domingo, 24 de janeiro de 2010

Apresentando: THE SONICS



É muito comum ouvirmos de vários amigos conhecedores que quem começou a tocar o pau no rock foram ingleses como Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. No entanto, vimos que as coisas não são bem assim, já que o rock pesado é apenas um menino bastardo, revoltado e violento, cujos pais, por sua vez, são ilustres "desconhecidos"! Mas a parte mais maravilhosa disso tudo é que de umas duas décadas pra cá as pesquisas passaram a se intensificar cada vez mais, não só entre pesquisadores, mas principalmente entre os fãs, que, sedentos por animosidades cada vez mais difíceis de se encontrar e buscando desmistificar inúmeras lendas, meteram as caras foram atrás das devidas informações. Obviamente, isso ocorreu antes do advento desta maravilha chamada internet, já que através dela ficou bem mais fácil de se adquirir as tão almejadas informações e que há alguns bons anos atrás precisaríamos esperar meses até que chegasse aquele cedê importado, com um maravilhoso encarte recheado de informações.

Mas voltando à pauleira... certa vez apresentamos um singelo e breve review sobre o MC5 e, claro, com todo respeito devido, foi-nos possível mostrar que existiam, sim, bandas muito mais animalescas do outro lado do Atlântico (e, por que não, no resto do mundo também) que as supracitadas e todas as demais de sucesso consagrado em nosso limitadíssimo universo pop.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa...

Filhos de uma renomada professora de piano da cidade de Tacoma, uma modesta cidade dormitório da região metropolitana de Seattle, os irmãos Lary e Andy Paripa começaram seus experimentos musicais com amigos em 1960, tocando respectivamente guitarra e baixo, e fazendo bailinhos pelas escolas da área (aliás, este foi o começo de inúmeras grandes bandas da história do rock!), mas somente quatro anos mais tarde juntaram-se aos companheiros Gerry Rosille (piano e órgão), Rob Lynd (saxofone) e Bob Bennett (bateria) para começarem de fato a mudar a história. Surgia o The Sonics!

The Sonics foi/é uma banda que sempre teve o seu cantinho cativo na história do rock, não por ter sido um grande vendedor de discos ou por conta de experimentações de toda a sorte, mas por sua peculiariedade sonora, algo a perdurar fortemente pelo resto dos anos, em todo o mundo, e cujo reconhecimento formal só veio depois que muita gente famosa passou a citá-los como influência.

Influenciados principalmente por Little Richard e diversos tantos "malditos" como Link Wray, Hasil Adkins, Screamin' Jay Hawkins, Howllin' Wolf etc, eles incendiaram Seattle e contribuiram fortemente para fizer da região o que é hoje em termos roqueiros. Sim, anos antes de Jimi Hendrix e da famigerada geração SubPop, Seattle sempre teve os maravilhosos Ventures e bandas incríveis como The Kingsmen, The Fab. Wailers, The Drastics, The Dynamics, The Regents etc, mas foi mesmo com os Sonics que a coisa ganhou um sentido mais amplo e verdadeiro.

Ansiosos por passar seu recado, lançaram em 64 seu primeiro compacto com "The Witch" e "Keep A Knocking", uma regravação para o clássico de Little Richard. Localmente, seus discos se esgotaram nas vendas, já que as rádios de recusavam a tocar músicas "politicamente incorretas", cuja temática abordava assuntos "tabu", o que se estendeu para seus singles posteriores, já que as letras sempre giravam em torno de coisas como sexo e distúrbios mentais relatados em primeira pessoa ("Psycho", "The Hustler", "Boss Hoss", "Cinderella" e "Maintaining My Cool"), drogas ultra-pesadas ("Strychnine") e ocultismo ("The Witch" e "He's Waiting").

Pela Etiquette Records, gravaram uma série de pedradas sonoras, contidas nos discos: "Here Are the Sonics" (1965), "Merry Christmas" (1965) e "Boom" (1966). E em 1966 mudam-se para a Jerden Records, com a qual gravam "Introducing The Sonics", o disco mais light de sua carreira e que, segundo os próprios membros da banda, foi a pior burrada de suas vidas.

Todavia, mal se levantaram de um tombo e a mão do destino pôs-se a esquartejar a banda: Andy foi tocar com outras bandas da área, Larry foi virar professor de literatura (reza a lenda que até Kurt Cobain foi seu aluno no colegial) e Rob Lind foi virar piloto na guerra do Vietnã. Restaram Gerry Rosille e Bob Bennett, que conduziram a trupe como um morto-vivo até 1972, ano em que os membros originais se reuniram para um show no Seattle Paramount, de onde gravaram o excelente disco "Live Fanz Only". Depois disso, cada qual foi levando sua vida... No começo dos 80, usando o nome The Sonics, Gerry Rosille gravou o disco "Sinderella", que mesmo contendo regravações de clássicos da banda, não surtiu o mesmo efeito e nem tampouco tinha o punch dos Sonics originais.

Em 2007, com uma formação mais próxima possível de seus áureos anos, reuniram-se para uma apresentação no Cavestomp, em Nova Iorque, um festival dedicado ao garage-punk, estilo inaugurado pelos próprios Sonics mais de quatro décadas antes. Dos membros, ficaram: Gerry Roslie (vocais/teclados), Larry Parypa (guitarra) e Rob Lind (sax); para o baixo e a bateria, Don Wilhelm e Ricky Lynn Johnson.

No ano seguinte, gravaram um disco ao vivo na BBC de Londres e fizeram sua primeira tour fora dos EUA. Contudo, sua maior glória foi ter tocado em Seattle, no Halloween, 36 anos após sua última apresentação, com Bob Bennet na bateria, para um público formado por velhos amigos e inúmeros fãs que sequer haviam nascido na época de seu boom.

The Sonics, por mais desconhecida que pareça é uma das bandas que mais influenciaram o rock nos últimos 50 anos, já que sua legião de fãs famosos se estende desde o conterrâneo Jimi Hendrix até White Stripes e Eagles Of Death Metal, passando por Dead Boys, The Cramps, Billy Childish, The [Swiss] Monsters, Fuzztones, Mudhoney, Nirvana, Pearl Jam e tantos outros doidos mais. Uma banda para para se ouvir à exaustão, no último volume!

Um grande abraço a todos e até a próxima.

Originalmente publicado
dia 24 de Janeiro de 2010
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso


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sábado, 23 de janeiro de 2010

GUERRERO SONORO



Quem andou de skate entre os anos oitenta e noventa certamente se lembrará dele, afinal, mesmo não sendo um tupiniquim como nós, o cara era bem brasileiro na hora de fazer suas manobras radicais, recheadas de uma ginga malandra pouco comum à sua época. Descendo as ladeiras da californiana São Francisco ou dando rolês pelos subúrbios da cidade, Tommy Guerrero foi uma dessas figurinhas pra lá de carimbadas que animaram os famigerados vídeos da Bones Brigade (Future Primitive, The Search For Animal Chin, Public Domain, Ban This etc), dirigidos por Stacy Peralta.






Após uma bem sucedida carreira no time da Powell Peralta, Guerrero e seu parceiro de equipe, Jim Thiebaud, fundaram no início dos noventa sua própria marca, a Real Skateboards. O negócio deu tão certo que Tommy Guerrero pôde, finalmente, dedicar-se com mais afinco à sua outra grande paixão: a música.
Por um bom tempo, tocou sua guitarra na banda de hardcore Free Beer e em seguida integrou uma outra chamada The Jet Black Crayon, que tocava surf-instro experimental, e com a qual se reuniria para gravar na metade de 2000. Tudo bem, foi muito bom fazer um barulho com os amigos e assim se (re)descobrir como músico. Entretanto, o melhor ainda estava por vir...


Um Pingo de Alguma Coisa...

