesmo em 82, quando se lançaram como apoio vocal do cantor Eduardo Duzek no famigerado "Rock da Cachorra", época em que também contavam em suas fileiras com um jovem talentoso Leo Jaime.
Junto a nomes como Ultraje A Rigor e Blitz, João Penca & Seus Miquinhos Amestrados ajudaram a quebrar tabús da grande mídia com seu humor sacana e por vezes picante. O que não faltava era um mundo de referências ao romantismo de outrora, como ao doowop, à surf music e a filmes que eram muito comuns na TV entre as 14h e 17h (tais quais os de Elvis Presley e os beach party), recheados de surf e "hully gully" em que todos dançavam junto a alguma fogueira em alguma praia. Ainda que com forte influência dos anos 50 e 60, e produzido nos anos 80 e 90, seu som não corre o risco de soar datado (como é o caso de uma infinidade de contemporâneos seus), principalmente se compararmos a aqueles que até hoje fazem tournées caçaníqueis pelo Brasil.
No rádio era muito comum ouvirmos pérolas como "Lágrimas de Crocodilo", "Como Macaco Gosta de Banana", "Popstar", "Papa Uma" e por aí vai... Na televisão não era diferente, já que na finada tevê Manchete eles eram presença constante nos programas da (então aspirante a apresentadora) Angélica. Não obstante, costumeiramente arrancavam suspiros das meninas e coros uníssonos no Cassino do Chacrinha, no programa da Hebe, e também, em clássicos da programação infantojuvenil como a Xuxa pela manhã, e a Mara Maravilha à tarde, isso sem falar no filme "Luar de Cristal" onde Avelar vivia o Mauricinho, o primo transviado da Xuxa. Nas novelas, não importava o horário, pois era de praxe nos depararmos com algumas de suas canções, o que muitas vezes, salvava as produções de um total desastre (haja vista que é mais fácil as pessoas se lembrarem da música que da novela), uma vez que sua última empreitada no gênero foi o single "Sol, Som, Surfe e Sal", uma bem humorada versão para o clássico "Surfin' Safari" dos Beach Boys, que foi tema da novela global "Três Irmãs", entre 2008 e 2009.
Encabeçada pelo trio vocal Avellar Love, Bob Gallo e Selvagem Big Abreu; o JPMA também conta desde sempre com a exímia base instrumental de Dôdo Ferreira (baixo), Sérgio Melo (bateria) e Ricardo Palmeira (guitarra).
Em sua discografia básica temos: "Os Maiores Sucessos de João Penca & Seus Miquinhos Amestrados" (1983), "OK My Gay" (1985), "Além da Alienação" (1988), "Sucesso do Inconsciente" (1989), "Cem Anos de Rock'n Roll" (1990), "A Festa dos Micos" (1993) e a coletânea "Hot 20" (2001); dos quais, apenas os dois últimos continuam em catálogo. No entanto, graças ao dedicado trabalho dos fãs que não deixam a chama se apagar, todos são facilmente encontráveis para download, principalmente em blogs especializados ou em comunidades de orkut, basta saber procurar.
Por hoje é isso, meus caros. Um "aloha" a todos e até a próxima!



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Max Merege, colunista de rock da FOLHA DO ESTADO, é fã de JPMA desde criancinha!

A coluna de hoje é dedica ao senhor Lloyd Knibb, o lendário baterista jamaicano e um dos pais do reggae, que passou para o outro lado da vida na última quinta feira, aos 80 anos, enquanto dormia.

VIDEOS...
PAPA UMA (1989)


LÁGRIMAS DE CROCODILO (1986)


MAITINÉ NO RIAN (HEBE, 1989)


POPSTAR (REUNIÃO, 2008)


SOL, SOM, SURF E SAL (2008)


JOHNNY PIROU (com ULTRAJE A RIGOR, 1986)




veja também
BONS CEDÊS que o Max recomenda!

domingo, 8 de maio de 2011

A MÃE DO ROCK


Como hoje comemoramos o dia das mães, nada mais justo que homenagearmos uma dama que além de ser a primeira grande roqueira da história, também teve seu nome para sempre gravado nos autos da música country e gospel (diga-se de passagem, das verdadeiras matrizes e não desse vasto mix absurdamente mercantilista, de que hoje dispomos).

A verdade é que se hoje à nossa volta temos roqueiras para todos os gostos (eu mesmo gastaria uma página inteira citando exemplos...), é porque lá atrás alguém se dispôs a “dar a cara a tapa” nesse universo predominantemente masculino e pavimentar o caminho daquelas que a sucederiam...

Wanda Jackson é seu nome! Uma menina nascida e criada no meio-oeste dos EUA, que antes mesmo de completar 20 anos já corria a estrada tocando, cantando e encantando corações, ao som da música rural americana e do mais puro e primitivo rock’n’roll.

Aos 17 anos, época em que concluía o ensino médio, Wanda já se apresentava constantemente pelas rádios de Oklahoma. Gravou alguns singles pela Capitol Records e lá pelas tantas quando foi pedir para de fato se efetivar como uma artista do casting da gravadora, os produtores a desmereceram com a estapafúrdia afirmação machista de que “garotas não vendiam discos”. Não demorou nada e ela logo assinou com a concorrente, a Decca Records.

