segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ANTÔNIO ARNAUD RODRIGUES


Na última quarta feira de cinzas, o humor, a dramaturgia e a mpb, acordaram órfãos de um de seus maiores talentos nos últimos 50 anos: a morte de Arnaud Rodrigues! Foi na noite de terça feira ainda, quando o barco em que ele viajava com a esposa e dois netos, no Tocantins, naufragou. Seus familiares conseguiram ser salvos, mas ele não.

Talvez as lembranças mais comuns venham de "A Praça É Nossa", onde interpretou tipos inesquecíveis como o Cel. Totonho, o Povo Brasileiro e o Chitãoró; e de personagens que, em muitas vezes, roubavam a cena em novelas globais, como o ceguinho Jeremias, o personagem mais visionário de Roque Santeiro (1985), o Mr. Soul, de Partido Alto (1984) e o retirante Soró, de Pão-Pão Beijo-Beijo (1983); Soró, aliás, fez tanto sucesso que reapareceu no filme "Os Tapalhões e O Mágico de Oroz" (1984), cujo reteiro fora escrito pelo próprio.

Nos últimos dez anos, graças as facilidades da internet, sua obra musical ganhou um novo status e uma nova legião de fãs.

No começo da década de 70, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfrentavam sérios problemas com a ditadura militar, como a prisão e, consequentemente, um exílio na Inglaterra. Solidários com a situação dos artistas, Arnaud Rodrigues e Chico Anísio firmaram uma forte parceria e encarnaram o grupo Baiano & Os Novos Caetanos, uma espécie de Monkees tropicalista. Arnaud vivia o Paulinho, e Chico, o Baiano. Sua idéia principal era homenagear de modo cômico os principais nomes do Tropicalismo: Os Novos Baianos, Gal Costa, Mutantes, e também Maria Betânia. A dupla lançou hits como “Vô Batê pa Tu” e “Urubu tá com Raiva do Boi”. Letras inteligentes e arranjos que casavam o tradicional da música regional com o pop moderno. Uma profusão de fusões de forrós, modas de viola e afins, recheados com guitarras distorcidas e efeitos psicodélicos, tudo possível graças à visão de Arnaud e aos arranjos de maestros como Nonato Buzar, Waltel Branco, Guto Graça Mello e outras feras mais. Feito a princípio como trilha de programa humorístico, o trabalho rendeu excelentes posições nas paradas de sucesso, já que refletia todo o momento por que passava o Brasil, como as delações, o progresso desenfreado, a crise nos valores humanos, a volta às raízes no campo etc. A empreitada deu certo e logo mais ele lançou "O Som do Paulinho", que seguia o mesmo espírito bucólico psicodélico da dupla e que trazia a lissérgica "Murituri".

Já nos anos 80, foi a vez da tele-dramaturgia e por conseguinte, a volta ao humor.

Lá pelo final dos anos 90, após uma visita ao Tocantins, gostou tanto do lugar que levou a família toda para lá morar. Continuou escrevendo para várias publicações e regularmente aparecia no programa "A Praça É Nossa", mas foi em Tocantins que ele passou a se dedicar a uma outra paixão: o futebol! Tornou-se cartola e ajudou o Palmas a se destacar no Campeonato Brasileiro e a conquistar um tricampeonato estadual.

Hoje, apenas dois discos de Baiano e Os Novos Caetanos são encontrados na forma digital "oficial" (a.k.a. cedê de loja), contudo, todos os demais trabalhos tornaram-se figurinhas fáceis pela internet, o que vale para se conhecer a obra, mas que em nada substitui o peso de um elepê.

Em termos artísticos, sua partida é uma perda tão grande quanto as mortes de Mussum e Zacarias. Antônio Arnaud Rodrigues foi, é e sempre será um mestre à frente de seu tempo e que descanse em paz onde estiver.


Vô batê pá tú
(Chico Anisio e Arnaud Rodrigues)

Falou, é isso aí malandro
Tem que se ligar aí nesse som, tá sabendo...
Eu vou bate pá tú, pá tu bate pá tua patota

Vou batê pá tu bate pá tú
Pá tú batê...

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tú
Pá tú pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração, um cara louco
Que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Vou batê pá tu bate pá tú...

Tá falado, tu tem que se ligar....
É isso aí, falou

Vou batê pá tu bate pá tú...


