domingo, 7 de março de 2010

POR QUE TARANTINO É FODINHA ???!!!



Hoje, como já é sabido, é dia do Oscar, a “maior” premiação da Sétima Arte no mundo. Tudo bem que em grande parte das vezes isso não passa de uma tremenda marmelada cujo objetivo maior é promover os estúdios que melhor pagam a veiculação de seus produtos. Entretanto, muita coisa boa acaba rolando, mesmo que não fature a tão sonhada estatueta, e isso é uma constante.O nosso “homenageado” de hoje, Quentin Tarantino, é um sujeito que há muito já deveria ter figurado por esta coluna, uma vez que tem muito a ver com a maior parte dos sons que aqui citamos, inclusive os brasileiros, e também por ter faturado uma estatueta em 1995 pelo roteiro de “Pulp Fiction”.

Vincent Manero?!


É verdade, muita gente aqui pulou de alegria e êxtase no idos de 94/95 com a trilha sonora de “Pulp Fiction”, já que muitos daqueles sons (senão a maior parte) eram coisas realmente difíceis de se conseguir por estes prados, ainda porque nem existia a possibilidade de baixarmos sons pela internet. Não era pra menos, o disco em si começava do mesmo jeito que o filme, o casal Pumpkin e Honey-bunny (Tim Roth e Amanda Plummer) iniciavam o assalto à cafeteria onde Vincent Vega e Jules Winfield faziam seu breakfest após um exaustivo expediente, e em seguida entrava uma melodia grega tocada por uma legítima Fender Stratocaster: “Misirlou”, de Dick Dale; a mais lembrada de todas. Uma trilha sonora PERFEITA, formada por músicas escolhidas a dedo pelo próprio Tarantino, onde clássicos do surf-instro como Centurians, Link Wray, Lively Ones, Tornadoes, The Revels, The Markets e outros tantos dividem harmoniosamente seu espaço com medalhões da black music - Kool & The Gang e Al Green; folk rockers - Dusty Springfield, Maria McKee e Satler Brothers; e astros consagrados - Chuck Berry, Rick Nelson e Neil Diamond (regravado pela então revelação, Urge Overkill).


Cães de Aluguel, ao som de
"Little Green Bag", de George Baker Selection



Exageros à parte, mesmo contendo muita coisa antiga, sua trilha sonora foi um sopro de renovação e uma lição para todos aqueles que desejavam boa música e sentiam-se constipados com as idiotices veiculadas pelo rádio (se naquela época o rádio era ruim, o pior ainda estava por vir), e foi graças a esse frenesi que a rapaziada começou a pesquisar mais e buscar por outras coisas daquele “estreante”; vide o caso de “Amor À Queima Roupa” e “Assassinos Por Natureza” (True Romance e Natural Born Killers), que apenas foram escritos por ele; e “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs), escrito, dirigido e atuado pelo próprio.
Tanto em “Amor...” quanto em “Assassinos...”, Q.T. sentiuse um tanto quanto “desvirtuado”, mas ainda assim podíamos sentir pungentes suas referências sonoras e culturais, como o predileção da Alabama (Patricia Arquette) por Phill Spector e o Elvis (Val Kilmer) de Clarence (Christian Slater) a dar-lhe conselhos, ou até mesmo a saga de Mick e Mallory (Woody Harelson e Juliette Lewis) permeada por canções do disco “The Future” de Leonard Cohen.
Assim, tanto “Cães de Aluguel” como “Jackie Brown” fazem sua clara homenagem aos seventies. Em “Cães...” podemos destacar o nederbeat pulsante da George Baker Selection tocando “Little Green Bag”, o folk rock dos escoceses do Stealers Wheel com “Stuck In the Middle With You” e a bela “Coconut” de Harry Nilson. Em “Jackie Brown”, além da protagonista vivida pela musa black, Pam Grier, podemos ouvir pérolas como clássicos dos DelPhonics, The Association até mesmo do homem de preto, Johnny Cash.