Também pudera, numa época em que às mulheres era permitido quanto muito cantar, Wanda cantava, tocava e incendiava a plateia com todos seu talento e exuberância!

Tão logo acabou a escola, a menina caiu na estrada, tendo seu pai como empresário e sua mãe como a figurinista. Excursionou com Elvis Presley, com quem teve um breve um breve romance, mas isso é apenas um detalhe...

Antes dos 25, Wanda Jackson já era uma estrela internacional e referência para garotas arrojadas ao redor do globo, corria o mundo com uma disposição comum a poucos, fez fama e fortuna numa época em que as tecnologias ainda eram muito rudimentares e sequer podia-se vislumbrar a existência da gravação digital, de uma internet ou de tão poderosa industria cultural para sua expansão pelo planeta. Era tudo no peito e na raça mesmo!

Clássicos como “Funnel of Love”, “I Gotta Grow”, “Fujyiama Mama”, “Stupid Cupid” e tantos outros mais, ainda soam tão atuais mesmo tendo sido gravados há mais de 50 anos atrás.

Entre 65 e 70, fez da Alemanha seu segundo lar. A balada “Santo Domingo” foi seu primeiro hit no idioma germânico e segundo a popular revista Bravo, uma das mais influentes canções de todos os tempos na história do pop alemão.

Durante os anos 70, atendendo a um pedido dos filhos, passou gravou discos de música gospel. Na década de 80, voltou a excursionar mais regularmente, desta vez pela Europa e com músicos locais, tocando muitos de seus clássicos. Recentemente, gravou em parceria com Jack White o disco “The Party Ain’t Over”, cujo título em si já é uma clara homenagem a “Let’s Have A Party”, um de seus tantos hits.

Pois bem, se a paternidade do rock’n’roll se divide entre muitos pais: Chuck Berry, Johnny Cash, Carl Perkins, Bo Didley, Bill Halley e outros mais; sua maternidade pode seguramente ser atribuída à diva Wanda Jackson! Logo, se muito costumávamos dizer que o rock’n’roll era um “bastardo de mãe desconhecida”, essa afirmação vem por água abaixo quando temos a Mãe e, que mesmo sendo um eterno garoto rebelde, este jamais deixou de honrar pais e Mãe.

Por hoje é isso meus caros. Um grande dia a todas as mães e até a próxima.

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Max Merege, colunista de rock da Folha do Estado e membro da OCT, dedica esta coluna à sua mãe Magda e a todas as leitoras que, mesmo “padecendo no Paraíso”, nunca perdem o rebolado ante os percalços desta vida.


**** Matéria originalmente publicada no jornal Folha do Estado, Cuiabá/MT, 08/05/2011:

http://www.folhadoestado.com.br/jornal/paginas/grd/27_1187.pdf









WANDA JACKSON & THE CRAMPS - FUNNEL OF LOVE '03


WANDA JACKSON & JACKIE WHITE - Thunder On The Mountain (2010)


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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ED "BIG DADDY" ROTH e a Arte de Se Esquartejar os Signos



Como a Coluna do Max chega agora ao seu segundo ano na ativa, este resolveu que seria a hora de comentar um pouco sobre uma figura que exerceu uma influência MONSTRUOSA, não apenas sobre este colunista, mas na cultura pop dos últimos 50 anos e no rock'n'roll em si ...
Ed Roth (04/03/1932 - 04/04/2001) foi de fato uma figura iluminada. Filho de imigrantes alemães, aprendeu desde cedo que se quisesse conseguir algo, teria que pôr a mão na massa e meter as caras. Antes de completar 18 anos, já montava seus próprios carros Hot Rod a partir de sucata "garimpada" pelos ferros velhos e cemitérios de automóveis. Tido como um dos pais da cultura hot rod, juntamente com Von Dutch, Roth foi além e transformou sua arte num verdadeiro estilo de vida.
Seus carros conceito despertavam tanto a cobiça de quem os via que passaram a fazer parte de uma série de kits para montar da Revell. Aliás, graças a isso Roth tornou-se um híbrido de modelo e garoto propaganda ao encabeçar sua própria linha de produtos, passando então a ser conhecido com Ed "Big Dead" Roth.
Das suas criações, além dos super carros, a mais lembrada certamente é o Rat Fink (ou Ratazana Sacana, se preferir), que Roth bolou num instante de indignação com o culto ao Mickey Mouse, que tomava o mundo de assalto. Enquanto o camundongo de Disney simbolizava o belo, sem falhas, o rato de Roth era sua antítese pois além de ser grotesco e politicamente incorreto, Rat Fink era mais humano, e suas maiores virtudes, obviamente, eram seus defeitos, o que também o tornou um ícone da contracultura, sendo aclamado até mesmo por gente de peso como o escritor Tom Wolfe. Aliás, foi com o Rat Fink que Roth inaugurou a cultura das camisetas com mensagens, pois como o seu clube de hot rod precisava ter um uniforme, ele descobriu que poderia fazê-lo de modo mais simples possível, pintando com aerógrafo camisetas lisas brancas.
Não obstante, é bom lembrarmos de sua inconteste influência sobre a cultura roqueira a partir dos anos 60, desde o pessoal da cena surf californiana (Dick Dale, Beach Boys, Jan & Dean, Lively Ones, Frank Zappa etc), até as correntes "revivalistas" que brotaram sem dó nem piedade entre os anos 80 e 2000 (Stray Cats, Fuzztones, The Bomboras etc), passando pelo psychobilly (Cramps, Meteors, Batmobile), punk (Ramones, Dead Kennedys, Agent Orange e Misfits, que inclusive regravou o tema de Rat Fink), metal (Anthraxx, Metallica, White Zombie) e no gótico (a inglesa Alien Sex Fiend, cujo guitarrista e baterista carrega o nome artístico de Rat Fink Jr.).
Durante os anos 60 e 70, Roth teve um bom público por terras brasileiras, pois seus kits passaram a ser fabricados por aqui pela Revell e seus intrépidos carros e adoráveis monstrengos tornaram-se uma coqueluche entre os jovens de então (uma forte lembrança da minha infância é que meu pai tinha um boneco do Rat Fink, que eu adorava e chamava de "Monstrinho"! ). Em 2007, a Conrad Editora lançou um álbum de figurinhas. Aliás, nunca foi tão bom ter figurinhas repetidas já que cada uma era sempre um belo adesivo.
Roth partiu em 2001, mas deixou uma obra de valor inestimável, que ainda influenciará muitas e muitas gerações além por este mundo.
Por hoje é isso, meus caros. Um grande abraço a todos e até a próxima!
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Max Merege, que a exatos dois anos mantém a Coluna do Max, é um bandido que some mas não morre e que por muito tempo mais vai continuar escrevendo sobre rock.