Foi com o single Backintheday (1995), que Tommy Guerrero descobriu que podia se sair tão bem em algo quanto no skate. Seu rock instrumental viajandão, influenciado por toda sorte de sons, tornava-se aos poucos uma febre, não apenas por entre esqueitistas e surfistas, mas por todo canto onde hovesse ávidos curtidores de boa música. Afinal, fundir com tamanha elegância música do terceiro mundo a rítimos tão amricanos como o blues e o jazz, não era tarefa para qualquer um.
Em três anos de árduo trabalho, Guerrero adotou um rítmo mais compassado em sua produção sonora, lançando discos quase que anualmente. Começou com Loose Grooves & Bastard Blues(1998) e sucedeu-se como A Little Bit Of Somethin' (1999), Hoy Yen Ass'n (2000), Junky Collector (2001), Soul Food Taqueria (2003), Year of the Monkey (2005), From The Soil To The Soul (2006), Return of the Bastard (2008, uma clara homenagem ao seu primeiro full cd) e Lord Newborn and The Magic Skulls (2009). Em 2002, mixou e compilou a coletânea Another Late Nights: Tommy Guerrero, parte da série Late Night Tales.


Ao vivo, no Festival Alma Surf - foto: Gideonis Jr.


Em julho do ano passado, Tommy Guerrero aportou em nosso amado país e tocou na sexta edição do Festival Alma Surf, em São Paulo e, como não podia ser diferente, além de hipnotizar a platéia, também conquistou uma nova legião de fãs.

Max Merege, colunista do Folha 3, é publicitário por profissão, filósofo amador, esqueitista aposentado e musicófilo compulsivo. Nunca perde a chance de uma boa discussão sobre música, filmes e idéias.

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Originalmente publicado
dia 17 de Janeiro de 2010
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

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VÍDEOS DE TOMMY GUERRERO

MC5



Queridos leitores,
Sei que o quanto sentiram minha falta por essas últimas semanas. Pois bem, o "recesso" foi algo mais do que necessário, pois como todos já estamos cansados de saber, pesquisadores nunca entram em recesso de fato, já que a cada segundo poem suas cabeças para funcionar, seja atrás de novidades do presente ou desenterrando tesouros do passado.
Não faz muito, fui para Curitiba, passar o Natal com meus familiares que moram por lá, e nesse ensejo aproveitei para dar umas saídas, rever lugares e reencontrar antigos companheiros. Numa dessas, fui tomar uma cerveja no famoso Chinaski Bar e lá eu vi meu velho amigo Daniel Cana com uma camiseta do MC5. Não resisti e lhe fiz uma proposta: "hey, Cana, quer trocar essa camiseta por uma novinha da Santa Cruz Skate ?" Ele olhou, pensou... e disse: "valeu mesmo, Max, mas essa aqui é preciosa pra mim; afinal, ganhei numa aposta com o Paulo Bosta". Beleza! Nisso eu tive um estalo, já que fazia um bom tempo que o Henhippie me cobrava uma matéria sobre esses caras e eu sempre postergava. Bem que eu podia escrever sobre um grande ídolo meu, o Rei do Rock, Elvis Aaron Presley; afinal, comemoramos seus 75 anos, mas não! Até porque o que não falta é veículo falando d'Ele. Assim sendo, com vocês, hoje: MC5 !


Heróis da Pauleira

Primeiramente, MC5 não é banda de funk e nem tampouco um grupo de hip-hop com cinco MCs, mas uma turma que lançou as sementes do rock pauleira das décadas posteriores aos 60 até os dias de hoje, e cuja nome significa Motor City Five (trad: Os Cinco da Cidade Motor), já que aludia à vida na cidade de norte-americana de Detroit, terra da Ford, GM, Chrysler etc e de um GP de Formula 1. Ou seja, MC5 é certeza de rock de altíssima octanagem, já que todos os seus membros aprenderam antes mesmo de tocar a distiguir os carros pelo barulho do motor.
Começaram a tocar em 1964, pelo circuito de colégios e tudo quanto era biboca da região de Detroit e Ann Arbour, influenciados principalmente pelo rhythm'n'blues de Chicago e, é claro, pelo ronco dos motores. A banda começou com os amigos de infância e guitarristas Fred "Sonic" Smith & Wayne Kramer, que em seguida recrutariam Rob Tyner para os vocais, Pat Burrows para o baixo e Bob Gaspar para a bateria. Tornaram-se os Reis da área e literalmente bagunçaram o coreto na região!
Tanto sua sonoridade quanto sua postura política e o teor de suas letras refletiam algo extremamente revolucionário, e isso sempre mantinha a polícia no seu pé. Lançaram no comecinho de 68 o seu primeiro single: "Borderline" and "Looking at You." Ainda na mesma época, Danny Fields, executivo da Elektra Records, deu o ar da graça por Detroit e acabou contratando o MC5 e seus conterrâneos, os Stooges. Danny Fields entrou para a história e arrumou uma bomba nuclear para a vida, já que tanto MC5 quanto os Stooges faziam os Doors (outro nome de peso da gravadora então) parecem mocinhos de família. No Halloween do mesmo ano gravaram ao vivo no Detroit's Grand Ballroom todo o material que figuraria no antológico disco "Kick Out The Jams". "Kick Ou The Jams", aliás, deu o que falar na época, já que na música, originalmente, Rob Tyner gritava "Kick Out The Jams! Motherfuckers!!!!!!" ("Vamos quebrar essa po**a, seus FDPs!!!!!"). Ao mesmo tempo em que lojas se recusavam a vender o disco, a gravadora instruia os rapazes a trocarem o "motherfuckers" por "brothers and sisters".
Partidários de esquerda, muito anos antes do Rage Against The Machine sonhar em se engajar politicamente, eles já integravam a turma dos White Panters, um grupo parceiro dos Black Panthers e que também brigava contra as desigualdades sociais e a guerra do Vietnã. Até o final da banda, gavariam ainda outros dois elepês: "Back In The USA" e "High Time".
Entretanto, mesmo tendo o grupo "pendurado as chuteiras" em 1972, seu legado continuou avassalador, pois tornaram-se influência sagrada tanto para o punk quanto para o metal e todo o rock alternativo em geral. Iggy Pop & The Stooges, Motorhead, Kiss, Ramones, Damned, Radio Birdman, The Germs, Greg Sage & The Wipers, Sonic Youth, Mudhoney etc etc etc.
Nesse meio tempo, cada um seguiu sua vida... Fred Smith, junto com Scott Asheton (Stooges), formou a Sonic's Rendevouz Band, e anos mais tarde casou-se com Pat Smith, mas morreu de câncer em 1994; Wayne Kramer circulou entre o céu e o inferno na terra, tendo até passado uns bons anos no xadrez por porte de drogas; recuperou-se e voltou para o rock nos anos 90, tendo lançado um bom material pelo selo Epitaph. Robin Tyner se tornou um grande produtor na região do Michigan, gravou um disco-solo em 1990, mas morreu no ano seguinte de ataque cardiáco.

De volta aos palcos...

Em 2003, os três sobreviventes - Wayne Kramer, Michael Davis e Dennis Thompson - fizeram uma bela reunião no clássico 100 Club de Londres. Das participações, ninguém menos que Nickie Anderson (The Hellacopters), Dave Vanian (The Damned), Lemmy Kilminster (Motorhead) e muitos mais. Sucesso este que se repetiu nos anos porteriores, contando inclusive com tours e uma vinda ao Brasil, com direito a aparição no programa do Jô Soares. Desde 2005 a banda tem seguido na estrada com o apoio vocal de Handsome Dick Manitoba, o lendário cantor do Dictators.




Originalmente publicado
dia 10 de Janeiro de 2010
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

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VÍDEOS DO MC5

Meu presente de NATAL

Como estamos bem pertinho de certas datas que marcam o final de um ciclo solar chamado ano e, como é de praxe, nossos nervos ficarem à flôr da pele por esses dias, certos bálsamos nos aparecem como se fossem a síntese de algum tipo de intervenção divina. Aliás, este cedê não me veio como um presente PARA o Natal, mas veio-me DE Natal mesmo! É de uma artísta potiguar chamada Simona Talma.
Pois bem, certa vez conversando pelo msn com um amigo meu famoso, lá da Bahia, acerca de grandes vozes femininas no rock, falamos de divas do punk e da new wave como: Debbie Harry (Blondie), Christie Hynde (Pretenders), Fay Fife (Rezillos), Beki (Vice Squad), Patt Smith, Joan Jett, Nina Hagen et cetera; e sobre um bela coletânea organizada pelo cartunista Robert Crumb (o mesmo que fez a capa do Chip Thrills da Janis Joplin) só com cantoras das regiões tropicais do globo, entre os anos 20 e 40; e até da Pitty a gente falou... mas eis que lá lá pelas tantas surgiu o nome de Simona Talma... "cara, você precisa conhecer uma cantora que a gente viu outro dia!" ... assim que me mandou um endereço de myspace, ele me contou que ficou embasbacado com o show da cidadã. Fui até a página para conferir e ouvir. Simplesmente adorei!
Quatro dias se passaram e eis que recebo em casa um pacote do correio, vindo de Natal-RN. Era o cedê da Simona, intitulado "A mulher mais vagal que há" e ainda vinha com uma dedicatória:

"Max, espero que goste. Meio triste, meio romântico, um pouco cruel" !