Uma Thurman: A noiva em ação, em KiLL BiLL


Passados seis anos, em 2003 Q.T. volta à ativa como diretor e roteirista em Kill Bill 1 e 2, onde faz uma clara homenagem ao faroeste italiano de nossas inesquecíveis Sessões da Tarde (Leone, Fulcci, Corbucci etc), bem como aos antológicos filmes de kungfu e samurais da Shaw Brothers e dos estúdios Toey, que costumávamos assistir toda terça feira no Poltrona R (“O Clan da Lótus Branca”, “Os Cinco Dedos da Morte”, “O Guerreiro de Um Só Braço Contra O Mestre da Guilhotina Voadora”, “The Original Street Fighter”, “O Jogo da Morte”, “Lady Snowblood” etc). A trilha sonora não ficava atrás, já que podíamos ouvir de tudo um pouco; desde pérolas do spaghetti western (Morricone, Ortolani, Bacalov, Micallizzi etc) até hip-hops furiosos (Wu-Tang Clan), passando por maravilhas da black music instrumental (Isaac Hayes), relíquias do kraut alemão (Neu!), delícias do pop sessentista inglês (The Zombies) e rockabillies e hillbillies também (Charlie Feathers, Johnny Cash etc).
Em 2006, foi lançado lá fora o filme “À Prova de Morte” (Death Proof), uma clara homenagem ao clássico “Faster Pussycat, Kill!!! Kill!!!”, de Russ Meyer, e cuja trilha sonora também é permeada por acepipes sonoros do naipe de “Hold Tight”, da banda Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, e de “The Love You Save”, de Joe Tex. Como este filme (por razões completamente misteriosas) até agora não saiu no Brasil, apenas os fãs mais aficcionados tiveram acesso, principalmente via internet.
Pois bem, o que acontece é que há pouquíssimo tempo (na segunda metade do ano passado) Tarantino lançou mais um clássico do divertimento familiar: “Os Bastardos Inglórios” (The Inglorious Basterds); que no esteio dos demais, presta uma bela homenagem ao cinema em si, seja pelo enredo claramente inspirado em filmes como “Os Doze Condenados” e “A Cruz de Ferro”, seja pela trilha sonora. Aliás, é bom lembrar que Q.T. convidou Ennio Morricone para compor sua trilha, mas por incompatibilidade de agenda, o Maestro achou melhor declinar do convite. Mas isso não foi problema, já que muitas de suas composições e de outros grandes nomes, como David Bowie mesmo, também figuram nas cenas deste filme que hoje concorre a oito Oscars.


Agora, respondendo à pergunta do título, Quentin Tarantino é F**A simplesmente porque, como ninguém, consegue resgatar e sintetizar magistralmente peças cruciais do intrincado quebracabeças que está em nossa formação cultural e que os pudores estéticos da crítica dita especializada e da ditadura do politicamente correto sempre fizeram questão de rechaçar. Ademais, o lance hoje é grudar a cara na tevê e torcer para que este filme fature muitos e muitos bonequinhos!

Max Merege, além de roqueiro, ama e respeita cinema bem mais que muito cineasta de nariz empinado.



Que tal um drinque no inferno????


Bonequinhos.........

segunda-feira, 1 de março de 2010

CHRIS MURRAY: SIMPLES ATÉ A MEDULA



Qual é a primeira coisa que você pensa antes de ir a show de reggae? Talvez você pense em pessoas de orientação ratafari, com dreadloks até os pés, fumando toras de maconha, vestidos com camisetas do Bob Marley, com bolsas e chapéus nas cores da Jamaica e devaneando sobre toda sorte de assunto que fuja à nossa compreensão cartesiana. Bem, então é bom que esqueçamos de tudo isso e lembremos que reggae, além de música e estilo de vida, é um estado de espírito que vai muito mais além do que supõe nossa vã filosofia...