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 21/02/2010.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O REI do Samba


No samba "Já Te Digo", dos irmãos Pixinguinha e China, ele era descrito como "alto, magro, feio / e desdentado / que fala do mundo inteiro / e vive avacalhado / no Rio de Janeiro". Quando de seu velório, Manuel Bandeira assim escreveu: “A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rende-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito (a zona do meretrício carioca), mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim”. Já o historiador José Ramos Tinhorão atribui a ele a verdadeira partenidade daquilo que três décadas mais tarde se convencionaria a chamar de "bossa nova", graças à sua forma malandra de conduzir a harmonia no esquema "um banquinho e um violão".
Nascido José Barbosa da Silva, no Rio de Janeiro, dia 18 de setembro de 1888, Sinhô era filho de um conhecido pintor de paredes e fã das rodas de samba e choro. Desde criança teve um contato muito forte com a música. Aprendeu flauta, violão, piano e malandragem também!
Aos 17 anos casou-se com uma jovem portuguesa de sua vizinhança e até os 21 ele já era pai de três filhos. Para sustentar a família, trabalhava como demonstrador de piano em uma loja de instrumentos musicais - a histórica Casa Beethoven - e tocava por tudo quanto era lugar, desde refinados salões da alta sociedade até casas de rendezvous e moquifos afins, e em inúmeras agremiações dançantes, como a famosa Kananga do Japão (que inclusive virou novela no final dos anos 80).
Aos 26 enviuvou, e até o final de sua vida, casou-se por mais três vêzes. Uma de suas esposas chamava-se Cecília e também trabalhava como demonstradora na Casa Beethoven, tendo sido ela a primeira grande divulgadora de sua obra e responsável pelas primeiras transcrições de Sinhô para a forma de partitura.
Frequentador assíduo das rodas de samba da casa da bahiana Tia Ciata, Sinhô está entre aqueles que reclamavam para si a autoria de "Pelo Telefone", primeiro samba gravado da história e apresentado como se fosse da autoria de Donga e Mauro de Almeida. Em resposta, Sinhô compôs o samba "Quem São Eles". Trocas de farpas por todos os lados, desse período também é a marchinha carnavalesca "Tesourinha": "eu tenho uma tesourinha / que corta ouro e marfim / serve também pra cortar / línguas que falam de mim" .
Sinhô também era acusado de ser plagiador, acusação da qual se defendeu dizendo que "samba é igual a passarinho, é de quem pegar". Por conta disso, foi o primeiro artísta brasileiro a realmente se preocupar com direito autoral, pois tomava o cuidado de registrar todas suas composições em cartório e rubricar todos os seus discos.
Em 1921, lançou o samba "Fala Baixo", uma sacanagem com o então presidente Artur Bernardes. Não deu outra, teve que fugir por uns tempos para escapar da polícia. Aliás, mesmo sendo um talento excepcional, Sinhô tinha sérios problemas com a lei, pois além de ser um dedicado pai de família, também era um boêmio enveterado, pois muito do que ganhava acabava indo para suas noitadas, sendo que por muits vezes fugia de cobradores. Promovia muitas e muitas festas pelos inferninhos do Rio e, ainda por cima, na Noite Luso-Brasileira, no Teatro da República, em 1927, foi honrosamente agraciado com o título de Rei do Samba, que perdura até hoje. Sua vida desregrada, aliás, contribuiu em muito para que sua saúde se deteriorasse rapidamente. Em 1930, às vésperas de completar 42 anos, morre vítima de uma hemoptíase decorrente da tuberculose, no meio do caminho da barca que ligava a Ilha do Governador ao Rio de Janeiro.
Suas composições ajudaram a catapultar a carreira de monstros sagrados da mpb, como Carmem Miranda e Francisco Alves, e também tiveram nas vozes de Aracy Cortes e Mário Reis sua maior expressão. Afinal, "Jura" e "Gosto Que Me Enrosco" são apenas um pequeno exemplo de como sua obra continua incólume, mesmo após oito décadas de sua partida.

Por hoje é isso, caríssimos. Um bom carnaval a todos e até a próxima.

