quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Valêncio Xavier & a grippe


Enfrentamos agora uma pandemia calcada no medo, que assola o mundo inteiro e que tem suas dimensões incrivelmente distorcidas por conta de um sistema que de um jeito ou de outro precisa funcionar, mesmo que em cima da desgraça alheia.

Em 1980, um escritor paulista radicado em Curitiba radicalizou quando, simultaneamente, soube recontar uma situação ocorrida havia mais de seis décadas e também ao prever com precisão milimétrica algo que haveria de acontecer quase 30 anos mais tarde à publicação de seu livro.

"O mez da grippe" é um compêndio de fatos e imagens relacionados aos meses de outubro e novembro de de 1918, época da Primeira Guerra Mundial e da disceminação da gripe espanhola.

O livro em si consiste em um mosaico de colagens - artigos, receitas de bolo, obtuários, cartões postais, notas, anúncios, comunicados oficiais etc - feitas a partir de jornais curitibanos, da época, mais uma gama depoimentos e citações e até poemas e poemetos.

Tal qual a realidade virtual, a obra é capaz de transportar o leitor para 1918, já que mesmo o livro sendo concebido para que sua leitura trancorra tal qual a de um jornal, o leitor pode escolher a ordem em que quer desfrutar da obra, sem que isso interfira no andamento da leitura ou apague a empolgação de se explorar um período que é, ao mesmo tempo, tão longe e tão perto.

Fofocar sobre a sociedade, contar fatos sobre a Guerra na Europa, esculhambar alemães e relatar as mortes, consistem apenas em uma das constantes da época, e que a imprensa, no cumprimento de seu nobre dever, não deixava de então relatar, transparecendo no edcorrer de todo o livro.

Entretanto, o mais contundente de tudo é que o livro em si, apesar de já ter uns trinta anos e de contar coisas de noventa anos atrás, consegue ser absurdamente atual, pois tudo o que ali lê-se sobre o estado de alerta de uma população, faz-se absolutamente fidedigno ao que vivemos hoje. Pouquíssimos livros conseguem se manter tão atuais como este!

Valêncio Xavier Niculitcheff nasceu em São Paulo, em 1933, mas radicou-se de fato em Curitiba. Sua maior característica é destrinchar os signos e fazer o que bem entender com eles, principalmente ao casar imagem e texto. Escreveu para inúmeras publicações e tornou-se também figurinha pra lá de carimbada nos cadernos de cultura dos maiores jornais do Brasil. Cineasta de renome, foi um dos pais da Cinemateca de Curitiba. Constantemente citado por Décio Pignatari, VX é tema recorrente em teses acadêmicas (principalmente de semiótica). Foi colaborador da Folha de São Paulo, da Gazeta do Povo (PR), da Revista da USP e muitos outros tantos veículos. Muito do que saiu em livros, é fruto de tais colaborações. Morreu em dezembro de 2008, na companhia de amigos e familiares.

VX entre os cineatas Pedro Merege e Beto Carminatti


Livros indispensáveis...


O mez da grippe & Outros Livros (Companhia das Letras, 1998)
Reunião da supracitada obra com mais quatro livros em um único volume: Maciste no inferno, O minotauro, O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Nashi-Oishi e 13 mistérios + O mistério da porta aberta. A partir deste livro nasceram os filmes "O mistério da japonesa" (2005) e "Mysterio" (2008), pelas mãos dos cineastas Pedro Merege e Beto Carminatti, e a peça teatral "o mez da grippe", pela Pausa Companhia.



Minha mãe morrendo e o menino mentido (Companhia das Letras, 2001)
Reunião de duas obras em um único tomo, mantendo VX em sua posição de "arauto da surpresa", como diria o escritor José Castello.




Remembranças Da Menina De Rua Morta Nua (Companhia das Letras, 2005)
E eis que o Frankenstein de Curitiba ataca novamente! Não obstante, temas como a morte e o humor bizarro fazem-se presentes também nesta coletânea, a começar por uma curiosa "homenagem" ao finado telejornal "Aqui-Agora".



Crimes à moda antiga (Publifolha, 2003)
Contos que relatam crimes bizarros clássicos que ocorreram durante as três primeiras décadas do século XX, originalmente publicados na revista curitibana "Atenção", no final dos anos setenta.