domingo, 17 de outubro de 2010

UMA FARSA DO ROCK



Eis que finalmente temos um review sobre uma das situações mais polêmicas da história do rock, o filme "The Great Rock'n'Roll Swindle".
A história em questão gira em torno de como Malcolm MacLaren "inventou" os Sex Pistols e, por que não, como tudo desmoronou; pois em cerca de dez mandamentos devidamente ilustrados, ele explica passo a passo como fazer dinheiro do caos, já que um "lucro sujo não é nenhuma novidade", conforme diz a letra que dá título ao filme.
Contudo, por mais que ele se diga "o inventor" do punk, é bom lembrarmos que ele apenas o inventou dentro da cultura mainstream, como uma forma de se obter um boa receita para a Sex, uma botique temática que tinha com sua então esposa, a estilísta Vivien Eastwood. Ademais, o punk britânico há muito já fervilhava pelos subúrbios com bandas como Hollywood Brats, The Jam, Cock Sparrer e The Stranglers.
Feito pelo cineasta Julien Temple, o filme soa mais como uma série de alfinetadas de Malcolm MacLaren no vocalista John Lydon - a quem demitira da banda no começo de 78, que nos créditos ddo filme aparece como "O Colaborador" - do que um filme de rock propriamente. É claro que existem inúmeros momentos divertidos e que sua trilha é um dos mais maiores clássicos do gênero, pois além dos Sex Pistols em si, podemos ouvir pérolas do TenPole Tudor (banda do conde Edward Tudor Pole, sobre quem ainda falaremos por aqui), o próprio MacLaren, o famoso ladrão Ronald Biggs direto do Brasil e por aí segue... Rola também uma série de desenhos animados pra lá de toscos que ilustram a trajetória da banda, com a pretensão de chocar ( isso, para 30 anos atrás!).
Lançado em 1979/80, o filme "the Great Rock'n'Roll Swindle" conta com um final "extendido" pela aparição das inúmeras notícias de jornal acerca da morte do baixista Sid Vicious, um talento promissor vitimado por sua própria vaidade aos 21 anos de idade.
Duas décadas mais tarde, entre o final de 1999 e o começo de 2000, é chegada a vez dos remanescentes da banda darem o troco no empresário...
Desta vez o filme "The Filth And the Fury" ( o Lixo e a Fúria ), feito pelo mesmo Julien Temple, trata da visão dos próprios Sex Pistols a respeito de tudo o que envolveu a "grande farsa do rock'n'roll". Desde o antes até o depois, passando por um durante marcado por excertos do filme de 79 em si, cenas dos bastidores e cenas inéditas. John Lydon, Steve Jones, Paul Cook e Glenn Matlock, não pouparam "elogios" ao seu antigo empresário. Todos os integrantes, já na casa dos 45, aparecem com seus rostos escondidos pela escuridão.
Realista, "The Filth And the Fury" mostra não apenas uma banda "forjada", mas uma turma de garotos que apesar de não morrerem de amores uns pelos outros, canalizavam suas energias para algo maior, tocando muito punk rock! O que fazia todo o sentido, ainda mais em uma Inglaterra em petição de miséria, onde gente deslumbrada fingia que tudo estava bem, mesmo vivendo em cidades entupidas de lixo pelas ruas (os garis faziam uma greve atrás da outra).
Ao mesmo tempo em que tudo é posto em pratos limpos, muitas máscaras também caem e eis que a tônica de tudo é dada por John Lydon, logo no final de seu último show à frente da banda, em 78, quando perguntou para a platéia: "Vocês já tiveram a sensação de estarem sendo enganados?"; certamente foi nesse instante que Malcolm MacLaren teve o insight e vislumbrou sua grande chance de formalizar seu golpe e dissertar acerca de uma "farsa de rock", ainda que por meio de um filme. Entretanto, ele nunca podia imaginar que aqueles até então ingênuos meninos do subúrbio pudessem lhe retribuir a "gentileza", mesmo que para tanto precisassem amadurecer uns vinte anos.