O artista em questão é um branquela canadense, desses magricelas que raramente viram o sol na infância, mas que manda tão bem no reggae, ska e rocksteady quanto qualquer jamaicano nativo. Chama-se Chris Murray e volta e meia ele vem tocar pelo Brasil e por toda América do Sul. Ano passado mesmo ele esteve por aqui e foi super bem falado por público e crítica.
Mesmo morando em Los Angeles, a melhor definição para ele talvez seja a de um cigano sonoro já que a cada dia ele está tocando em algum canto remoto do mundo. E sabe qual é a parte mais impressionante de tudo isso? É que ele não costuma escrever um setlist das músicas que vai tocar, mas sim, segue o que o público pede.
Filho de pais músicos, Chris Murray, desde cedo viu-se envolvido neste admirável mundo artístico. Fosse por sua mãe tocando velhas pérolas caribenhas ao piano, ou por seu pai, um exímio apreciador de jazz. Contudo, a parte que mais lhe tocaria os ouvidos e a alma viria entre os 10 e 15 anos, a partir de alusões britânicas à música jamaicana, por meio de clássicos como "Obladi-Oblada" com os Beatles, "I Shot The Sheriff" com Eric Clapton, "Dyier Maker" com Led Zeppelin, e por fim "One Step Beyond" com Madness, o que serviu de pontapé inicial para entender o que realmente queria tocar e apresentá-lo ao maravilhoso mundo do 2Tone.
Entre o final dos anos 80 e começo dos 90, Chris Murray encabeçou uma banda canadense chamada King Apparatus, que também foi um dos principais nomes do Ska 3rd Wave. Finda a banda, fez fama como um grande produtor. Por volta de 1993, conheceu pessoalmente os lendários Skatalites, em um festival na Inglaterra que também contava com nomes da envergadura de Selecter, Special Beat e The Toasters no pacote. Não demorou e tornou-se o manager da tour da lenda jamaicana pela escaldante Califórnia.


Ah, sim, Chris Murray já acompanhou muita gente de peso nos palcos, como Lloyd Knibb e Lloyd Brevett, dos Skatalites, Prince Buster, The Specials etc. E acaso ele se gaba disso?! Que nada! Tem muito orgulho, sim, e sente-se profundamente honrado por ter trabalhado com caras tão importantes, mas isso não o torna um esnobe ou qualquer tipo de estrelinha. Aliás, o ponto mais forte de tudo é que sua simplicidade, tanto como músico quanto uma pessoa comum, vão totalmente de encontro a este mundo formado por celebridades instantâneas e de glamour artificial que a cada dia tem-se feito mais e mais pungente; e, é claro, opõe-se também a esta ditadura que reza que para se fazer um bom trabalho, o músico precisa manter o "nariz empinado" e desgastar-se em um universo de técnicas inúteis. Tal qual sua obra, o supracitado artísta também é simples, pulsante e direto! Não faz muito, em dezembro do ano passado, enquanto passava uns dias em Curitiba, pude testemunhar isso. Eu já sabia que o tal do Chris Murray ia tocar por lá. Ouvira pouca coisa até então, o suficiente para saber que seria um bom divertimento, ainda mais porque o que eu e meu irmão queríamos mesmo era ver a banda de abertura: Rocksteady City Firm; encabeçada por meu velho amigo, o cantor Rodrigo Rodrigues. A banda estava maravilhosa! Tão boa que eu até me senti no Maranhão! Mas quando entrou Chris Murray, meus caros, aí sim o lugar pegou fogo! Configuração de palco, a mais simples possível: o próprio Chris Murray tocando violão e cantando, mais dois músicos brasileiros: Rodrigo Cerqueira (Firebug e Skuba) na bateria e Edu Sattajah (Leões de Israel e Brasilites) no upright-bass. Em poucas palavras, um legítimo powertrio! Sim, foi o show que faltava eu assistir para fechar 2009 com chave de ouro e certamente refletir mais acerca de se ter uma banda. Será que é preciso tanto equipamento, tanta técnica, tanto glamour e tanta pose para ser um astro?! Chris Murray, do modo mais simples possível, provou que não! Basta apenas saber o que quer tocar e tocar o ferro na boneca!

Por hoje é isso, queridos leitores. Próxima semana tem mais. Um grande abraço a todos.


