domingo, 17 de outubro de 2010

OS DOIS LADOS DE UMA FARSA DO ROCK


Eis que finalmente temos um review sobre uma das situações mais polêmicas da história do rock, o filme "The Great Rock'n'Roll Swindle".
A história em questão gira em torno de como Malcolm MacLaren "inventou" os Sex Pistols e, por que não, como tudo desmoronou; pois em cerca de dez mandamentos devidamente ilustrados, ele explica passo a passo como fazer dinheiro do caos, já que um "lucro sujo não é nenhuma novidade", conforme diz a letra que dá título ao filme.
Contudo, por mais que ele se diga "o inventor" do punk, é bom lembrarmos que ele apenas o inventou dentro da cultura mainstream, como uma forma de se obter um boa receita para a Sex, uma botique temática que tinha com sua então esposa, a estilísta Vivien Eastwood. Ademais, o punk britânico há muito já fervilhava pelos subúrbios com bandas como Hollywood Brats, The Jam, Cock Sparrer e The Stranglers.
Feito pelo cineasta Julien Temple, o filme soa mais como uma série de alfinetadas de Malcolm MacLaren no vocalista John Lydon - a quem demitira da banda no começo de 78, que nos créditos ddo filme aparece como "O Colaborador" - do que um filme de rock propriamente. É claro que existem inúmeros momentos divertidos e que sua trilha é um dos mais maiores clássicos do gênero, pois além dos Sex Pistols em si, podemos ouvir pérolas do TenPole Tudor (banda do conde Edward Tudor Pole, sobre quem ainda falaremos por aqui), o próprio MacLaren, o famoso ladrão Ronald Biggs direto do Brasil e por aí segue... Rola também uma série de desenhos animados pra lá de toscos que ilustram a trajetória da banda, com a pretensão de chocar ( isso, para 30 anos atrás!).
Lançado em 1979/80, o filme "the Great Rock'n'Roll Swindle" conta com um final "extendido" pela aparição das inúmeras notícias de jornal acerca da morte do baixista Sid Vicious, um talento promissor vitimado por sua própria vaidade aos 21 anos de idade.
Duas décadas mais tarde, entre o final de 1999 e o começo de 2000, é chegada a vez dos remanescentes da banda darem o troco no empresário...
Desta vez o filme "The Filth And the Fury" ( o Lixo e a Fúria ), feito pelo mesmo Julien Temple, trata da visão dos próprios Sex Pistols a respeito de tudo o que envolveu a "grande farsa do rock'n'roll". Desde o antes até o depois, passando por um durante marcado por excertos do filme de 79 em si, cenas dos bastidores e cenas inéditas. John Lydon, Steve Jones, Paul Cook e Glenn Matlock, não pouparam "elogios" ao seu antigo empresário. Todos os integrantes, já na casa dos 45, aparecem com seus rostos escondidos pela escuridão.
Realista, "The Filth And the Fury" mostra não apenas uma banda "forjada", mas uma turma de garotos que apesar de não morrerem de amores uns pelos outros, canalizavam suas energias para algo maior, tocando muito punk rock! O que fazia todo o sentido, ainda mais em uma Inglaterra em petição de miséria, onde gente deslumbrada fingia que tudo estava bem, mesmo vivendo em cidades entupidas de lixo pelas ruas (os garis faziam uma greve atrás da outra).
Ao mesmo tempo em que tudo é posto em pratos limpos, muitas máscaras também caem e eis que a tônica de tudo é dada por John Lydon, logo no final de seu último show à frente da banda, em 78, quando perguntou para a platéia: "Vocês já tiveram a sensação de estarem sendo enganados?"; certamente foi nesse instante que Malcolm MacLaren teve o insight e vislumbrou sua grande chance de formalizar seu golpe e dissertar acerca de uma "farsa de rock", ainda que por meio de um filme. Entretanto, ele nunca podia imaginar que aqueles até então ingênuos meninos do subúrbio pudessem lhe retribuir a "gentileza", mesmo que para tanto precisassem amadurecer uns vinte anos.



sábado, 9 de outubro de 2010

VARIAÇÕES D'ALÉM MAR


Pouco ou quase nada conhecida por aqui, a música de Antônio Variações é um desses belos tesouros cuja descoberta só foi possível graças ao advento da internet. Não se trata de algum grande vendedor de discos ou de galã de fama universal, mas de um grande artista da língua portuguesa ao qual apenas agora podemos conhecer e entender que, apesar de “tudo”, suas ideias refletiam (e refletem atemporalmente) apenas verdades universais cabíveis a todo e qualquer ser humano.
Nascido na cidade portuguesa de Braga e criado no interior, Antonio era filho de gente humilde do campo. Sua infância dividiu-se entre os estudos e o trabalho na roça. Aos onze anos, teve o seu primeiro emprego, e, um ano depois, partiu para Lisboa. Foi officeboy, barbeiro, balconista e caixeiro. Entrou para o quartel e foi servir na Angola, o que lhe encorajou a seguir para outros cantos. Primeiro foi Londres e em seguida Amsterdam, quando descobriu um novo mundo, sentiu que podia trazer para Portugal, um lugar então afundado no atraso econômico e cultural, uma nova maneira de viver. Em Amsterdam aprendeu a profissão de cabelereiro que mais tarde, quando voltou, passou a exercer em Lisboa, quando também resolveu “sair do armário” e assumir-se ante àquela obscura realidade conservadora que permeava Portugal.

Montou uma banda, o grupo Variações, que em pouco tempo já atraia as atenções. Por um lado, um visual excêntrico ao extremo e, por outro, sua versátil musicalidade que combinava muito bem estilos como o rock, o pop, o blues e, é claro, o fado.

Em 1978, grava uma demotape e logo assina seu primeiro contrato. Em 1981 começou a participar de programas de televisão. Sua música e seu estilo próprio e inconfundível fizeram com que depressa alcançasse considerável fama em seu minúsculo porém diverso país.

Gravou pouca coisa, mas gravou material de muito boa qualidade, não apenas sonora mas poética também. Editou o primeiro single com “Estou Além” e “Povo que Lavas no Rio”, de Amália Rodrigues (sua maior referência). Logo em seguida, gravou o seu primeiro elepê, Anjo da Guarda, onde se destacaram sucessos portugueses como “É p´ra Amanhã” eO Corpo É que Paga”.

Em fevereiro de 1984 vem à luz seu segundo trabalho, “Dar e Receber”, de onde vem sua música mais famosa, a “Canção do Engate”. Dois meses mais tarde, dia 22 de Abril, Antonio Variações se apresentaria pela última vez, em um concerto pelo interior. Depois disso, só apareceria mais uma vez em público, em um conhecido programa da RTP.

Quando Canção de Engate invadiu as rádios, António Variações já se encontrava com a saúde bastante debilitada. Internado em um hospital da Cruz Vermelha, morreu aos 40 anos, na noite de Santo Antônio (13 de Junho), vítima de uma broncopneumonia, causada pela AIDS.

Vinte anos após a sua morte, foi lançado um álbum em sua homenagem, com canções da sua autoria que nunca tinham sido editadas; conhecidos músicos portugueses juntaram-se e gravaram 12 músicas selecionadas de um conjunto de fitas "perdidas" no património de Variações.

Em entrevista, António Variações explicou o nome escolhido: "Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exatamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos."


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 10/10/2010.