
Tanto em “Amor...” quanto em “Assassinos...”, Q.T. sentiuse um tanto quanto “desvirtuado”, mas ainda assim podíamos sentir pungentes suas referências sonoras e culturais, como o predileção da Alabama (Patricia Arquette) por Phill Spector e o Elvis (Val Kilmer) de Clarence (Christian Slater) a dar-lhe conselhos, ou até mesmo a saga de Mick e Mallory (Woody Harelson e Juliette Lewis) permeada por canções do disco “The Future” de Leonard Cohen.
Assim, tanto “Cães de Aluguel” como “Jackie Brown” fazem sua clara homenagem aos seventies. Em “Cães...” podemos destacar o nederbeat pulsante da George Baker Selection tocando “Little Green Bag”, o folk rock dos escoceses do Stealers Wheel com “Stuck In the Middle With You” e a bela “Coconut” de Harry Nilson. Em “Jackie Brown”, além da protagonista vivida pela musa black, Pam Grier, podemos ouvir pérolas como clássicos dos DelPhonics, The Association até mesmo do homem de preto, Johnny Cash.
Passados seis anos, em 2003 Q.T. volta à ativa como diretor e roteirista em Kill Bill 1 e 2, onde faz uma clara homenagem ao faroeste italiano de nossas inesquecíveis Sessões da Tarde (Leone, Fulcci, Corbucci etc), bem como aos antológicos filmes de kungfu e samurais da Shaw Brothers e dos estúdios Toey, que costumávamos assistir toda terça feira no Poltrona R (“O Clan da Lótus Branca”, “Os Cinco Dedos da Morte”, “O Guerreiro de Um Só Braço Contra O Mestre da Guilhotina Voadora”, “The Original Street Fighter”, “O Jogo da Morte”, “Lady Snowblood” etc). A trilha sonora não ficava atrás, já que podíamos ouvir de tudo um pouco; desde pérolas do spaghetti western (Morricone, Ortolani, Bacalov, Micallizzi etc) até hip-hops furiosos (Wu-Tang Clan), passando por maravilhas da black music instrumental (Isaac Hayes), relíquias do kraut alemão (Neu!), delícias do pop sessentista inglês (The Zombies) e rockabillies e hillbillies também (Charlie Feathers, Johnny Cash etc).
Em 2006, foi lançado lá fora o filme “À Prova de Morte” (Death Proof), uma clara homenagem ao clássico “Faster Pussycat, Kill!!! Kill!!!”, de Russ Meyer, e cuja trilha sonora também é permeada por acepipes sonoros do naipe de “Hold Tight”, da banda Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, e de “The Love You Save”, de Joe Tex. Como este filme (por razões completamente misteriosas) até agora não saiu no Brasil, apenas os fãs mais aficcionados tiveram acesso, principalmente via internet.
Pois bem, o que acontece é que há pouquíssimo tempo (na segunda metade do ano passado) Tarantino lançou mais um clássico do divertimento familiar: “Os Bastardos Inglórios” (The Inglorious Basterds); que no esteio dos demais, presta uma bela homenagem ao cinema em si, seja pelo enredo claramente inspirado em filmes como “Os Doze Condenados” e “A Cruz de Ferro”, seja pela trilha sonora. Aliás, é bom lembrar que Q.T. convidou Ennio Morricone para compor sua trilha, mas por incompatibilidade de agenda, o Maestro achou melhor declinar do convite. Mas isso não foi problema, já que muitas de suas composições e de outros grandes nomes, como David Bowie mesmo, também figuram nas cenas deste filme que hoje concorre a oito Oscars.

Agora, respondendo à pergunta do título, Quentin Tarantino é F**A simplesmente porque, como ninguém, consegue resgatar e sintetizar magistralmente peças cruciais do intrincado quebracabeças que está em nossa formação cultural e que os pudores estéticos da crítica dita especializada e da ditadura do politicamente correto sempre fizeram questão de rechaçar. Ademais, o lance hoje é grudar a cara na tevê e torcer para que este filme fature muitos e muitos bonequinhos!
Max Merege, além de roqueiro, ama e respeita cinema bem mais que muito cineasta de nariz empinado.