Discografia básica:

com
King Apparatus: Loud Party (1989), King Apparatus (1991), Hospital Waiting Room (1992), Marbles (1993); em carreira solo: 4-Trackaganza! (2001), Raw (2002), 4-Track Adventures of Venice Shoreline Chris (2003), One Everything (2005), Slackness (2005, parceria com a banda The Slackers)
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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 28/02/2010.


Videos de CHRIS MURRAY

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ANTÔNIO ARNAUD RODRIGUES


Na última quarta feira de cinzas, o humor, a dramaturgia e a mpb, acordaram órfãos de um de seus maiores talentos nos últimos 50 anos: a morte de Arnaud Rodrigues! Foi na noite de terça feira ainda, quando o barco em que ele viajava com a esposa e dois netos, no Tocantins, naufragou. Seus familiares conseguiram ser salvos, mas ele não.

Talvez as lembranças mais comuns venham de "A Praça É Nossa", onde interpretou tipos inesquecíveis como o Cel. Totonho, o Povo Brasileiro e o Chitãoró; e de personagens que, em muitas vezes, roubavam a cena em novelas globais, como o ceguinho Jeremias, o personagem mais visionário de Roque Santeiro (1985), o Mr. Soul, de Partido Alto (1984) e o retirante Soró, de Pão-Pão Beijo-Beijo (1983); Soró, aliás, fez tanto sucesso que reapareceu no filme "Os Tapalhões e O Mágico de Oroz" (1984), cujo reteiro fora escrito pelo próprio.

Nos últimos dez anos, graças as facilidades da internet, sua obra musical ganhou um novo status e uma nova legião de fãs.

No começo da década de 70, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfrentavam sérios problemas com a ditadura militar, como a prisão e, consequentemente, um exílio na Inglaterra. Solidários com a situação dos artistas, Arnaud Rodrigues e Chico Anísio firmaram uma forte parceria e encarnaram o grupo Baiano & Os Novos Caetanos, uma espécie de Monkees tropicalista. Arnaud vivia o Paulinho, e Chico, o Baiano. Sua idéia principal era homenagear de modo cômico os principais nomes do Tropicalismo: Os Novos Baianos, Gal Costa, Mutantes, e também Maria Betânia. A dupla lançou hits como “Vô Batê pa Tu” e “Urubu tá com Raiva do Boi”. Letras inteligentes e arranjos que casavam o tradicional da música regional com o pop moderno. Uma profusão de fusões de forrós, modas de viola e afins, recheados com guitarras distorcidas e efeitos psicodélicos, tudo possível graças à visão de Arnaud e aos arranjos de maestros como Nonato Buzar, Waltel Branco, Guto Graça Mello e outras feras mais. Feito a princípio como trilha de programa humorístico, o trabalho rendeu excelentes posições nas paradas de sucesso, já que refletia todo o momento por que passava o Brasil, como as delações, o progresso desenfreado, a crise nos valores humanos, a volta às raízes no campo etc. A empreitada deu certo e logo mais ele lançou "O Som do Paulinho", que seguia o mesmo espírito bucólico psicodélico da dupla e que trazia a lissérgica "Murituri".

Já nos anos 80, foi a vez da tele-dramaturgia e por conseguinte, a volta ao humor.

Lá pelo final dos anos 90, após uma visita ao Tocantins, gostou tanto do lugar que levou a família toda para lá morar. Continuou escrevendo para várias publicações e regularmente aparecia no programa "A Praça É Nossa", mas foi em Tocantins que ele passou a se dedicar a uma outra paixão: o futebol! Tornou-se cartola e ajudou o Palmas a se destacar no Campeonato Brasileiro e a conquistar um tricampeonato estadual.

Hoje, apenas dois discos de Baiano e Os Novos Caetanos são encontrados na forma digital "oficial" (a.k.a. cedê de loja), contudo, todos os demais trabalhos tornaram-se figurinhas fáceis pela internet, o que vale para se conhecer a obra, mas que em nada substitui o peso de um elepê.