E não é que o danado do meu amigo bahiano tinha dado meu endereço pra ela e eu nem sabia de nada?!

De fato, o cedê é uma delícia e faz jus à dedicatória, uma vez que alude à idéia de "sorrir por fora, chorando por dentro", já que toda a meloncolia das letras contrapõe-se aos arranjos primorosos no swing-foxtrote e à sua doce voz com sotaque potiguar.
Não digo aqui que a fossa e toda sorte de dor espiritual mereçam estar em um pedestal (até porque isso é coisa que ninguém merece), mas a obra em questão trata de coisas que só nossos corações - enquanto seres humanos - conseguem entender e que fogem dos domínios da razão. Sonoramente, é uma obra muito bem produzida, pois carrega em si muito do espírito New Orleans nos arranjos e uma voz que pode facilmente figurar ao lado de divas do porte de Jennifer Warnes e Maria de Medeiros.
Enfim, aos que desejam conhecê-la melhor, visitem sua página de myspace.

Por hoje é isso, meus caros. Um Feliz Natal, um grande abraço a todos e até a próxima.



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Cedês:


Carlos Careqa - À Espera de Tom (2008)


O nome é esse mesmo, escrito qom Q! Grande trabalho do artísta catarinense radicado no Paraná, mas que mora em São Paulo. Este disco todo é formado só com versões e traduções livres para canções de Tom Waits, conforme o próprio trocadilho do nome insinua. Destaque para "Guaraná Jesus", uma versão bem humorada para "Chocolate Jesus". Aos que não conhecem Carlos Careqa, uma ótima pedida. Aos que não conhecem Tom Waits, uma ótima pedida.


Maria de Medeiros - A Little More Blue (2007)


Na década de 90 e no começo do 2000, Maria de Medeiros tornou-se a portuguesa mais famosa do mundo, principalmente por suas brilhantes atuações em filmes cult de então: Henry & June, Pulp Fiction, Capitães de Abril, O Xangô de Baker Street etc. Entretanto, pouco se conhecia sobre sua faceta de cantora. Neste disco, acompaanhada por um time de grandes jazzísstas, aa musa lusitana interpreta vários clássicos da mpb como: Caetano Veloso, Chico Buarque, Dolores Duran, Gilberto Gil e Ivan Lins.

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Originalmente publicado
dia 20 de Dezembro de 2009
Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiabá - Mato Grosso

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

TOM WAITS for me and you...


A coluna de hoje bem que poderia falar sobre o mítico dia 8 de dezembro, no qual nasceram David Caradine (1933), Jim Morrison (1943), Kim Bassinger (1953) e Marty Friedman (1963),e morreram caras como John Lennon (1980) Tom Jobim (1994) e Dimebag Darrell (2004); entretanto, é sobre uma figura pra lá de carimbada, que neste dia 7 completa exatos 60 anos e que há muito queríamos que caísse pelos cantos desta coluna: Tom Waits.

Com sua voz rouca e grossa, enxarcada de álcool e cigarros, Waits nos transporta para um mundo povoado por antiheróis que, de um jeito ou de outro, fazem de seus dias histórias memoráveis.

Thomas Alan Waits, ou simplesmene Tom Waits, nasceu na cidade de Pomona, na California, no dia 7 de dezembro de 1949. Filho de uma mãe noroeguesa e de um pai irlandes, desde cedo aprendeu a apreciar a boa música, pois além das influências folk de berço, seu aprendizado foi marcado pelas viagens que fazia com o pai para o México, onde aprendeu a apreciar as canções dos mariachis. Começou a tocar por conta própria, fuçando os instrumentos da vizinhança: violões, harmônicas e pianos.

Em meados da década de 60, resolveu que deveria formar uma banda. Contudo, nada do que se produzia então lhe agradava aos ouvidos. Somente em 1972, após inúmeras tentativas frustradas de gravar algo é que Waits finalmente assina com a Asylum Records e consegue fazer o seu primeiro disco: "Closing Time"; lançado só ano seguinte. A crítica não deu muita bola, mas o álbum chamou a atenção de gente como Tim Buckley, que regravou "Martha" em seu disco "Sefronia", e The Eagles, que apresentou uma interpretação muito particular de "Ol' '55".

Eis que o artista ganha uma projeção cada vez maior e marca a década de 70 com uma série pérolas como: "The Heart of Saturday Night" (1974), "Nighthawks at the Diner" (1975), "Small Change" (1976), "Foreign Affairs" (1977) e "Blue Valentine" (1978); obras nas quais destilaria toda sua veia de contador de histórias de amor, ódio, violência, paixão, nirvanas e perversões, e onde as influências de blues, jazz e vauldeville o fariam muito mais punk que os punks de então.

A década de 80 começa com o disco "Heartattack and Vine", que vem com a clássica "Jersey Girl", marcando sua saída da Asylum. Ainda em 1980, Waits começa uma grande parceria com Francis Ford Copolla, atuando e gravando a trilha sonora para o filme "Do Fundo do Coração", ao lado da cantora Crystal Gayle, e onde, além de uma trilha sonora cotada para o Grammy, conquista o coração de Kathleen Brenan, sua musa, produtora e companheira até hoje.

Sainddo da Asylum, Tom Waits assina com a Island, e a partir de então lança uma trilogia no melhor estilo Kurt Weil, formada por: "Swordfishtrombones" (1983), "Rain Dogs" (1985) e "Frank's wild Years" (1986). Essa série contou com importantes contribuições, de caras como Marc Ribot, Robert Quine e Keith Richards. Seu maior sucesso foi a música "Downtown Train", que inclusive foi regravada por Rod Stewart. Ainda em 1986, Waits participa do filme "Down By Low", de Jim Jarmush, e de quebra ainda toca piano e canta da música "Sleep Tonight", do album "Dirty Work" dos Rolling Stones.

Nos anos 90, participou de diversas trilhas para musicais. Com os discos "Bone Machine" (1992), "The Black Rider" (1993) e "Mule Variations" (1999) seu nome atingiu status há muito esperado. De um temos "I Don't Wanna Grow Up", de outro "It Ain't No Sin", honrada pela presença do escritor William Borroughs, e por fim a comovente "Hold On". Em 1994 contou com uma regravação de Johnny Cash para "Down Here By The Train" e, no ano seguinte, foi homenageado pelos Ramones com uma interpretação muito própria para "I Don't Want To Grow Up". Em 1992 e 1999 ganha o Grammy.

Nos anos 2000, sua aura cult ganhou novos contornos e Waits lançou várias maravilhas como "Alice" e "Blood Money" (lançados simultaneamente em 2002), "Real Gone" (2004), uma coletânea tripla de lados b "Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards" (2006), e mais recentemente, a coletânea dupla ao vivo "Glitter And Doom" (2009).

Ano passado, a atriz Scarlett Johanson gravou "Anywhere I Lay My Head", um cedê só com músicas de Waits, e para completar, o paranaense Carlos Careqa também fez "À Espera de Tom", só com releituras em portugues para a obra do mestre. Em São Paulo, a pianista Cida Moreira, em parceria com o ator André Frateschi, tem apresentado um belo show apenas com músicas de Tom Waits.

Muitos tentaram, mas poucos conseguiram relatar tão fidedignamente o universo dos derrotados - Leonard Cohen e Bob Dylan ainda são os principais nomes; contudo, Waits se destaca por tornar tudo clássico, coisas sujas e belas, limpas e horríveis, andando por meios onde sequer os mais malditos ousaram circular.
Aliás, quem foi que disse que o bom poeta é aquele que só fala das coisas boas e belas da vida? Pois bem, verdade das verdades é que Tom Waits não é um bom poeta, mas um poeta de verdade que canta todos os lados da vida humana, seja na tragédia, seja na comédia.