sábado, 9 de outubro de 2010

VARIAÇÕES D'ALÉM MAR


Pouco ou quase nada conhecida por aqui, a música de Antônio Variações é um desses belos tesouros cuja descoberta só foi possível graças ao advento da internet. Não se trata de algum grande vendedor de discos ou de galã de fama universal, mas de um grande artista da língua portuguesa ao qual apenas agora podemos conhecer e entender que, apesar de “tudo”, suas ideias refletiam (e refletem atemporalmente) apenas verdades universais cabíveis a todo e qualquer ser humano.
Nascido na cidade portuguesa de Braga e criado no interior, Antonio era filho de gente humilde do campo. Sua infância dividiu-se entre os estudos e o trabalho na roça. Aos onze anos, teve o seu primeiro emprego, e, um ano depois, partiu para Lisboa. Foi officeboy, barbeiro, balconista e caixeiro. Entrou para o quartel e foi servir na Angola, o que lhe encorajou a seguir para outros cantos. Primeiro foi Londres e em seguida Amsterdam, quando descobriu um novo mundo, sentiu que podia trazer para Portugal, um lugar então afundado no atraso econômico e cultural, uma nova maneira de viver. Em Amsterdam aprendeu a profissão de cabelereiro que mais tarde, quando voltou, passou a exercer em Lisboa, quando também resolveu “sair do armário” e assumir-se ante àquela obscura realidade conservadora que permeava Portugal.

Montou uma banda, o grupo Variações, que em pouco tempo já atraia as atenções. Por um lado, um visual excêntrico ao extremo e, por outro, sua versátil musicalidade que combinava muito bem estilos como o rock, o pop, o blues e, é claro, o fado.

Em 1978, grava uma demotape e logo assina seu primeiro contrato. Em 1981 começou a participar de programas de televisão. Sua música e seu estilo próprio e inconfundível fizeram com que depressa alcançasse considerável fama em seu minúsculo porém diverso país.

Gravou pouca coisa, mas gravou material de muito boa qualidade, não apenas sonora mas poética também. Editou o primeiro single com “Estou Além” e “Povo que Lavas no Rio”, de Amália Rodrigues (sua maior referência). Logo em seguida, gravou o seu primeiro elepê, Anjo da Guarda, onde se destacaram sucessos portugueses como “É p´ra Amanhã” eO Corpo É que Paga”.

Em fevereiro de 1984 vem à luz seu segundo trabalho, “Dar e Receber”, de onde vem sua música mais famosa, a “Canção do Engate”. Dois meses mais tarde, dia 22 de Abril, Antonio Variações se apresentaria pela última vez, em um concerto pelo interior. Depois disso, só apareceria mais uma vez em público, em um conhecido programa da RTP.

Quando Canção de Engate invadiu as rádios, António Variações já se encontrava com a saúde bastante debilitada. Internado em um hospital da Cruz Vermelha, morreu aos 40 anos, na noite de Santo Antônio (13 de Junho), vítima de uma broncopneumonia, causada pela AIDS.

Vinte anos após a sua morte, foi lançado um álbum em sua homenagem, com canções da sua autoria que nunca tinham sido editadas; conhecidos músicos portugueses juntaram-se e gravaram 12 músicas selecionadas de um conjunto de fitas "perdidas" no património de Variações.

Em entrevista, António Variações explicou o nome escolhido: "Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exatamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos."


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 10/10/2010.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MINUTEMEN: O Legado Dos Homens-Minuto Ao Longo Dos Anos