Em termos artísticos, sua partida é uma perda tão grande quanto as mortes de Mussum e Zacarias. Antônio Arnaud Rodrigues foi, é e sempre será um mestre à frente de seu tempo e que descanse em paz onde estiver.


Vô batê pá tú
(Chico Anisio e Arnaud Rodrigues)

Falou, é isso aí malandro
Tem que se ligar aí nesse som, tá sabendo...
Eu vou bate pá tú, pá tu bate pá tua patota

Vou batê pá tu bate pá tú
Pá tú batê...

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tú
Pá tú pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração, um cara louco
Que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Vou batê pá tu bate pá tú...

Tá falado, tu tem que se ligar....
É isso aí, falou

Vou batê pá tu bate pá tú...


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 21/02/2010.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O REI do Samba


No samba "Já Te Digo", dos irmãos Pixinguinha e China, ele era descrito como "alto, magro, feio / e desdentado / que fala do mundo inteiro / e vive avacalhado / no Rio de Janeiro". Quando de seu velório, Manuel Bandeira assim escreveu: “A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rende-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito (a zona do meretrício carioca), mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim”. Já o historiador José Ramos Tinhorão atribui a ele a verdadeira partenidade daquilo que três décadas mais tarde se convencionaria a chamar de "bossa nova", graças à sua forma malandra de conduzir a harmonia no esquema "um banquinho e um violão".
Nascido José Barbosa da Silva, no Rio de Janeiro, dia 18 de setembro de 1888, Sinhô era filho de um conhecido pintor de paredes e fã das rodas de samba e choro. Desde criança teve um contato muito forte com a música. Aprendeu flauta, violão, piano e malandragem também!
Aos 17 anos casou-se com uma jovem portuguesa de sua vizinhança e até os 21 ele já era pai de três filhos. Para sustentar a família, trabalhava como demonstrador de piano em uma loja de instrumentos musicais - a histórica Casa Beethoven - e tocava por tudo quanto era lugar, desde refinados salões da alta sociedade até casas de rendezvous e moquifos afins, e em inúmeras agremiações dançantes, como a famosa Kananga do Japão (que inclusive virou novela no final dos anos 80).
Aos 26 enviuvou, e até o final de sua vida, casou-se por mais três vêzes. Uma de suas esposas chamava-se Cecília e também trabalhava como demonstradora na Casa Beethoven, tendo sido ela a primeira grande divulgadora de sua obra e responsável pelas primeiras transcrições de Sinhô para a forma de partitura.
Frequentador assíduo das rodas de samba da casa da bahiana Tia Ciata, Sinhô está entre aqueles que reclamavam para si a autoria de "Pelo Telefone", primeiro samba gravado da história e apresentado como se fosse da autoria de Donga e Mauro de Almeida. Em resposta, Sinhô compôs o samba "Quem São Eles". Trocas de farpas por todos os lados, desse período também é a marchinha carnavalesca "Tesourinha": "eu tenho uma tesourinha / que corta ouro e marfim / serve também pra cortar / línguas que falam de mim" .
Sinhô também era acusado de ser plagiador, acusação da qual se defendeu dizendo que "samba é igual a passarinho, é de quem pegar". Por conta disso, foi o primeiro artísta brasileiro a realmente se preocupar com direito autoral, pois tomava o cuidado de registrar todas suas composições em cartório e rubricar todos os seus discos.
Em 1921, lançou o samba "Fala Baixo", uma sacanagem com o então presidente Artur Bernardes. Não deu outra, teve que fugir por uns tempos para escapar da polícia. Aliás, mesmo sendo um talento excepcional, Sinhô tinha sérios problemas com a lei, pois além de ser um dedicado pai de família, também era um boêmio enveterado, pois muito do que ganhava acabava indo para suas noitadas, sendo que por muits vezes fugia de cobradores. Promovia muitas e muitas festas pelos inferninhos do Rio e, ainda por cima, na Noite Luso-Brasileira, no Teatro da República, em 1927, foi honrosamente agraciado com o título de Rei do Samba, que perdura até hoje. Sua vida desregrada, aliás, contribuiu em muito para que sua saúde se deteriorasse rapidamente. Em 1930, às vésperas de completar 42 anos, morre vítima de uma hemoptíase decorrente da tuberculose, no meio do caminho da barca que ligava a Ilha do Governador ao Rio de Janeiro.
Suas composições ajudaram a catapultar a carreira de monstros sagrados da mpb, como Carmem Miranda e Francisco Alves, e também tiveram nas vozes de Aracy Cortes e Mário Reis sua maior expressão. Afinal, "Jura" e "Gosto Que Me Enrosco" são apenas um pequeno exemplo de como sua obra continua incólume, mesmo após oito décadas de sua partida.