Conheça a discografia comentada por Cleiner Micceno, no blog STALKER SHOTS

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Originalmente publicado no caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, Cuiaba-MT, dia 06/12/2009

VÍDEOS DE TOM WAITS

domingo, 15 de novembro de 2009

THE SPECIALS_DOIS_TONS_E_UM_SOM


The Specials começaram em 1977, na cidade inglesa de Coventry. Combinando elementos do mod inglês e do ska jamaicano, revolucionaram o pop ao criarem um novo estilo, conhecido por 2 tone, tocado por jovens de origem humilde, a maioria de jamaicanos e britânicos de “segunda”.

Ficaram famosos mais por seus singles do que por álbuns propriamente, como "Ghost Town", "Too Much Too Young", “Rudy, A Message To You” e sua estréia com "Gangsters".

Logo depois de ser formado em 1977 por Jerry Dammers, Lynval Golding e Gentleman, a banda começou a tocar em pequenos shows sob o nome de The Coventry Automatics e depois como The Special AKA. Joe Strummer, lider do The Clash, após ir a um de seus shows, convidou-os para abrir para sua banda durante a turnê No Parole UK Tour, o que lhes rendeu um nível de exposição nacional importante, passando a serem agenciados pelos mesmos empresários do Clash.

Em 1979, Dammers decidiu fundar seu próprio selo: a 2-Tone Records; pela qual lançaram o compacto "Gangsters", uma versão para “Al Capone” de Prince Buster, entrando assim para a parada de sucessos. O grupo então adotou o estilo mod em seu visual, bem como outros elementos da moda sessentista britânica.

Seu LP de estréia, Specials, foi produzido por Elvis Costello e a música "Too Much Too Young" ficou em primeiro lugar nas paradas britânicas, apesar de ter sido banida pela BBC por seus versos que falavam de aborto.

Uma presença muito importante na banda foi a do trombonista jamaicano Rico Rodriguez, que fez o clássico riff de “Rudy, A Message To You”, a mais popular regravação para a pérola de Dandy Livingstone.

Seu segundo álbum, More Specials, não teve uma vendagem tão boa quanto os anteriores. A banda tinha praticamente abandonado o ska, apesar de ter sido a principal responsável por seu ressurgimento e popularide no Reino Unido, preferindo uma aproximação mais ambígua e experimental com a música. More Specials trazia vários estilos musicais diferentes, a maioria sem uma definição classificável, mas com traços aparentes de pop e new wave. A banda também experimentou com o que poderia ser chamado de uma versão mais obscura, quase psicodélica do reggae. Devido a sua fama prévia como a banda de ska mais importante de todos os tempos, seus fãs originais ficaram desapontados com a debandada do gênero. Apesar disso, um lado-B do álbum, "Ghost Town", ficou na primeira colocação das paradas.

Mesmo assim, a 2Tone estava com sérios problemas. Staple, Golding e Hall abandonavam o barco. Dammers, por sua vez, convidou Stan Campbell e começou a trabalhar sob o nome Special A.K.A. O resultado, In The Studio, de certa forma foi encarado como um fracasso, embora "Racist Friend" e "Free Nelson Mandela" tenham se tornado sucessos. Dammers então dissolveu o grupo e passou a trabalhar com ativismo.

A banda The (English) Beat, de Birmingham, colaborou em faixas como "Free Nelson Mandela" e mais tarde juntaria-se a integrantes do The Specials para formar no começo dos anos 90 o Special Beat.

Após o final dos Specials, particularmente nos anos 80, Terry Hall continuou uma bem-sucedida carreira com sua banda de new wave Fun Boy Three, ao lado de seus velhos companheiros Neville Staple e Lynval Golding, partindo em seguida para o projeto The Colourfield.

Mais recentemente, apareceram na série de vídeo-game Dance Dance Revolution e na trilha sonora dos filmes Snatch: Porcos e Diamantes e Todo Mundo Quase Morto.

Retorno

No primeiro semestre de 2009, a formação original, menos Jerry Dammers, se reuniu para uma séries de shows em comemoração ao trigésimo aniversário de lançamento de seu primeiro elepê, inclusive na lendária Brixton Academy.


Legado

E a influência dos Specials se espalha pelo mundo e no tempo...

Exemplo é que na própria Inglaterra, a famigerada Amy Winehouse é tão devota deles que inclusive os homenageou na capa do single You're Wondering Now”, faixa “coverizada” a partir da versão dos Specials. , o que lhe rendeu participação mais que especial cantando junto com os veteranos. (e sóbria, pasmem!). Tamanho é o carisma da banda, que foram justamente homenageados pela grife britânica Fred Perry com uma linha especial de roupas esportivas que levam o seu nome.

Particularmente, no rock brasileiro, The Specials exerceram uma influência fortíssima sobre muitos dos expoentes da década de oitenta, como Ultraje A Rigor (que inclusive regravou "You're Wondering Now") Titãs ("Homem Primata"), Legião Urbana ("O Reggae") e, principalmente, os Paralamas do Sucesso, que literalmente “clonaram” seu estilo nos primeiros discos, mas isso já é assunto para um outro dia.

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VÍDEOS DOS SPECIALS

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

HUM ANO DE COLUNA DO MAX

É verdade, meus caros!
Hoje a COLUNA DO MAX completa um ano e acreditem: é uma alegria imensa poder compartilhar isso com todos!
Começou timidamente sob o nome de "Enrolando O Rock", afim de homenagear o pontapé inicial no rock brasileiro, pois tratava-se não apenas de uma coluna mas também do pontapé inicial de uma nova era em nosso jornalismo cultural, capitaneada por nossa querida editora, a jornalista Lidiane Barros, que soube como ninguém apostar nos melhores nomes para fazer do Folha 3 o maior caderno de Cultura de Mato Grosso.
A primeira "matéria" publicada foi uma modesta notinha sobre a participação do nosso Branco Ou Tinto em um importante prêmio (à época a banda acabou não levando o caneco, mas há poucas semanas atrás faturou um prêmio bem mais emblemático e significativo). Com menos de um mês em atividade, tivemos um "boom" evolutivo e a então humilde coluna tornou-se um espaço para se falar da história do rock e daqueles que deram seu sangue para transformar o mundo através da música jovem.

nosso Branco Ou Tinto


Muito se escreveu aqui sobre a vida e a obra desse menino cinquentão chamado rock'n'roll e muito também foi possível "desenterrarmos" preciosidades que, mesmo a grande mídia tendo afastado de nosso convívio ao longo de anos, a internet nos presenteou por meio de maravilhas como blogs, programas P2P e de comunidades virtuais onde muitos desses mistérios acabam sendo desvendados.
Bem sabemos que nossa amada Cuiabá, apesar de suas incontáveis virtudes e do povo mais querido do mundo, ainda nutre uma forte resistência a tudo que carregue o nome "rock". Contudo todo esforço sempre valerá a pena, já que o rock em nossa cidade tem se encorpado a cada dia, ainda mais quando modismos são suprimidos em prol da criação de algo maior que vença as barreiras do tempo e espaço, não necessariamente com a qualidade de um "produto fonográfico", mas como uma força transformadora e um meio seguro de expressão.
Digam o que quiserem, mas verdade das verdades é que o rock ainda é a melhor forma que existe para o jovem ingressar na música, seja como músico propriamente ou apenas um apreciador exigente, pois é na onda desse embalo que muitas outras iguarias sonoras acabam pegando carona: mpb, reggae, brega, samba, blues, jazz, forró, canções folclóricas, música sertaneja etc; afinal, se o jovem aprende a apreciar música através do rock, certamente aprenderá a apreciar outras tantas coisas mais, sem que para tanto precise se prender a tendências ditadas por gravadoras e propagadas por nossa paupérrima teleradiodifusão.
O que fazemos aqui ainda é um trabalho ínfimo se comparado à vastidão da internet e de toda informação que podemos adquirir. Entretanto, de nada adianta a informação infinita se não soubermos como usá-la e é justamente com esta finalidade que levamos nosso trabalho tão a sério, compatilhando com nosso leitor toda informação a que tivemos o privilégio ter o acesso.

Dengue Fever: khmer-rock made in USA;
citado pela primeira vez no Brasil
através da Coluna do Max.