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 06 de Setembro de 2009, no caderno Folha 3

BLONDIE


Há quem julgue a banda de punk, new wave ou até mesmo de powerpop. Mas verdade das verdades é que Blondie é uma das poucas bandas na história do rock que se pode chamar de "uma banda acima do bem e do mal", facilmente posta numa cabeceira ao lado de Ramones, Motorhead e Cramps, pois só os seus nomes sobrepoem-se tranquilamente a quaisquer rótulos existentes ou que algum crítico engraçadinho venha a inventar.
Aliás, você já parou para contar quantas louras surgiram no pop ocidental, da segunda metade dos anos 70 para cá? Muitas, não é mesmo?! Cindy Lauper, Madonna, Paula Toller, Gwen Stefany, Shirley Manson, Fergie e, pasmem, até mesmo a nossa xuxa tiveram a influência fortíssima de Debbie Harry!
Tudo começou mesmo na primeira metade dos anos 70, quando a senhorita Deborah Harry, uma lindíssima ex-garçonete, ex-secretária da BBC-NY e ex-coelhinha da playboy, juntou-se a uma trupe de artistas multimídia chamada "The Stilettoes", afim de fazer performances teatrais associadas a rock vanguardista transgressor (ufa!). Enfim, a proposta da trupe era até bem interessante, mas de certa forma inviável. Deu que em pouco tempo o grupo se desfêz e cada foi cuidar de sua vida. Dos ex-integrantes, três decidiram que estava mais do que na hora de formar uma banda. A princípio chamaram a junção de "Angel & The Snake", mas logo em seguida, já com Debbie à frente nos vocais, "Blondie and the Banzi Babes", que acabou ficando só como Blondie mesmo.
Capitaneada por Debbie Harry e por seu então namorado, o guitarrista Chris Stein, a banda contava ainda com Clem Burke (bateria), Jimmy Destri (teclados) e Gary Valentine (baixo) em sua primeira formação, com a qual gravou dois discos: Blondie (1976) e Plastic Letters (1977).
Mas antes de terminarem a gravação de "Plastic Letters", Valantine resolve sair da banda. Abre-se então uma vaga para a entrada de Frank Infante e Nigel Harrison, que se revezariam entre baixo e guitarra.
A banda toca por tudo quanto é lugar no EUA, principalmente no "Max's Kansas City" e no "CBGB's", dividindo por incontáveis vezes o palco com os Ramones, os Talking Heads e os New York Dolls também.
Enquanto Debbie Harry se fortalecia cada vez mais como um símbolo sexual, a banda emplacava algum hit entre os 10 mais, fosse nos EUA ou na Europa. Gravaram mais quatro discos entre 1978 e 1982: "Parallel Lines" (1978), "Eat To Beat" (1979), "Autoamerican" (1980) e "Hunger" (1982).
Mesmo tendo feito excelentes canções, talvez a maior lembrança do Blondie ainda sejam aquelas que fizeram história na disco music como "Heart Of Glass" (que no Brasil foi até trilha de novela Global: "Pai Herói" de 1979) e "Atomic" (uma pá-de-cal nessa brincadeira). "Call Me" também foi outro grande momento da banda, já que além de ter sido um sucesso avassalador na época em que saiu (comecinho dos anos 80), também marcou uma grande parceria com o produtor italiano Giorgio Moroder e foi trilha sonora do filme "Gigolô Americano", que lançou richard Gere.
Não obstante, além do sucesso que o Blondie alcançou em seus primeiros sete anos de atividade, a banda acabou se dissolvendo em 1983, quando Chris Stein foi diagnosticado com uma grave (e também misteriosa) enfermidade que o afastou do showbiz. Quanto aos demais, Debbie Harry fez carreira-solo e se lançou como atriz também, e os outros foram fazer suas vidas como músicos, produtores e executivos de gravadoras, também.
Em 1997, a banda ensaiava uma volta às atividades, mas os planos acabaram sendo em bargados por uma ação na justiça movida por Frank Infante e Nigel Harrison. Mas a lei pesou a favor do Blondie e finalmente a banda volltou em 1999 com o disco "No Exit", que além de ter a clássica "Maria" e de ter conquistado ótimas vendagens, também ajudou a criar um novo recorde: Debbie Harry foi a primeira mulher com mais de cinquênta anos a entrar de cara no topo das paradas.
Em 2004, foi lançado o disco "The Curse of Blondie", que além de seguir a linha sonora de seu antecessor, também em seu encalço uma série de apresentações televisivas e o lançamento de muito material ao vivo produzido no período.
Das atividades mais recentes, além da estrada, Debbie Harry também andou gravando com Fatboyslim o single "New York New York" e também tem participado de uma cruzada artística cuja a finalidade é arrecadar fundos para o combate à AIDS.