MINUTEMEN: George Hurley, Mike Watt & D-Boon


Minutemen foi uma das bandas mais emblemáticas do punk californiano da década de 80 e, acreditem, sua influência ainda é sentida por toda parte, não apenas por seu clássico "Corona", eternizado como tema do Jackass, mas também pelo interesse daqueles que querem saber quem é o tal do Mike Watt, que hoje é o baixista dos Stooges.
Pois bem, tudo começou mesmo nos idos de 72/73, quando dois amigos de vizinhança, Mike Watt e D. Boon, resolvem tocar apenas por diversão. Até onde se sabe, nenhum dos dois fazia a menor ideia da diferença entre um baixo e uma guitarra, até a mãe D. Boon pô-lo para estudar guitarra. Os anos se passaram e ambos integraram inúmeras bandas de curta duração
Em 78, encantados pela rebeldia punk, juntaram-se aos amigos Martin Tamburovich e George Hurley para formarem o The Ractionaries. Não gravaram nada formalmente, apenas algumas demos ao vivo. Já em 1980, o mesmo pessoal mudava o nome e a ideia sonora da banda, dando início a uma nova empreitada: The Minutemen.
O nome em si já dizia a que vieram: Os Homens Minuto; ou seja, músicas que nunca chegavam aos dois minutos de duração; mas era também uma sacanagem com uma organização paramilitar de extrema direita que existiu nos anos 60.
"Paranoid Time", seu primeiro epê de 7", foi gravado de modo simples, em apenas dois takes e produzido pelo lendário Greg Ginn, líder e guitarrista da banda Black Flag. Como toda banda DIY que se preze, tanto esse epê quanto seu sucessor "Joy" eram vendidos em seus gigs. No entanto acertaram-se mesmo com seu primeiro elepê "Punch Line" e o epê "Bean-Spill", de 81, tornando-se uma das maiores bandas do underground norte americano.
Dispostos a fazer rock simples e sem frescura, logo apareceram com seu segundo elepê, "What Makes a Man Start Fires?", que atraiu para si as atenções da imprensa especializada de então. Logo em seguida caíram na estrada e excursionaram pela europa com o pessoal do Black Flag
Entre epês e elepês, os "Homens Minuto" mantiveram uma carreira bastante produtiva, até 1985. Lançaram: "Buzz or Howl Under the Influence of Heat" (1983), "The Politics of Time", "Double Nickels on the Dime" e "Tour-Spiel" (1984), "3-Way Tie (For Last)" e "Project: Mersh" (1985), tendo ainda participado do projeto MINUTEFLAG, com o pessoal do já citado Black Flag.
Infelizmente, em dezembro de 85, D Boon morreu brutalmente em um acidente de carro. Mike Watt se afundou em uma terrível crise depressiva, que duraria cerca de ano e meio, época que se junta ao amigo George Hurley no projeto fIREHOSE, encabeçado por Ed Crowford, um guitarrista e fã do Minutemen que os encorajou a voltar a tocar. O projeto fIREHOSE durou 8 anos!
Logo após o fim do fIREHOSE, George Hurley seguiu tocando pelo underground norte americano e Mike Watt, ascendeu-se como um excelente "concatenador" de figurões, afinal, encabeçou uma reunião dos remanescentes do Nirvana (Dave Grohl, Kyrst Novosellic e Pat Smear) e, é claro dos Stooges.

Em 2005 saiu o documentário "We Jam Econo", dedicado ao legado do Minutemen.

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CEDÊS

Nina Hagen, Personal Jesus

Nina Hagen cantando gospel?!?! Pode até soar um tanto estranho, mas é a mais pura verdade! Até porque, com toda sua estrada e experiência acumulada ao longo de 55 anos de uma vida extremamente musical, a diva alemã é uma dessas poucas personalidades que tem o total e irrestrito direito de gravar o quê e como bem entender. Fortemente influenciado pelo blues, folk, country e gospel das igrejas americanas, este cedê (cuja produção Nina custeou do próprio bolso) mostra uma vertente surpreendente da cantora e serve também de lição para o chamado "white metal" e o famigerado "pop cristão", seja de qual orientação for.


Brian Wilson
Reimagines Gershwin

Há quem diga que releituras da obra de George Gershwin sejam algo pra lá de batido, principalmente entre veterânos que já não têm mais o que mostrar. O novo disco de Brian Wilson, o eterno Beach Boy, desmente essa máxima e traz à luz muito material então inédito do compositor norte americano de origem judaica. Brian Wilson sempre foi um fã de Gershwin e este cedê pode, sim, soar algo tão pessoal quanto os clássicos "Pet Sounds" (1966) e "Smile" (1967/2004), dos quais é possível ouvir ecos em seu transcorrer. Uma justa e honrosa homenagem a Gershwin e que também deixa transparecer muitos elementos de nossa bossanova, em clássicos como "Summertime", "I Love You Porgy", "I Got Rhythm" etc.

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 22/08/2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

CRUMB STUFF: o pai das HQs underground, no Brasil

"Não estou aqui para ser polido"


Eis que o pai dos quadrinhos underground chega ao Brasil... Ele esteve na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. “Extravagâncias” à parte, Robert Crumb é considerado um dos maiores gênios dos quadrinhos nos últimos 50 anos. Talvez o nome nem soe tão familiar para nosso amado público leitor, mas seu traço inconfundível, sim!
Bons exemplos não faltam.... a capa do clássico álbum “Cheap Thrills” da Janis Joplin foi feita por ele, e personagens do universo adulto das HQs como Mr. Natural e Fritz the Cat também são figurinhas carimbadas que saíram da mente desse autor.
Filho de um militar ultra autoritário e de uma dona de casa superprotetora, Crumb tinha tudo para acabar seus dias em um hospício, já que em sua casa ninguém funcionava bem da cabeça. No entanto, com ele a história foi muito diferente...
Feio, corcunda, magrela, vesgo e com um baita óculos fundo de garrafa, ele sempre foi a antítese do bonitão escolar, capitão do time de futebol americano que pegava todas as líderes de torcida. Tornou-se, sim, um legítimo cronista da realidade que o cercava, principalmente do sistema fascistóide que previa o “extermínio” de todos os nerds.
Ganhou notoriedade na década de 60, quando passou a desenhar, produzir e vender suas próprias revistas em quadrinhos – a Zap Comix, principalmente – pelas ruas de uma San Francisco povoada por bichogrilos e cantada por hippies notáveis.
Reza a lenda que tanto Robert Crumb, quanto seu parceiro Gilbert Shelton, mais o guitarrista Jerry Garcia, costumavam fumar meio quilo de maconha por vez para fazerem suas brainstorms e assim criarem suas histórias mirabolantes, mas o próprio Crumb já desmentiu isso por diversas vezes.