Agora digam: qual veículo no Brasil, por exemplo, ousou falar sobre rock asiático com o mesmo fervor que outros grandes gastam para exaltar frivolidades do momento, sem contar com um níquel de "jabá"? Ou melhor, qual veículo compartilha prazerozamente com seus leitores maravilhas do underground como se fossem as bandas do bairro? Nenhum! Apenas a Folha do Estado! E para Mim (em primeira pessoa) é um orgulho gigantesco poder escrever para um jornal que mesmo "preso" à forma física de outros tantos, ainda assim sobressai-se na disposição nada ortodoxa de seus conteúdos cujos efeitos são percebidos em tempo integral na forma de agir e de pensar de seus leitores.

Um grande abraço a todos e até a próxima.
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Max Merege, é um orgulhoso colaborador do Caderno Folha 3 há exatos 12 meses.

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Originalmente publicado dia 25 de Outubro de 2009, no caderno Folha 3 do jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT

O Barco dos Piratas do Rock



Houve um tempo, ainda no século XX, em que o termo "pirataria" se associava facilmente à idéia de trangressão do sistema vigente, cujo único lucro era a alegria de poder derrubá-lo. Surgia o "bootleg", mais conhecido como "disco pirata", feito a partir das sobras de estúdio ou de shows não-oficiais que as gravadoras faziam questão de manter fora do alcance do público, pois comprometeria imagem do artísta. Existia também a idéia da "rádio pirata" que, longe do que se tornou hoje em dia, funcionava como um instrumento libertário e tocava tudo o que as rádios oficiais não tocavam.
O filme "Os Piratas do Rock" (The Boat That Rocked) traz à tona justamente esse assunto, já que mesmo sendo uma história fictícia, apresenta-nos todo um contexto do que existia naqueles tempos, não apenas na Europa, mas em todo mundo. O rock em um de seus melhores momentos, o advento da pílula contraceptiva e o amor livre, o prenúncio de mudanças profundas no mundo...
Ambientado em 1966, sua história gira em torno duma rádio pirata instalada em um navio pesqueiro ancorado no Mar do Norte, Grã Bretanha. Enquanto a principal rádio inglesa, a BBC, dedicava apenas 45 minutos de sua programação diária para tocar rock e música pop, a Rádio Rock surgia como a melhor das alternativas, com 24 horas dedicadas à veiculação do som rebelde da juventude, sob o comando de 8 djs remanescentes da geração beat, numa clara homenagem às rádios que lubrificaram o rock na Europa: Caroline, Essex, CNBC e Sutch (Reino Unido), Veronika e Noordzee (Países Baixos).
Além de um excepcional elenco recheado de astros shakespeareanos - Bill Nighy, Kenneth Branagh, Philip Seymour Hoffman, Nick Frost, Rhys Ifans etc; o filme também conta com uma ótima fotografia e um enredo muito bem traçado. Entretanto, a obra traz como sua "cerejinha de bolo" uma trilha sonora escolhida a dedo, com os maiores nomes do rock da época: Rolling Stones, Yardbirds, The Who, Beach Boys, Easybeats, Ronettes, the Four Tops, Jimi Hendrix, Arthur Brown etc etc etc.
Curiosamente, mesmo tendo sido lançado em maio na Iglaterra e d'o lançamento no Brasil oscilar entre outubro de 2009 e fevereiro de 2010 (mistério corporativo que só a Universal saberia explicar), as cópias que se encontram à nossa disposição são piratas. Isso mesmo! Como o filme já saiu em dvd lá fora e os arquivos da internet já tem uma fonte segura que não as salas de cinema, este já se tornou uma figurinha fácil de se achar por aí.
Enfim, "Os Piratas do Rock" é um filme que vale ser assistido de qualquer jeito, ao menos até o lançamento de um dvd oficial, recheado de extras e tudo mais que venha para o deleite dos fãs.

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Originalmente publicado dia 18 de Outubro de 2009, no caderno Folha 3 do jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT

FUZZTONES


Nada mais comum que torcer o nariz quando se fala em banda cover, afinal (quase) todas se acomodam à vidinha de tocar as mesmices do rádio ou roquinhos pra lá de manjados (e que em nosso cuiabazão, exemplos não faltam). Outra coisa também são os plagiadores do lugar comum, cujas referências figuram no top da moda, pois para tal basta ver a quantidade de bandinhas que vendem a imagem de "autoral", mas que não passam de cópia discarada e chinelenta de pretensos "cults" que rodam à exaustão em inúmeros veículos de projeção comercial.
The Fuzztones não é uma banda de Cuiabá, mas bem que poderia ser, pois funciona como uma perfeita lição de que para se apresentar boa música, não precisa apenas compor bem, mas ter o feeling para saber o que é bom e o que que não é para se tocar.
A banda surgiu no finzinho dos anos 70, quando o cantor e guitarrista Rudi Protrudi (que inclusive fora baixista dos Dead Boys) desfez sua banda de punk rock, o Tina Peel, para iniciar uma empreitada ousada: desenterrar pérolas obscuras do rock garageiro e apresentá-las a um público ávido por bons sons, numa época em que ninguém sonhava em baixar músicas.
Algo perfeitamente plausível, uma vez que mesmo o rock tendo sido revigorado pelo punk nos anos 70, os 80 começavam de modo bizarro já que com o surgimento da alegre new wave, muitos zumbis da cena progressiva reapareciam na carona (Yes, Alan Parsons etc) e o synthpop, por sua vez, saia do armário. Logo, nada mais justo que uma nova turma voltar a chacoalhar as estruturas viciadas. Aparece o garage revival que, junto com os Cramps e o britânico Billy Childish, teve (e ainda tem) em Rudi Protrudi e seus Fuzztones, o seu maior expoente!
O nome é uma homenagem ao Fuzztone, primeiro pedal de distorção para guitarra fabricado em escala industrial nos anos 60. Ao longo de três décadas, a banda teve inúmeras formações mas sempre se mantendo fiel ao seu ideário sonoro. Sua discografia conta com aproximadamente vinte elepês e incontáveis singles lançados a toda hora pela europa, sua base de fãs.
Aliás, como na época de seu nascmento o mar não estava para peixe nos EUA, a banda foi tentar a sorte pela Europa com uma tour de três meses, abrindo shows do Damned, e o saldo foi positivo, pois assim como o Iron Maiden conquistou a maior parte de seus fãs no Brasil, com os fuzztones aconteceu exatamente a mesma coisa, só que no continete europeu.
Apesar de ser completamente ignorada no mainstream, Fuzztones é figurinha vip no mundo roqueiro, pois além de terem feito um disco com Shal Tammy (que produziu The Who, Kinks e Easybeats entre outros), gravaram um epê ao vivo com a lenda do voodoo blues Screamin' Jay Hawkins, mandaram ver com a voz Ian Astburry (The Cult, The Doors) no clássico "Down On The Street" dos Stooges e também tocaram com Marky Ramone.
E você, ainda acha que conhece rock? Então vá ouvir Fuzztones e repensar seus conceitos!

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CEDÊS

RELESPÚBLICA - Efeito moral


Quinto cedê do powerpop-trio paranaense que, em vinte anos de história, mostra-se mais firme, maduro e afinado do que nunca. Além da conhecidíssima "Homem Bomba", faixa de trabalho videoclipada por Fábio Biondo, o disco todo vale muitas e boas ouvidas. Tem participações fortes que vão desde super músicos locais a Samuel Rosa (Skank), em "Tudo o Que Eu Preciso". Enfim, um grande disco de uma grande banda de rapazes capazes de tudo. http://www.relespublica.com/




MOTORAMA - Crisis

Sam (Guitarra e Voz), Nicolas (rabecão e Voz) e Lulo (bateria e Voz) botam pra quebrar com um som pulsante entre o psychobilly e o neorockabilly, nitimente marcado por composições forjadas à perfeição. "Crisis" é quase todo cantado em espanhol, a não ser pela excelente regravação de "Do Anything You Wanna Do" (Eddie & the Hotrods) cantada pelo alemão Campino, do Die toten Hosen. Quem foi que disse que a Argentina só serve para exportar chouriço, frente fria e gripe suína?! http://myspace.com/motoramarock


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Originalmente publicado dia 20 de Setembro de 2009, no caderno Folha 3 do jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT


VÍDEOS DOS FUZZTONES

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

EASYBEATS


A Australia sempre foi um campo muito fértil em termos de rock'n'roll e de boa música em geral. Poderiamos gastar linhas e mais linhas contando o legado sonoro dessa distante terra, já que muitos nomes são tão corriqueiros em nosso dia a dia: AC/DC, Bee Gees, Olivia Newton-John, Kylee Minogue, INXS, Hooddoo Gurus, John Paul Young, Man At Work, Midnight Oil, Nick Cave, The Saints, Jet, Silverchair, The Living End etc etc etc; logo, nada mais adequado que comentarmos aqui sobre um dos nomes mais importantes dessa cena e, por que não, de toda a história do rock também.