Por hoje é isso, caríssimos. Um bom carnaval a todos e até a próxima.

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Max Merege, além de roqueiro também vai se acabar na orgia neste carnaval




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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 14/02/2010.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

surfando em Oz com THE ATLANTICS


Todos já estamos cansados de saber que a Austrália é aquele imenso país, que, além de ter quase o mesmo tamanho do Brasil, também goza das mesmas condições climáticas que a nossa terra e, apesar de ser culturalmente ocidental, fisicamente ainda pertence ao oriente. Em termos musicais, também temos uma das mais fortes e produtivas cenas do mundo, extendendo-se do country-folk ancestral de Tex Morton e Slim Dusty até modernidades como Silverchair e The Jet, passando pelo rockabilly de Johnny O'Keefe, o mod dos Easybeats, Missing Links e Bee Gees, o hardrock de AC/DC e Rose Tattoo, o punk do The Saints e Roaring Jack, o romantismo de caras como John-Paul Young e Nick Cave e musas adoráveis como Olivia Newton-John, Nicolle Kidman e Kelly Minogue.
Paraíso dos Surfistas, não é à toa que a terra dos aussies tem uma praia chamada Surfer's Paradise. O problema é que dos anos 70 para cá, muita coisa tem se confundido nas informações que têm nos chegado sobre esse caldeirão cultural, e inúmeras publicações históricas do surf, passaram a apresentar como surf, qualquer tipo de som que fosse australiano. Exemplo disso são bandas como Australian Crawl, Men At Work, Midnight Oil, Gang Gajang etc serem tidas como surf-music só pelo fato de serem australianas. Bem, sem tirar-lhes o mérito, é válido lembrar que já rezava a velha máxima "cada macaco no seu galho", logo, o galho deles é pura e simplesmente a música pop e pronto! Eles são ótimos para o que se propõem a fazer e a coisa pára por aí!
Mas voltando a falar de surf-music, The Atlantics é o exemplo máximo do estilo na terra de Oz!
Começaram em Sidney, em 1961. Seu nome apareceu como uma homenagem a uma famosa marca de combustíveis, já que sempre fizeram rock de alta octanagem.
Bastante influenciados por Shadows, Ventures e nomes locais como The Joy Boys, Jimmy D. , The Telstars, The Midnighters etc, ganharam espaço pela originalidade, pois enquanto os demais se limitavam a copiar os já citados Ventures e Shadows, os Atlantics compunham suas próprias canções, uma vez que todos os integrantes já carregavam consigo toda uma bagagem cultural que lhes dava subsídios para a criação de peças absolutamente inovadoras, pois eram imigrantes que vieram muito pequenos para a Austrália, oriundos das mais diversas culturas do mundo. Isto lhes rendeu uma atenção muito especial por parte do pessoal da CBS australiana. Gravaram vários LPs e alguns muitos singles e EPs pela gravadora. Flertaram com a psicodelia e com o garage-punk. Em 1967 criaram o primeiro selo independente da Austrália, o Ramrod, e nos anos 70 fomentaram o aussie folk rock, sem nunca terem de fato se desviado de seu caminho.
Nos anos 70 e 80 mantiveram-se como sócios em vários negócios, mas só na década de 90 é que vieram a ressuscitar a banda, estando desde então na ativa até hoje!
Apesar de serem donos de inúmeros clássicos do surf-instro, seu maior hit ainda é "Bombora", e também, graças ao boom do gênero a partir de 1994, consquistaram um status muito maior e o respeito universal, há muito almejado.
Por hoje é isso, caríssimos. Semana que vem tem mais.