famosa capa do disco "Cheap Thrills" da cantora Janis Joplin


Ano passado, saiu em terras brasileiras seu álbum “Genesis”, a versão em quadrinhos para o famoso livro da Bíblia. Não obstante, Crumb já fez excelentes adaptações em HQ para obras de Franz Kafka, Charles Bukowski e Phillip K. Dick.
Dentre suas preferências, duas coisas são sagradas: música e mulheres. No tocante às mulheres, seu maior trunfo é fazer mulheres realmente fortes, dotadas de pernões, coxões, peitões, bundões e outros tantos atributos mais. Aliás, a perfeita oposição às insossas modelos que povoam as passarelas e o mundo da moda em geral.
Quanto a música, além de “quadrinizar” a vida de lendas do blues como Robert Johnson e Charlie Patton, tem lançado coletâneas com pérolas do mundo inteiro – retiradas principalmente de sua coleção de discos 78rpm – e, é claro, mantém um grupo de “chorinho” também.

Mulher Crumbiana

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 08/08/2010.

CJ RAMONE - Brasilia, 23 de Julho de 2010

Para quem não está familiarizado com o nome, Christopher Joseph Ward é ninguém mais ninguém menos que o C.J. Ramone, ex-baixista dos lendários RAMONES.
Em tour pelo Brasil, CJ tem tocado por diversas capitais. No centro oeste, as capitais escolhidas foram Goiânia e Brasilia, e é justamente do show de Brasília que a gente fala...
Foi simplesmente incrível! Meio burocrático, sim! Mas em se tratando de músicas dos Ramones tocadas por seu mais ilustre herdeiro, isso já era de se esperar.
Foi na madrugada de sexta para sábado, no America Rock Club, uma casa de shows de Taguatinga que tem recebido muita figurinha carimbada do rock. A barulheira começou mesmo às 11h da noite, com abertura impecável da banda The Squintz, tocando punk rock puro e sem frescura. Em seguida, um intervalo de 20 minutos e um teste para os nervos do público ávido por clássicos tocados por alguém que os conhece como ninguém. Enfim, começa o show...
"Blitzkrieg Bop" foi chute inicial e seguiu-se uma série de clássicos ramonianos como "Judy Is A Punk", "Beat On The Brat", "Sheena Is A Punk Rocker", "Animal Boy", "Wart Hog", "Pet Semetary", "Poison Heart" etc. O povo se agitava e pulava incansavelmente nos 60 minutos de pauleira. Foi um belo show, extremamente simples e profissional, baseado na total sinergia entre os músicos e o público. Além do CJ, a banda contava com a presença do guitarrista e produtor Daniel Rey, também conhecido como "O 5º Ramone" e que desde '87 tornou-se parte crucial em tudo que os Ramones (tanto releases da banda quanto material solo dos integrantes) viriam a fazer em estúdio desde então, e do muy competente baterista Mike El Bastardo. Sem mais  delongas, um show para ficar na história!

Max Merege, CJ Ramone & Rodrigo Licar - Foto: Jessyca Hagen


Um pouco de História...

Tudo começa em 1990 quando o baixista fundador, Dee Dee Ramone, resolve parar de tocar com a banda, já que a estrada era implacável com uma média de 360 shows por ano. Mas isso não significou o seu afastamento total, afinal, ele continuou compondo e cuidando bem de seu sucessor.
Os Ramones, por sua vez, trataram de buscar logo um sucessor à altura. Fizeram inúmeros testes com vários elementos, sendo que muitos nem sequer tocavam e só apareciam por lá apenas para contemplar a presença de Joey e Johnny. Algum tempo passou e vários tantos pretendentes também, até que alguém de fato chamou atenção por seu jeito despojado, sem querer parecer cópia de ninguém, pois só queria mesmo saber de tocar: era o C.J. ! Não deu outra e no dia seguinte já ensaiavam para dentro de um mês caírem na estrada. A história deu tão certo que C.J. permaneceu fiel à banda até os seus últimos dias, durante 7 anos e ainda continuou em diversos outros projetos.
Graças à sua vida de RAMONE, C.J. obteve tudo o que simples mortal podia almejar: fama, grana e mulheres ... Afinal, casou-se bem por duas vezes. Tem se mantido na ativa à frente de projetos como as bandas LOS GUSANOS, BAD CHOPPER e seu trabalho solo ao lado de do "5º Ramone", o guitarrista e produtor Daniel Rey - Rock'N'Roll enérgico, sem frescura e escalpelante, assim é a estrada desse bravo guerreiro.

Agradecimentos: AMERICA ROCK CLUB e Andy Robbins, por nos cederem todo o background para a realização desta pequena porém honesta matéria.