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Max Merege, além de roqueiro também vai se acabar na orgia neste carnaval




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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 14/02/2010.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

surfando em Oz com THE ATLANTICS


Todos já estamos cansados de saber que a Austrália é aquele imenso país, que, além de ter quase o mesmo tamanho do Brasil, também goza das mesmas condições climáticas que a nossa terra e, apesar de ser culturalmente ocidental, fisicamente ainda pertence ao oriente. Em termos musicais, também temos uma das mais fortes e produtivas cenas do mundo, extendendo-se do country-folk ancestral de Tex Morton e Slim Dusty até modernidades como Silverchair e The Jet, passando pelo rockabilly de Johnny O'Keefe, o mod dos Easybeats, Missing Links e Bee Gees, o hardrock de AC/DC e Rose Tattoo, o punk do The Saints e Roaring Jack, o romantismo de caras como John-Paul Young e Nick Cave e musas adoráveis como Olivia Newton-John, Nicolle Kidman e Kelly Minogue.
Paraíso dos Surfistas, não é à toa que a terra dos aussies tem uma praia chamada Surfer's Paradise. O problema é que dos anos 70 para cá, muita coisa tem se confundido nas informações que têm nos chegado sobre esse caldeirão cultural, e inúmeras publicações históricas do surf, passaram a apresentar como surf, qualquer tipo de som que fosse australiano. Exemplo disso são bandas como Australian Crawl, Men At Work, Midnight Oil, Gang Gajang etc serem tidas como surf-music só pelo fato de serem australianas. Bem, sem tirar-lhes o mérito, é válido lembrar que já rezava a velha máxima "cada macaco no seu galho", logo, o galho deles é pura e simplesmente a música pop e pronto! Eles são ótimos para o que se propõem a fazer e a coisa pára por aí!
Mas voltando a falar de surf-music, The Atlantics é o exemplo máximo do estilo na terra de Oz!
Começaram em Sidney, em 1961. Seu nome apareceu como uma homenagem a uma famosa marca de combustíveis, já que sempre fizeram rock de alta octanagem.
Bastante influenciados por Shadows, Ventures e nomes locais como The Joy Boys, Jimmy D. , The Telstars, The Midnighters etc, ganharam espaço pela originalidade, pois enquanto os demais se limitavam a copiar os já citados Ventures e Shadows, os Atlantics compunham suas próprias canções, uma vez que todos os integrantes já carregavam consigo toda uma bagagem cultural que lhes dava subsídios para a criação de peças absolutamente inovadoras, pois eram imigrantes que vieram muito pequenos para a Austrália, oriundos das mais diversas culturas do mundo. Isto lhes rendeu uma atenção muito especial por parte do pessoal da CBS australiana. Gravaram vários LPs e alguns muitos singles e EPs pela gravadora. Flertaram com a psicodelia e com o garage-punk. Em 1967 criaram o primeiro selo independente da Austrália, o Ramrod, e nos anos 70 fomentaram o aussie folk rock, sem nunca terem de fato se desviado de seu caminho.
Nos anos 70 e 80 mantiveram-se como sócios em vários negócios, mas só na década de 90 é que vieram a ressuscitar a banda, estando desde então na ativa até hoje!
Apesar de serem donos de inúmeros clássicos do surf-instro, seu maior hit ainda é "Bombora", e também, graças ao boom do gênero a partir de 1994, consquistaram um status muito maior e o respeito universal, há muito almejado.
Por hoje é isso, caríssimos. Semana que vem tem mais.

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Originalmente publicado no Caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, 7 de fevereiro de 2010, Cuiabá-MT.

VIDEOS

domingo, 31 de janeiro de 2010

ERA UMA VEZ NO CENTRO-OESTE

Esses dias, ao msn, falando com uma querida amiga que está lá em Curitiba, contei que passei o dia me alucinando com um dvd do Ennio Morricone ("Morricone Por Morricone").

_Morricone?! Não conheço.

_É o famoso Maestro italiano que compôs inúmeras trilhas para o cinema.

Logo, mandei-lhe alguns videos do Maestro regendo as orquestras e passados quinze minutos de silêncio absoluto deste lado, ela teceu uma breve crítica:

_Sabe quando você come um chocolate bem bom??? Ou quando faz exercício físico, tipo uma corrida na beira do mar? Ou quando está tão apaixonado que tem vontade de gritar de amor? Morricone é isso e muito, muito mais!!!!