UMA BANDA DO MUNDO

The Easybeats nasceu em 1964, quando uma turma de meninos se juntou para tocar clássicos do rock e do rhythm'n'blues que vinham do outro lado do mundo (EUA). Até aí, nada de anormal... a não ser pelo fato d'essa turma já ser em si o reflexo de uma pungente produção cultural australiana que florescia a partir dos imigrantes estrangeiros, uma vez que, de todos os integrantes d banda, mesmo sendo cidadãos australianos, nenhum deles era de fato nascido em solo Aussie. A saber: Stevie Wright (vocais) é ingles, George Young (guitarra) e Snowy (bateria) são escocêses, Harry Vanda (guitarra) e Dick Diamonde (baixo) são holandeses. Estranho? Imagina só! O que acontecia por lá não era muito diferente do que sempre aconteceu em um determinado cantinho do nosso centroeste, pois tomemos como o exemplo o rock de Brasilia, já que a maior parte das bandas que fizeram a cena acontecer eram, em sua maioria, formadas por garotos vindos do Rio de Janeiro, de São Paulo, Minas Gerais e muitos outros lugares do Brasil.


FRIDAY ON MY MIND

Como cada canto do mundo tinha sua banda Beatles, naqueles longínquos meados da década de 60, com a Australia não podia ser diferente e justamente aos Easybeats cabia essa missão.
Em 1965 já eram a banda mais popular de toda a ilha e no ano seguinte, de uma viagem à inglaterra, gravaram o disco "Friday On My Mind" nos estúdios Abbey Road com Shel Tammy, o mesmo sujeito que produziu os maiores sucessos do The Who e dos Kinks. Ainda longe de casa, aproveitaram para excurcionar pela Europa e América do Norte com os Rolling Stones.
Dentre clássicos como "Sorry", "She's So Fine", "Good Times", "Heaven And Hell" e outros tantos mais, "Friday On My Mind" foi certamente o maior sucesso dessa super banda. Inúmeros outros grandes artistas a regravaram e exemplos não faltam: The Tages, David Bowie, Peter Framptom, Gary Moore, Earth Quake, Vanessa Amorosi & Lee Kernaghan, Os Sunshines (na jovem guarda, como Por Você Tudo Faria) etc etc etc.


ENTRE PICOS E VALES

Contudo, em 1968, a banda enfrenta sérias crises, já que o vocalista Stevie Wright torna-se um junkie enveterado e a dupla de compositores Young & Vanda demonstra claros sinais de esgotamento, pois além da banda, eles também eram produtores bastante requisitados.
Mas foi tudo uma questão de tempo até as coisas tomarem outros rumos... a banda já não tinha mais condições de sobreviver, Stevie Wright tentava uma carreira solo, surigam novos artistas pela austrália, e nessa onda, os irmãos mais novos de George - Angus e Malcolm - começavam com o AC/DC. Aliás, foi George Young e Harry Vanda que puseram para trabalhar e mandarem ver com uma banda que recém surgia (até hoje a dupla Young & Vanda produz o AC/DC!) e pasmem, compuseram até o clássico das discotecas "Love Is In The Air".

Por enquanto é isso, caros amigos. Semana que vem tem mais!

Discografia básica
"Easy" (1965), "It's 2 Easy" (1966); "Volume 3" (1966); "Friday On My Mind" (1967); "Vigil" (1968); "Friends" (1969); "The Shame Just Drained" (outubro de 1977)

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 13 de Setembro de 2009, no caderno Folha 3

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PLUNCT! PLACT! ZUM!




Não vai a lugar nenhum...

Como 12 de Outubro é Dia da Padroeira do Brasil e sobretudo Dia das Crianças, nada mais justo que escrever sobre algo que marcou não apenas a infância deste que vos escreve, mas toda uma geração, já que naqueles tempos, pelo fato d'a tevê não dispor da infinidade de opções como hoje, a criação de programas especiais respeitava à risca todo um "código" de composição e realização que seguramente lhes conferia a pecha de "obras de arte", mesmo que menores, mas ainda sim mais influentes que o cinema propriamente (com excessão dos filmes dos Trapalhões que eram sempre diversão e tiradas memoráveis garantidas). Esta época, aliás, foi um período excelente em termos de especiais infantis, já que tinhamos "A Arca de Noé" (1 e 2), com releituras da obra de Vinícius de Moraes para crianças, e "Pirlimpimpim", uma super homenagem da mpb ao legado de Monteiro Lobato no imaginário infanto-juvenil.
Nos idos de 1983 e 1984 ia ao ar pela Rede Globo um especial dividido em duas partes chamado PLUNCT! PLACT! ZUM!
Este contou com uma equipe de feras da televisão, encabeçada por Augusto Cesar Vanucci, e teve duas partes distintas: a primeira, que tratava das descobertas da infância e advertia as crianças para o universo de obstáculos que se faria cada vez mais presente no decorrer de suas vidas, e uma segunda parte, sobre a vida de um grupo de filhos de pais separados, que descobrem ter muito mais em comum do que simplesmente morarem em um mesmo condomínio.
Sua trilha sonora, além de ter sido feita sob medida para o especial, sob a direção do maestro Guto Graça Mello, teve a participação de um time de artísta do mais alto gabarito, como Raul Seixas, Erasmo Carlos, Leo Jaime, Eduardo Duzek, Zé Rodrix, Gang 90 & Absurdettes, Sérgio Sá, Blitz, Barão Vermelho, Fafá de Belém, Maria Betânia, Jô Soares, Marília Pera, Marco Nanini, Vanusa, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, José Vasconcelos e tantos outros mais. Pecando apenas pelo excesso de sintetizadores, o que mesmo após vinte e tantos anos, não tira seu brilho.
É certo que apesar de hoje ser completamente desonhecido daqueles que nasceram depois de 1985, PLUNCT! PLACT! ZUM! foi um marco na infância daqueles que testemunharam o fim de uma era ditatorial em que a censura dava seus últimos suspiros na apresentação do "Caso Verdade" e em que a liberdade de expressão aparecia de modo responsável, mesmo porque ainda não existia a absurda barreira estéticamente hipócrita do politicamente correto que assola nossos dias.
Certeza das certezas é que se muitos de nós tivessem encarado com maior atenção as mensagens contidas nas letras, muitos tropeços teríamos deixados de dar.
E para hoje, segue um manifesto de advertência à burocracia universal, profetizado por Raul Seixas, em 1983:

Carimbador Maluco

5... 4... 3... 2...
- Parem! Esperem aí.
Onde é que vocês pensam que vão?

Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar....

Pra Lua: a taxa é alta,
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim, sim, sim, sim.

O seu Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!

( ... )

Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês
Aventura como essa eu nunca experimentei!
O que eu queria mesmo era ir com vocês
Mas já que eu não posso:
Boa viagem, até outra vez.

Agora...
O Plunct Plact Zum
Pode partir sem problema algum
Plunct Plact Zum
Pode partir sem problema algum

Boa viagem, meninos. Boa viagem.