VINICIUS DE MORAES: QUEBRA-SE O SILENCIO DE UM SILENCIO


Quando faltavam exatos 97 dias para que ele completasse 97 anos de seu nascimento (contudo, no trigésimo aniversário de sua morte), eis que recebemos uma agradável notícia: uma letra sua, inédita, apareceu!
Seu novo achado foi a letra de "Silêncio", que a princípio deveria ter sido musicada por Baden Powell, mas que graças ao eterno caos de suas coisas - uma bagunça generalizada entre seus livros, discos, escritos etc; nunca chegou a ver a luz do dia, não até que seus filhos "desenterrassem" uma folha com os seguintes versos: é o amor que te fala / é o amor que se cala / e que despetala / a flor do silêncio. Agora, ela se encontra aos cuidados de Edu Lobo, a quem fora confiado musicar a preciosidade. É só uma questão de tempo para seu lançamento (16 de outubro próximo, talvez).
Tudo bem que muito já se falou sobre sua figura por aqui, mas convenhamos que Vinícius de Moraes é sempre um assunto tão agradável quanto um bom vinho, ou até mesmo um daqueles raros prazeres da vida.
Nosso amado e eterno Poetinha foi tudo o que muitos de nós gostariamos de ser ou de ter sido. Até seus 33 anos conquistara muitas coisas e logo em seguida foi advogado, jornalista, correu o mundo, viveu a boemia, namorou demais, bebeu um monte e curtiu a vida adoidado. Agora digam: tem coisa mais rock'n'roll que isso?!
E o mais doido de tudo é que ele sempre se dava bem, e só foi bater as botas com quase 67 anos, depois de nove casamentos, cinco filhos e três netos.
Sua parceria com Tom Jobim é o maior marco da bossanova, e "Garota de Ipanema" então?! Disputa com "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, a medalha de ouro no top 10 das canções brasileiras mais lembradas mundo afora.
Em 1968, quando se apresentava em Portugal, recebera a notícia de que o governo, por meio do AI-5 o demitira do cargo de Embaixador Brasileiro em Lisboa. E para completar, uma turminha de manifestantes slazaristas faziam muito barulho do lado de fora. Vinícius fora orientado a sair pela porta dos fundos, mas como era teimoso, saiu pela frente mesmo! Não deu outra, encarou todo aquele povinho e conquistou seu silêncio. Tão logo proferiu os versos de "Poética I" ("De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo"), os estudantes estenderam-lhe suas capas ao chão, como um tapete, gesto este que na Europa tem um significado muito próximo ao de se honrar um mestre.
Outra das histórias curiosas acerca de seu nome é a de que nos idos da década de 60, a jovem estudante norteamericana, Stanley Ann Dunham, encantada por filme "Orfeu Negro" (filme de Marcel Camus, baseado na peça "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes), descobriu o seu amor em um estudante queniano, e assim gerou o mais icônico dos presidentes dos EUA. Trocando em miúdos, não fosse o nosso Poetinha, é possivel que o Obama jamais teria existido.
Enfim, mesmo tendo partido há exatos trinta anos, Vinícius de Moraes é uma presença constante em nossas vidas, como alguém que nunca de fato se foi. Desde as musicas infantis ensinadas desde o jardim de infância até canções de amor que nos fazem pensar mais e mais a cada vez que as curtimos, com ouvidos, coração e alma. Canções eternas enquanto duram...
Por hoje é isso, caríssimos, um grande abraço a todos e até a próxima.
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Max Merege é fã do Poetinha desde criancinha!
Ah, sim! Acabou de sair o livro do Henrique, "Casa de Espelhos" ( (65)9605.4394 ).



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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 11/07/2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O ROCK NA TERRA DA COPA

SPRINGBOK NUDE GIRLS, um dos maiores nomes do rock sulafricano hoje.


Hoje, os olhos do mundo se voltam para a África, já que o continente mais carente da Terra tem sua primeira copa da Fifa.

Não é surpresa nenhuma a região aparecer por esta coluna, haja vista que de lá sempre saíram verdadeiras joias sonoras. Na abertura mesmo, foi possível vermos uma mescla de estrelas do pop mundial com figurinhas carimbadas da música africana contemporânea, principalmente astros renomados da world music. No entanto, o foco de hoje é sobre uma vertente sonora pouco cogitada da área: o rock branquela!


UMA SUTIL REVOLUÇÃO


Tal qual sempre nos foi mostrado, em nossa vida escolar e também nos inúmeros noticiários, a África do Sul (principalmente) como palco de uma horrenda guerra entre os negros nativos e uma minoria branca detentora do poder, até o começo dos anos 90, época em que o macabro regime segregacionista do apartheid deixava de (formalmente) existir. No entanto, o que poucos sabem é da ocorrência de uma revolução silenciosa, porém muito barulhenta, que se desenvolveu em meio aos brancos.