Isso aguçou meu pensamento e pus-me a pensar que, de fato, existem mesmo certos dias em que nos encontramos com um mesmo conteúdo guardado na cabeça e absorvido pelo coração, mas para o qual as palavras de nosso pobre e limitado léxico sempre serão insuficientes para descrever, pois diz respeito à grandeza de uma obra que atinge o fundo de nossa alma! Não interessa idade, cor, sexo, credo ou formação cultural de quem ouça, pois Morricone é a definição mais que perfeita para a música como linguagem universal.

Já vimos aqui por esta coluna muitas figurinhas interessantes que, na maioria das vezes, são desconhecidas de nosso grande e amado público; e outras, bastante conhecidas, mas que até então haviam tido pouco espaço em nossos estimados veículos. Uma dessas é o maestro italiano Ennio Morricone.

A propósito quem nunca assoviou "The Good, The Bad and the Ugly", tema de "Três Homens em Conflito"? Sim, esta é sem dúvida o maior clássico das trilhas de faroeste! Mas não foi apenas com trilhas de faroeste que Morricone se destacou, mas por sua incrível versatilidade de transitar por todos os terrenos sem jamais deixar de ser Morricone.

Nascido no dia 10 de novembro de 1928, filho de uma dona de casa e de um músico de jazz, Ennio Morricone ingressou na música ainda criança, pois aos seis anos já compunha suas primeiras melodias. Estudou no conservatório Santa Cecília, onde em tempo recorde concluiu um curso de quatro anos de duração em apenas dois. Testemunhou os tempos difíceis de uma Itália assolada pela Segunda Guerra Mundial. Na juventude, ganhou a vida como músico noturno, criou belas peças sobre textos de autores consagrados como Giacomo Leopardi, Ranieri Gnoli, Salvatore Quasimodo, Cesare Pavese etc. Entre 1953 e 1960, foi maestro da RAI, preparando trilhas para novelas, e em 1958, tornou-se arranjador da RCA, onde trabalhou com artístas como Rita Pavone e Mario Lanza. Em 1966, um grande sucesso pop, de sua autoria, foi a música "Se Telefonando", na voz de Mina Mazzini. Trabalhou também com muitos artistas de peso, como Francoise Hardy, Gianni Morandi, Paul Anka, Mireille Mathieu e tantos outros mais.

Como o seu trabalho com cinema já lhe rendera um bom nome desde o final do 50's, em meados da década seguinte iniciou uma forte parceria com o diretor Sergio Leone, um velho amigo seu dos tempos de escola ainda.

Influenciado pelo experimentalismo de John Cage e diante de limitações orçamentárias que inviabilizavam a manutenção de uma orquestra inteira, Morricone preparou as trilhas para a "Trilogia do Dollar" ("Por um Punhado de Dólares", "Por Uns Dólares A Mais" e "Três Homens Em conflito") com inúmeros outros recursos como barulhos de tiros, quebradeiras, chapas de aço e, é claro, guitarras elétricas.

Nascia uma nova era no cinema, formou-se assim o trinômio Sergio Leone, Clint Eastwood e Ennio Morricone, e o cinema de faroeste jamais seria o mesmo. Chega das histórinhas clichê, chega das mesmas fanfarrices nas trilhas-sonoras, adeus aos maniqueísmos e ao politicamente correto! Morricone ainda ganharia notoriedade por pelas trilhas de outra trilogia de Leone, formada por "Era Uma Vez No Oeste", "Quando Explode A Vingança" e "Era Uma Vez Na América".

Bastante requisitado, Morricone trabalhou ainda com diretores do porte de Pier Paolo Pasollini, Giuseppe Tornatore, Sergio Corbucci, Tonino Valerii, Mario Bava, Giuliano Montaldo, Dario Argento, John Carpenter, Brian De Palma etc.

Ganhador de prêmios importantíssimos como David di Donatello (Academia de Cinema Italiana), dois Globos de Ouro, um Grammy, um Leão de Ouro em Veneza e tantas outras honrarias mais, por várias vezes fora indicado ao Oscar, mas somente em 2007 recebeu a consagração máxima, sob a forma de um prêmio pelo Conjunto da Obra, entregue por Clint Eastwood, que antes apresentara um discurso de gratidão ao Maestro por este ser um dos responsáveis por seu sucesso como ator, e em seguida serviu de interprete para o discurso do Maestro em italiano.

Por duas vezes veio ao Brasil. Uma em 2007, regendo a Orquestra Petrobras, e outra em 2008, para uma única apresentação em São Paulo.