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Originalmente publicado no Caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, 7 de fevereiro de 2010, Cuiabá-MT.

VIDEOS

domingo, 31 de janeiro de 2010

ERA UMA VEZ NO CENTRO-OESTE

Esses dias, ao msn, falando com uma querida amiga que está lá em Curitiba, contei que passei o dia me alucinando com um dvd do Ennio Morricone ("Morricone Por Morricone").

_Morricone?! Não conheço.

_É o famoso Maestro italiano que compôs inúmeras trilhas para o cinema.

Logo, mandei-lhe alguns videos do Maestro regendo as orquestras e passados quinze minutos de silêncio absoluto deste lado, ela teceu uma breve crítica:

_Sabe quando você come um chocolate bem bom??? Ou quando faz exercício físico, tipo uma corrida na beira do mar? Ou quando está tão apaixonado que tem vontade de gritar de amor? Morricone é isso e muito, muito mais!!!!

Isso aguçou meu pensamento e pus-me a pensar que, de fato, existem mesmo certos dias em que nos encontramos com um mesmo conteúdo guardado na cabeça e absorvido pelo coração, mas para o qual as palavras de nosso pobre e limitado léxico sempre serão insuficientes para descrever, pois diz respeito à grandeza de uma obra que atinge o fundo de nossa alma! Não interessa idade, cor, sexo, credo ou formação cultural de quem ouça, pois Morricone é a definição mais que perfeita para a música como linguagem universal.

Já vimos aqui por esta coluna muitas figurinhas interessantes que, na maioria das vezes, são desconhecidas de nosso grande e amado público; e outras, bastante conhecidas, mas que até então haviam tido pouco espaço em nossos estimados veículos. Uma dessas é o maestro italiano Ennio Morricone.

A propósito quem nunca assoviou "The Good, The Bad and the Ugly", tema de "Três Homens em Conflito"? Sim, esta é sem dúvida o maior clássico das trilhas de faroeste! Mas não foi apenas com trilhas de faroeste que Morricone se destacou, mas por sua incrível versatilidade de transitar por todos os terrenos sem jamais deixar de ser Morricone.

Nascido no dia 10 de novembro de 1928, filho de uma dona de casa e de um músico de jazz, Ennio Morricone ingressou na música ainda criança, pois aos seis anos já compunha suas primeiras melodias. Estudou no conservatório Santa Cecília, onde em tempo recorde concluiu um curso de quatro anos de duração em apenas dois. Testemunhou os tempos difíceis de uma Itália assolada pela Segunda Guerra Mundial. Na juventude, ganhou a vida como músico noturno, criou belas peças sobre textos de autores consagrados como Giacomo Leopardi, Ranieri Gnoli, Salvatore Quasimodo, Cesare Pavese etc. Entre 1953 e 1960, foi maestro da RAI, preparando trilhas para novelas, e em 1958, tornou-se arranjador da RCA, onde trabalhou com artístas como Rita Pavone e Mario Lanza. Em 1966, um grande sucesso pop, de sua autoria, foi a música "Se Telefonando", na voz de Mina Mazzini. Trabalhou também com muitos artistas de peso, como Francoise Hardy, Gianni Morandi, Paul Anka, Mireille Mathieu e tantos outros mais.

Como o seu trabalho com cinema já lhe rendera um bom nome desde o final do 50's, em meados da década seguinte iniciou uma forte parceria com o diretor Sergio Leone, um velho amigo seu dos tempos de escola ainda.

Influenciado pelo experimentalismo de John Cage e diante de limitações orçamentárias que inviabilizavam a manutenção de uma orquestra inteira, Morricone preparou as trilhas para a "Trilogia do Dollar" ("Por um Punhado de Dólares", "Por Uns Dólares A Mais" e "Três Homens Em conflito") com inúmeros outros recursos como barulhos de tiros, quebradeiras, chapas de aço e, é claro, guitarras elétricas.