No final da década de 50, a ideia de juventude transviada dava as caras na África do Sul e aquele estilo chamado rock'n'roll começava a tomar de assalto as mente e os corpos dos jovens. Acontecia, enfim, uma situação inusitada: o blues, criação dos negros do outro lado do Atlântico, passava a criar suas raízes no seio das famílias conservadoras, mexendo com a cabeça de seus filhos e, por sua vez, semeando o inconformismo com tudo e todos, ao passo que as famílias liberais de classe média recebiam com simpatia algo que encaravam apenas como mais uma "tendência moderna".
Surgiam os primeiros roqueiros por lá: The Meteors, The Vikings, The Amazons, a primeira banda totalmente feminina da região, só para citar alguns.


CHERRY WAINER, a primeira rockstar sulafricana!


É curioso observar que, a exemplo das Amazons, a presença feminina na produção roqueira sulafricana era incrivelmente forte. Se hoje ainda temos criaturas fabricadas pela indústria e que ganham espaço apenas pelos atributos físicos, à época, por aqueles lados, era preciso ter talento de fato, e ainda sim, era deveras árduo conseguir um bom espaço, já que rock era tido como música marginal. Logo, viam-se na obrigação de sair daquele ambiente conservador, racista e machista, para tentarem a sorte em outros lugares do mundo. E foi justamente o que aconteceu com a tecladista Cherry Wainer e as cantoras Sharon Tandy e Dana Vallery; o produtor Frank Fenter; os ex-Vikings, Manfred Lubovitz (Manfred Mann) e Harry Miller (King Crimson); Blondie Chaplin e Ricky Fataar (The Beach Boys), John Kongs e outros tantos que se mudavam para a Inglaterra, Canadá, EUA e Australia.


SHARON TANDY, diva sulafricana, de origem judaica,
que teve o apoio de muita gente de peso, como Jimmy Page e Isaac Hayes.



Êxodos à parte, muito das preciosidades roqueiras redescobertas pelo mundo através da internet, vieram da África do Sul: June Dyer, John E. Sharpe & The Squiers, The A-Cads, The Giants, The Couriers, The Gonks, The Invaders (primeira banda rockeira só de músicos negros) e muitos outros mais, são apenas uma parte dos nomes que então fomentavam a rebeldia juvenil. Todavia, se muitos de lá saim, para lá outros tantos iam para a sorte tentar, como Mickie Most, Bill Kimber e Dickie Lodder, e não obstante, tornavam-se verdadeiras estrelas regionais.



THE INVADERS,
primeira banda de rock multirracial da região,
formada por negros e indonésios.


DOS HIPPIES A 2010

Se muitos iam embora, outros tantos ficavam e tornavam-se um incômodo para o sistema, já que muitos dos valores propagados pela contracultura no final dos 60's, chegavam por lá também. Foi o caso do norte americano Sixto Rodriguez, um misterioso cantor de folk rock protesto, completo desconhecido em seu próprio país mas que tornou-se ídolo máximo na África do Sul, e causou muita dor de cabeça ao regime fascista. Outro caso é o de bandas como Freedom's Children e SUCK, que tocavam hardrock e psicodelia, para os quais já era prática comum passar uma ou mais noites no xilindró! Reza a lenda que suas apresentações por lugares públicos eram também palco de inflamadas panfletagens estudantis envoltas em verdadeiras nuvens de fumaça entorpecente.
Ademais, mesmo sendo produtiva entre os 70 e 80, à exceção do pop açucarado do 4 Jacks & A Jill, da easy listening do maestro Dan Hill, de punks como Radio Rats/Pop Guns e Fathoms Of Fire da new wave do Via Afrika, a cena sulafricana manteve-se carente de ícones, já que iniciava-se um processo de "clonagem" do que se fazia na Inglaterra e nos EUA. Logo, o maior nome de então foi a rádio Springbok que nunca deixou de rodar o que se produzia por lá, ainda que fossem só covers de rock importado e muitas novelas importadas da Austrália também.
Na segunda metade dos anos 90, com um giro maior da informação, os ventos da mudança sopravam e novos nomes surgiam, fundindo estilos consagrados como punk, gótico e metal, e muito do pop de seu tempo a elementos da world music, ocorria um "renascimento" na cena, e nomes como Springbok Nude Girls, Urban Creep, Matthew Van Der Want, Ashton Nyte etc tornariam-se figurinhas fáceis.
Nos dias de hoje, mesmo com bacaninhas da envergadura de Dave Matthews, BLK JKS, The Parlotones e 340ml (moçambicanos radicados em JHB), a África do Sul apresenta-se ao mundo como um celeiro incrivelmente produtivo em termos roqueiros, com sons para todos os públicos e gostos.

Por hoje é isso, caríssimos. Um grande abraço a todos e até a próxima!


CEDÊS:

CAZUMBI (No Smoke, Portugal)

CAZUMBI 1



CAZUMBI 2


Esta série conta a história do rock no continente africano, entre as décadas de 60 e 70. Mesmo que as bandas sejam em sua maioria da África do Sul ou de Moçambique, é possível deparar-nos com diversas pérolas de países como Angola, Congo, Gana e Costa do Marfim. Destaque especial para as sulafricanas John E. Sharpe & The Squires, The A-Cads e The Gonks, as moçambicanas Os Inflexos/Os Impacto, H2O, e a congolesa Les Krakmen.

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 20/06/2010.