Enfim, sei que aqui eu levaria inúmeras páginas para comentar sua vasta discografia e filmografia; afinal, quando o assunto é Morricone, pode-se ter certeza de que isso ainda dá muito pano pra manga. Por outro lado, talvez seja mais prudente debruçarmo-nos na idéia maeterlinkiana d'o "indizível", e apenas sentirmos o que de fato é para ser sentido: sua música; bálsamo para o coração, depurativo para a alma.


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“We All Love Ennio Morricone” (2007)

Um belo cedê-tributo lançado logo após o Oscar de 2007. Músicas do Maestro interpretadas por diversos grandes nomes da música pop. Abre com Celine Dion, cantando "I Knew I Loved You" (*pessoalmente, nunca gostei dela, mas aqui ela mostrou um bom serviço!)e segue-se com releituras feitas por Quincy Jones & Herbie Hancock, Bruce Springsteen, Andrea Bocceli, Metallica, Yo-Yo Ma, Daniela Mercury & Emir Deodato (*vale aqui a mesma opinião de cima!), a portuguesa Dulce Pontes, Roger Waters e, é claro, o próprio Ennio Morricone.




“Per Un Pugno di Samba” (1970/2002)

Disco que Chico Buarque fez em seu breve exílio pela Itália. Inteiramente arranjado por Ennio Morricone e com letras reescritas por Sergio Bardotti, saíra apenas na Itália, no ano de sua gravação, 1970. Por questões burocráticas, envolvendo contratos de gravadora, o disco precisou amargar mais de trinta anos de espera para ser lançado no Brasil. O próprio Maestro o considera um disco muito à frene de seu tempo.







“Morricone por Morricone” (Morricone Conducts Morricone) (2005)

Dirigido por seu filho, Giovanni Morricone, trata-se de uma emocionante apresentação do Maestro em Munich, Alemanha, no dia 20 de outubro de 2004. Mesmo com um repertório aparentemente "previsível", formado por temas consagrados como "Os Intocáveis", "Cinema Paradiso", "A Missão" e aqueles que permeiam os filmes de Sergio Leone, não tem como conter as lágrimas com tão belo espetáculo, ainda mais nas canções apresentadas pela soprano Edda dell'Orso.


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publicado no caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT - 31 de janeiro de 2010



domingo, 24 de janeiro de 2010

Apresentando: THE SONICS



É muito comum ouvirmos de vários amigos conhecedores que quem começou a tocar o pau no rock foram ingleses como Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. No entanto, vimos que as coisas não são bem assim, já que o rock pesado é apenas um menino bastardo, revoltado e violento, cujos pais, por sua vez, são ilustres "desconhecidos"! Mas a parte mais maravilhosa disso tudo é que de umas duas décadas pra cá as pesquisas passaram a se intensificar cada vez mais, não só entre pesquisadores, mas principalmente entre os fãs, que, sedentos por animosidades cada vez mais difíceis de se encontrar e buscando desmistificar inúmeras lendas, meteram as caras foram atrás das devidas informações. Obviamente, isso ocorreu antes do advento desta maravilha chamada internet, já que através dela ficou bem mais fácil de se adquirir as tão almejadas informações e que há alguns bons anos atrás precisaríamos esperar meses até que chegasse aquele cedê importado, com um maravilhoso encarte recheado de informações.

Mas voltando à pauleira... certa vez apresentamos um singelo e breve review sobre o MC5 e, claro, com todo respeito devido, foi-nos possível mostrar que existiam, sim, bandas muito mais animalescas do outro lado do Atlântico (e, por que não, no resto do mundo também) que as supracitadas e todas as demais de sucesso consagrado em nosso limitadíssimo universo pop.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa...

Filhos de uma renomada professora de piano da cidade de Tacoma, uma modesta cidade dormitório da região metropolitana de Seattle, os irmãos Lary e Andy Paripa começaram seus experimentos musicais com amigos em 1960, tocando respectivamente guitarra e baixo, e fazendo bailinhos pelas escolas da área (aliás, este foi o começo de inúmeras grandes bandas da história do rock!), mas somente quatro anos mais tarde juntaram-se aos companheiros Gerry Rosille (piano e órgão), Rob Lynd (saxofone) e Bob Bennett (bateria) para começarem de fato a mudar a história. Surgia o The Sonics!