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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 11 de Outubro de 2009, no caderno Folha 3

VÍDEOS DO PLUNCT, PLACT, ZUM

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pelo AMOR de ARTHUR LEE


Muito se fala em Woodstock, principalmente agora quando o evento completa 40 anos. Flower Power, amor livre, viva a sociedade alternativa etc e coisa e tal...
Entretanto, uma figura que não poderia ficar de fora de todo esse balaio é o grandioso Arthur Lee. Conhece?!
Pois bem, ele foi o lider de uma banda muito importante na segunda metade dos anos 60 chamada LOVE, mas antes disso ele foi o primeiro cara a apostar de fato em um jovem guitarrista chamado Jimi Hendrix, isso porque antes de tocar com Lee, Hendrix ganhava a vida apenas tocando como um músico de apoio de Little Richard e de vários figurões de soul.
Mas voltando a Arthur Lee, este gravou muita coisa à frente de sua banda LOVE, mas o destaque maior vai por conta dos três primeiros discos: "Love" (1965), "Da Capo" (1966) e "Forever Changes" (1967); este último, o mais importante de todos!
Tanto "Love" quanto "Da Capo" contêm clássicões como "7 and 7 Is", "Orange Skies", "Hey Joe" entre outros, mas foi em "Forever Changes" que o LOVE atingiu seu ápice em termos de perfeição sonora. Apenas para se situar, o que houve na cena roqueria entre EUA e Inglaterra, de 1966 a 1968, foi uma verdadeira rivalidade sadia, pois sempre que um lado criava um disco perfeito, o outro lado aparecia com uma resposta à altura. A saber: "Rubber Soul" dos Beatles (1965) motivou a gravação de "Pet sounds" dos Beach Boys (1966) que por sua vez serviu de inspiaração para "Sgt. Peppers..." dos Beatles, o que também foi inspiração para os clássicos "Odysey and Oracles" dos Zombies e o supracitado "Forever Changes" do LOVE.


Uma curiosidade sobre "Forever Changes" é que apesar de se tratar de um disco do LOVE, este foi inteiramente gravado por Arthur Lee com a base instrumental tocada pelo Wrecking Crew (o mesmo pessoal que gravou Pet Sounds com Brain Wilson e os Beach Boys e que também gravava com Phil Spector, Henry Mancini e Lalo Schifrin). Fez um sucesso estrondoso na época em que saiu e até hoje é uma obra cultuada, mas como após o todo topo vem sempre uma ladeira, a banda por sua vez despencou feio...
Desavenças internas provocaram o fim da primeira grande encarnação do LOVE. Arthur Lee, dono do nome, reformulou o grupo como pode, gravou alguns discos razoáveis, mas sem o mesmo pique e a vitalidade dos três primeiros.
Já nos anos 80, após tantas idas e vindas, Lee resolveu trocar a vida louca da California por suas raízes no Tenensee, quando volta à sua terra natal para cuidar de seu pai que se encontrava enfermo por conta do câncer. Nesse meio tempo, muitas coletâneas foram lançadas, muitos artístas regravavam suas músicas e o nome LOVE ainda continuava na boca do povo.
Em 1996, Lee é preso sob a acusação de porte ilegal de arma de fogo. Na cadeia, recusava visitas de quem quer que aparecesse e para completar essa maré de azar, Bryan MacLean e Ken Forssi, seus dois companheiros da formação clássica do LOVE, morreram na mesma época em que ele andou enjaulado.
Um sopro de alívio foi a inclusão de duas canções do LOVE - "My Little Red Book" e "Always See Your Face" - no filme "Alta Fidelidade" de John Cusak, uma vez que "7 and 7 Is" já havia figurado em "Caçadores de Emoção" e no vídeo de skate da Plan B, além de ter sido regravada pelos Ramones e um montão de gente.
Em 2001, deixa a cadeia e decide que é hora de sacudir a poeira e voltar com força total. Surge uma nova encarnação do LOVE que resulta em um dvd lançado em 2003, comemorativo aos 35 anos de "Forever Changes".
O sucesso do material rendeu, além de ótimas críticas a Lee, uma série de tournées pela América do Norte, Europa e Austrália, mas tais tours também ocasionaram um desgaste monstruoso ao velho ídolo. Em abril 2006 fora diagnosticado com leucemia, mas todos os tratamentos foram em vão já que no dia 23 de junho, Lee passou desta para uma outra dimensão, aos 60 anos de idade.
Em pouco tempo, pela internet a fora começaram a pipocar sites e mais sites de fãs ansiosos por promover seu legado. Hoje, graças em grande parte à web, a obra de Arthur Lee continua mais viva do que nunca.

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 04 de Outubro de 2009, no caderno Folha 3


VÍDEOS DE ARTHUR LEE & LOVE

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Valêncio Xavier & a grippe


Enfrentamos agora uma pandemia calcada no medo, que assola o mundo inteiro e que tem suas dimensões incrivelmente distorcidas por conta de um sistema que de um jeito ou de outro precisa funcionar, mesmo que em cima da desgraça alheia.

Em 1980, um escritor paulista radicado em Curitiba radicalizou quando, simultaneamente, soube recontar uma situação ocorrida havia mais de seis décadas e também ao prever com precisão milimétrica algo que haveria de acontecer quase 30 anos mais tarde à publicação de seu livro.

"O mez da grippe" é um compêndio de fatos e imagens relacionados aos meses de outubro e novembro de de 1918, época da Primeira Guerra Mundial e da disceminação da gripe espanhola.

O livro em si consiste em um mosaico de colagens - artigos, receitas de bolo, obtuários, cartões postais, notas, anúncios, comunicados oficiais etc - feitas a partir de jornais curitibanos, da época, mais uma gama depoimentos e citações e até poemas e poemetos.

Tal qual a realidade virtual, a obra é capaz de transportar o leitor para 1918, já que mesmo o livro sendo concebido para que sua leitura trancorra tal qual a de um jornal, o leitor pode escolher a ordem em que quer desfrutar da obra, sem que isso interfira no andamento da leitura ou apague a empolgação de se explorar um período que é, ao mesmo tempo, tão longe e tão perto.

Fofocar sobre a sociedade, contar fatos sobre a Guerra na Europa, esculhambar alemães e relatar as mortes, consistem apenas em uma das constantes da época, e que a imprensa, no cumprimento de seu nobre dever, não deixava de então relatar, transparecendo no edcorrer de todo o livro.

Entretanto, o mais contundente de tudo é que o livro em si, apesar de já ter uns trinta anos e de contar coisas de noventa anos atrás, consegue ser absurdamente atual, pois tudo o que ali lê-se sobre o estado de alerta de uma população, faz-se absolutamente fidedigno ao que vivemos hoje. Pouquíssimos livros conseguem se manter tão atuais como este!

Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo, em 1933, mas radicou-se de fato em Curitiba. Sua maior característica é destrinchar os signos e fazer o que bem entender com eles, principalmente ao casar imagem e texto. Escreveu para inúmeras publicações e tornou-se também figurinha pra lá de carimbada nos cadernos de cultura dos maiores jornais do Brasil. Cineasta de renome, foi um dos pais da Cinemateca de Curitiba. Constantemente citado por Décio Pignatari, VX é tema recorrente em teses acadêmicas (principalmente de semiótica). Foi colaborador da Folha de São Paulo, da Gazeta do Povo (PR), da Revista da USP e muitos outros tantos veículos. Muito do que saiu em livros, é fruto de tais colaborações. Morreu em dezembro de 2008, na companhia de amigos e familiares.

VX entre os cineatas Pedro Merege e Beto Carminatti


Livros indispensáveis...


O mez da grippe & Outros Livros (Companhia das Letras, 1998)
Reunião da supracitada obra com mais quatro livros em um único volume: Maciste no inferno, O minotauro, O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Nashi-Oishi e 13 mistérios + O mistério da porta aberta. A partir deste livro nasceram os filmes "O mistério da japonesa" (2005) e "Mysterio" (2008), pelas mãos dos cineastas Pedro Merege e Beto Carminatti, e a peça teatral "o mez da grippe", pela Pausa Companhia.



Minha mãe morrendo e o menino mentido (Companhia das Letras, 2001)
Reunião de duas obras em um único tomo, mantendo VX em sua posição de "arauto da surpresa", como diria o escritor José Castello.




Remembranças Da Menina De Rua Morta Nua (Companhia das Letras, 2005)
E eis que o Frankenstein de Curitiba ataca novamente! Não obstante, temas como a morte e o humor bizarro fazem-se presentes também nesta coletânea, a começar por uma curiosa "homenagem" ao finado telejornal "Aqui-Agora".



Crimes à moda antiga (Publifolha, 2003)
Contos que relatam crimes bizarros clássicos que ocorreram durante as três primeiras décadas do século XX, originalmente publicados na revista curitibana "Atenção", no final dos anos setenta.