Nascia uma nova era no cinema, formou-se assim o trinômio Sergio Leone, Clint Eastwood e Ennio Morricone, e o cinema de faroeste jamais seria o mesmo. Chega das histórinhas clichê, chega das mesmas fanfarrices nas trilhas-sonoras, adeus aos maniqueísmos e ao politicamente correto! Morricone ainda ganharia notoriedade por pelas trilhas de outra trilogia de Leone, formada por "Era Uma Vez No Oeste", "Quando Explode A Vingança" e "Era Uma Vez Na América".

Bastante requisitado, Morricone trabalhou ainda com diretores do porte de Pier Paolo Pasollini, Giuseppe Tornatore, Sergio Corbucci, Tonino Valerii, Mario Bava, Giuliano Montaldo, Dario Argento, John Carpenter, Brian De Palma etc.

Ganhador de prêmios importantíssimos como David di Donatello (Academia de Cinema Italiana), dois Globos de Ouro, um Grammy, um Leão de Ouro em Veneza e tantas outras honrarias mais, por várias vezes fora indicado ao Oscar, mas somente em 2007 recebeu a consagração máxima, sob a forma de um prêmio pelo Conjunto da Obra, entregue por Clint Eastwood, que antes apresentara um discurso de gratidão ao Maestro por este ser um dos responsáveis por seu sucesso como ator, e em seguida serviu de interprete para o discurso do Maestro em italiano.

Por duas vezes veio ao Brasil. Uma em 2007, regendo a Orquestra Petrobras, e outra em 2008, para uma única apresentação em São Paulo.

Enfim, sei que aqui eu levaria inúmeras páginas para comentar sua vasta discografia e filmografia; afinal, quando o assunto é Morricone, pode-se ter certeza de que isso ainda dá muito pano pra manga. Por outro lado, talvez seja mais prudente debruçarmo-nos na idéia maeterlinkiana d'o "indizível", e apenas sentirmos o que de fato é para ser sentido: sua música; bálsamo para o coração, depurativo para a alma.


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“We All Love Ennio Morricone” (2007)

Um belo cedê-tributo lançado logo após o Oscar de 2007. Músicas do Maestro interpretadas por diversos grandes nomes da música pop. Abre com Celine Dion, cantando "I Knew I Loved You" (*pessoalmente, nunca gostei dela, mas aqui ela mostrou um bom serviço!)e segue-se com releituras feitas por Quincy Jones & Herbie Hancock, Bruce Springsteen, Andrea Bocceli, Metallica, Yo-Yo Ma, Daniela Mercury & Emir Deodato (*vale aqui a mesma opinião de cima!), a portuguesa Dulce Pontes, Roger Waters e, é claro, o próprio Ennio Morricone.




“Per Un Pugno di Samba” (1970/2002)

Disco que Chico Buarque fez em seu breve exílio pela Itália. Inteiramente arranjado por Ennio Morricone e com letras reescritas por Sergio Bardotti, saíra apenas na Itália, no ano de sua gravação, 1970. Por questões burocráticas, envolvendo contratos de gravadora, o disco precisou amargar mais de trinta anos de espera para ser lançado no Brasil. O próprio Maestro o considera um disco muito à frene de seu tempo.







“Morricone por Morricone” (Morricone Conducts Morricone) (2005)

Dirigido por seu filho, Giovanni Morricone, trata-se de uma emocionante apresentação do Maestro em Munich, Alemanha, no dia 20 de outubro de 2004. Mesmo com um repertório aparentemente "previsível", formado por temas consagrados como "Os Intocáveis", "Cinema Paradiso", "A Missão" e aqueles que permeiam os filmes de Sergio Leone, não tem como conter as lágrimas com tão belo espetáculo, ainda mais nas canções apresentadas pela soprano Edda dell'Orso.


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publicado no caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT - 31 de janeiro de 2010