The Sonics foi/é uma banda que sempre teve o seu cantinho cativo na história do rock, não por ter sido um grande vendedor de discos ou por conta de experimentações de toda a sorte, mas por sua peculiariedade sonora, algo a perdurar fortemente pelo resto dos anos, em todo o mundo, e cujo reconhecimento formal só veio depois que muita gente famosa passou a citá-los como influência.

Influenciados principalmente por Little Richard e diversos tantos "malditos" como Link Wray, Hasil Adkins, Screamin' Jay Hawkins, Howllin' Wolf etc, eles incendiaram Seattle e contribuiram fortemente para fizer da região o que é hoje em termos roqueiros. Sim, anos antes de Jimi Hendrix e da famigerada geração SubPop, Seattle sempre teve os maravilhosos Ventures e bandas incríveis como The Kingsmen, The Fab. Wailers, The Drastics, The Dynamics, The Regents etc, mas foi mesmo com os Sonics que a coisa ganhou um sentido mais amplo e verdadeiro.

Ansiosos por passar seu recado, lançaram em 64 seu primeiro compacto com "The Witch" e "Keep A Knocking", uma regravação para o clássico de Little Richard. Localmente, seus discos se esgotaram nas vendas, já que as rádios de recusavam a tocar músicas "politicamente incorretas", cuja temática abordava assuntos "tabu", o que se estendeu para seus singles posteriores, já que as letras sempre giravam em torno de coisas como sexo e distúrbios mentais relatados em primeira pessoa ("Psycho", "The Hustler", "Boss Hoss", "Cinderella" e "Maintaining My Cool"), drogas ultra-pesadas ("Strychnine") e ocultismo ("The Witch" e "He's Waiting").

Pela Etiquette Records, gravaram uma série de pedradas sonoras, contidas nos discos: "Here Are the Sonics" (1965), "Merry Christmas" (1965) e "Boom" (1966). E em 1966 mudam-se para a Jerden Records, com a qual gravam "Introducing The Sonics", o disco mais light de sua carreira e que, segundo os próprios membros da banda, foi a pior burrada de suas vidas.

Todavia, mal se levantaram de um tombo e a mão do destino pôs-se a esquartejar a banda: Andy foi tocar com outras bandas da área, Larry foi virar professor de literatura (reza a lenda que até Kurt Cobain foi seu aluno no colegial) e Rob Lind foi virar piloto na guerra do Vietnã. Restaram Gerry Rosille e Bob Bennett, que conduziram a trupe como um morto-vivo até 1972, ano em que os membros originais se reuniram para um show no Seattle Paramount, de onde gravaram o excelente disco "Live Fanz Only". Depois disso, cada qual foi levando sua vida... No começo dos 80, usando o nome The Sonics, Gerry Rosille gravou o disco "Sinderella", que mesmo contendo regravações de clássicos da banda, não surtiu o mesmo efeito e nem tampouco tinha o punch dos Sonics originais.

Em 2007, com uma formação mais próxima possível de seus áureos anos, reuniram-se para uma apresentação no Cavestomp, em Nova Iorque, um festival dedicado ao garage-punk, estilo inaugurado pelos próprios Sonics mais de quatro décadas antes. Dos membros, ficaram: Gerry Roslie (vocais/teclados), Larry Parypa (guitarra) e Rob Lind (sax); para o baixo e a bateria, Don Wilhelm e Ricky Lynn Johnson.

No ano seguinte, gravaram um disco ao vivo na BBC de Londres e fizeram sua primeira tour fora dos EUA. Contudo, sua maior glória foi ter tocado em Seattle, no Halloween, 36 anos após sua última apresentação, com Bob Bennet na bateria, para um público formado por velhos amigos e inúmeros fãs que sequer haviam nascido na época de seu boom.

The Sonics, por mais desconhecida que pareça é uma das bandas que mais influenciaram o rock nos últimos 50 anos, já que sua legião de fãs famosos se estende desde o conterrâneo Jimi Hendrix até White Stripes e Eagles Of Death Metal, passando por Dead Boys, The Cramps, Billy Childish, The [Swiss] Monsters, Fuzztones, Mudhoney, Nirvana, Pearl Jam e tantos outros doidos mais. Uma banda para para se ouvir à exaustão, no último volume!

Um grande abraço a todos e até a próxima.

Originalmente publicado
dia 24 de Janeiro de 2010
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso


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