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 06 de Setembro de 2009, no caderno Folha 3

BLONDIE


Há quem julgue a banda de punk, new wave ou até mesmo de powerpop. Mas verdade das verdades é que Blondie é uma das poucas bandas na história do rock que se pode chamar de "uma banda acima do bem e do mal", facilmente posta numa cabeceira ao lado de Ramones, Motorhead e Cramps, pois só os seus nomes sobrepoem-se tranquilamente a quaisquer rótulos existentes ou que algum crítico engraçadinho venha a inventar.
Aliás, você já parou para contar quantas louras surgiram no pop ocidental, da segunda metade dos anos 70 para cá? Muitas, não é mesmo?! Cindy Lauper, Madonna, Paula Toller, Gwen Stefany, Shirley Manson, Fergie e, pasmem, até mesmo a nossa xuxa tiveram a influência fortíssima de Debbie Harry!
Tudo começou mesmo na primeira metade dos anos 70, quando a senhorita Deborah Harry, uma lindíssima ex-garçonete, ex-secretária da BBC-NY e ex-coelhinha da playboy, juntou-se a uma trupe de artistas multimídia chamada "The Stilettoes", afim de fazer performances teatrais associadas a rock vanguardista transgressor (ufa!). Enfim, a proposta da trupe era até bem interessante, mas de certa forma inviável. Deu que em pouco tempo o grupo se desfêz e cada foi cuidar de sua vida. Dos ex-integrantes, três decidiram que estava mais do que na hora de formar uma banda. A princípio chamaram a junção de "Angel & The Snake", mas logo em seguida, já com Debbie à frente nos vocais, "Blondie and the Banzi Babes", que acabou ficando só como Blondie mesmo.
Capitaneada por Debbie Harry e por seu então namorado, o guitarrista Chris Stein, a banda contava ainda com Clem Burke (bateria), Jimmy Destri (teclados) e Gary Valentine (baixo) em sua primeira formação, com a qual gravou dois discos: Blondie (1976) e Plastic Letters (1977).
Mas antes de terminarem a gravação de "Plastic Letters", Valantine resolve sair da banda. Abre-se então uma vaga para a entrada de Frank Infante e Nigel Harrison, que se revezariam entre baixo e guitarra.
A banda toca por tudo quanto é lugar no EUA, principalmente no "Max's Kansas City" e no "CBGB's", dividindo por incontáveis vezes o palco com os Ramones, os Talking Heads e os New York Dolls também.
Enquanto Debbie Harry se fortalecia cada vez mais como um símbolo sexual, a banda emplacava algum hit entre os 10 mais, fosse nos EUA ou na Europa. Gravaram mais quatro discos entre 1978 e 1982: "Parallel Lines" (1978), "Eat To Beat" (1979), "Autoamerican" (1980) e "Hunger" (1982).
Mesmo tendo feito excelentes canções, talvez a maior lembrança do Blondie ainda sejam aquelas que fizeram história na disco music como "Heart Of Glass" (que no Brasil foi até trilha de novela Global: "Pai Herói" de 1979) e "Atomic" (uma pá-de-cal nessa brincadeira). "Call Me" também foi outro grande momento da banda, já que além de ter sido um sucesso avassalador na época em que saiu (comecinho dos anos 80), também marcou uma grande parceria com o produtor italiano Giorgio Moroder e foi trilha sonora do filme "Gigolô Americano", que lançou richard Gere.
Não obstante, além do sucesso que o Blondie alcançou em seus primeiros sete anos de atividade, a banda acabou se dissolvendo em 1983, quando Chris Stein foi diagnosticado com uma grave (e também misteriosa) enfermidade que o afastou do showbiz. Quanto aos demais, Debbie Harry fez carreira-solo e se lançou como atriz também, e os outros foram fazer suas vidas como músicos, produtores e executivos de gravadoras, também.
Em 1997, a banda ensaiava uma volta às atividades, mas os planos acabaram sendo em bargados por uma ação na justiça movida por Frank Infante e Nigel Harrison. Mas a lei pesou a favor do Blondie e finalmente a banda volltou em 1999 com o disco "No Exit", que além de ter a clássica "Maria" e de ter conquistado ótimas vendagens, também ajudou a criar um novo recorde: Debbie Harry foi a primeira mulher com mais de cinquênta anos a entrar de cara no topo das paradas.
Em 2004, foi lançado o disco "The Curse of Blondie", que além de seguir a linha sonora de seu antecessor, também em seu encalço uma série de apresentações televisivas e o lançamento de muito material ao vivo produzido no período.
Das atividades mais recentes, além da estrada, Debbie Harry também andou gravando com Fatboyslim o single "New York New York" e também tem participado de uma cruzada artística cuja a finalidade é arrecadar fundos para o combate à AIDS.

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 30 de Agosto de 2009, no caderno Folha 3

sábado, 19 de setembro de 2009

DAMNED, DAMNED, DAMNED




The Damned, eis um nome memorável em termos de pauleira bem feita, ainda mais se ouvido com toda atenção nos dias de hoje, já que hoje muito se exalta cabedal técnico, poses e tudo o mais que é supérfluo, em detrimento ao verdadeiro talento.
A banda marcou seu nome na história justamente por ter conseguido ser original, mesmo com um repertório entupido de covers (ou releituras, se é o caso) de clássicos do rock anteriores à sua existência.
Começaram mesmo em junho de '76 (coincidência à parte, mes e ano do nascimento deste que vos escreve!), com Brian James (guitarra), Captain Sensible (baixo), Rat Scabies (bateria) e Dave Vanian (vocais). Fizeram sua primeira apresentação no mes seguinte, abrindo um gig para os Sex Pistols no 100 Club, de Londres. Fora isso, é deles a primeira gravação do punk britânico: o single "New Rose".
Seus dois primeiros discos, "Damned, Damned, Damned" (fevereiro de 1977) e "Music for Pleasure" (novembro de 1977), ainda contavam com a assinatura do guitarrista Brian James em todas suas faixas. Tudo ia muito bem, até o dia em que as coisas escureceram na vida dos meninos... James saiu da banda e ainda segurou consigo o nome Damned, durante todo o ano de 1978. Mas como show que é show não pode parar, durante aquele ano Captain Sensible assumiu a guitarra, e para o baixo, uma participação mais que especial: Lemmy Kilminster (exatamente! O mesmo feioso do Motorhead!); só que desta vez sob o nome de The Doomed.
Em 79, tão logo conseguiram de volta o direito de usar o nome "Damned", lançaram o disco "Machine Gun Etiquette", que trazia consigo clássicos como "Smash It Up", "I Just Can Be Happy Today" e "Love Song".
A década de 80 começou com a banda flertando fortemente com a new wave. O disco "The Black Album" (1980) e o epê "Friday 13th" (1981) são obras emblemáticas do período, já a partir daí inaugura-se um novo ciclo, uma fase que muitos chamam de "gótica" e outros, "death rock" mesmo.
Dave Vanian, que antes se caracterizava de Drácula, no melhor estilo Bela Lugosi, passava a adotar um visual mais próximo ao dos vampiros de Anne Rice. Desse tempo, podemos destacar a trilogia dark da banda: "Strawberries" (1982), "Phantasmagoria" (1985) e "Anything" (1986).
Entre '86 e '95 a banda não lançou mais nada de material inédito, apenas meiaduzia de bons discos ao vivo e coletâneas a rodo. Sua volta aos estúdios deu-se com o disco "Not of This Earth" (1995), sucedido seis anos mais tarde por "Grave Disorder".
Enfim, mesmo sem lançar material inédito com tanta frequência, o Damned se mantém firme e forte como uma das bandas mais cultuadas entre o punk e pós-punk, que muitos tentam imitar mas ninguém consegue causar tanto impacto. Já foram regravados por muita gente importante, a saber: Guns'N'Roses, Die Toten Hosen, Hellacopters, Offspring etc. Podem até tentar copiar as linhas de bateria de Rat Scabies ou as guitarras de Captain Sensible (e o visual também! Vide o "novo" Supla!), mas não há quem cante como Dave Vanian, um híbrido "goth-punk" de Frank Sinatra e Jim Morrison. É ouvir para crer!
Por hoje é isso. Um gande abraço a todos e até a próxima!


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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 23 de Agosto de 2009, no caderno Folha 3