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 30 de Agosto de 2009, no caderno Folha 3

sábado, 19 de setembro de 2009

DAMNED, DAMNED, DAMNED




The Damned, eis um nome memorável em termos de pauleira bem feita, ainda mais se ouvido com toda atenção nos dias de hoje, já que hoje muito se exalta cabedal técnico, poses e tudo o mais que é supérfluo, em detrimento ao verdadeiro talento.
A banda marcou seu nome na história justamente por ter conseguido ser original, mesmo com um repertório entupido de covers (ou releituras, se é o caso) de clássicos do rock anteriores à sua existência.
Começaram mesmo em junho de '76 (coincidência à parte, mes e ano do nascimento deste que vos escreve!), com Brian James (guitarra), Captain Sensible (baixo), Rat Scabies (bateria) e Dave Vanian (vocais). Fizeram sua primeira apresentação no mes seguinte, abrindo um gig para os Sex Pistols no 100 Club, de Londres. Fora isso, é deles a primeira gravação do punk britânico: o single "New Rose".
Seus dois primeiros discos, "Damned, Damned, Damned" (fevereiro de 1977) e "Music for Pleasure" (novembro de 1977), ainda contavam com a assinatura do guitarrista Brian James em todas suas faixas. Tudo ia muito bem, até o dia em que as coisas escureceram na vida dos meninos... James saiu da banda e ainda segurou consigo o nome Damned, durante todo o ano de 1978. Mas como show que é show não pode parar, durante aquele ano Captain Sensible assumiu a guitarra, e para o baixo, uma participação mais que especial: Lemmy Kilminster (exatamente! O mesmo feioso do Motorhead!); só que desta vez sob o nome de The Doomed.
Em 79, tão logo conseguiram de volta o direito de usar o nome "Damned", lançaram o disco "Machine Gun Etiquette", que trazia consigo clássicos como "Smash It Up", "I Just Can Be Happy Today" e "Love Song".
A década de 80 começou com a banda flertando fortemente com a new wave. O disco "The Black Album" (1980) e o epê "Friday 13th" (1981) são obras emblemáticas do período, já a partir daí inaugura-se um novo ciclo, uma fase que muitos chamam de "gótica" e outros, "death rock" mesmo.
Dave Vanian, que antes se caracterizava de Drácula, no melhor estilo Bela Lugosi, passava a adotar um visual mais próximo ao dos vampiros de Anne Rice. Desse tempo, podemos destacar a trilogia dark da banda: "Strawberries" (1982), "Phantasmagoria" (1985) e "Anything" (1986).
Entre '86 e '95 a banda não lançou mais nada de material inédito, apenas meiaduzia de bons discos ao vivo e coletâneas a rodo. Sua volta aos estúdios deu-se com o disco "Not of This Earth" (1995), sucedido seis anos mais tarde por "Grave Disorder".
Enfim, mesmo sem lançar material inédito com tanta frequência, o Damned se mantém firme e forte como uma das bandas mais cultuadas entre o punk e pós-punk, que muitos tentam imitar mas ninguém consegue causar tanto impacto. Já foram regravados por muita gente importante, a saber: Guns'N'Roses, Die Toten Hosen, Hellacopters, Offspring etc. Podem até tentar copiar as linhas de bateria de Rat Scabies ou as guitarras de Captain Sensible (e o visual também! Vide o "novo" Supla!), mas não há quem cante como Dave Vanian, um híbrido "goth-punk" de Frank Sinatra e Jim Morrison. É ouvir para crer!
Por hoje é isso. Um gande abraço a todos e até a próxima!


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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 23 de Agosto de 2009, no caderno Folha 3

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

The MISFITS




A ERA ESTÁTICA

O que fazer quando se vive, ao mesmo tempo, tão longe e tão perto de uma das maiores cidades do mundo?! Pois bem, enquanto as coisas "pipocam na capital", o interior segue sua bela pacata e rotina, e os jovens, além de irem à escola, curtem filmes baratos - desses feitos para rodar nos cinemas interioranos - e formam bandas de rock!
É fato! Uma rapaziada do interior, influenciada pelo que é "demodê" nos grandes centros - rock das décadas passadas e muitos filmes B - acabam por se tornar a mais nova sensação nos inferninhos do underground da capital.
Uma dessas bandas (e talvez o maior exemplo disso) é o MiSFiTS, que nasceu em 1977, na minúscula cidade de Lodi, um pedacinho da Itália em New Jersey, aos arredores de New York, EUA, com os colegas de escola Glenn Anzalone e Gerald Caiafa. Glenn adotou o nome artístico de Danzig e Gerald passou a se chamar Jerry Only. Gravaram um modesto compacto com duas faixas: "Cough Cool" e "She"; no qual Glenn cantava e tocava um piano elétrico e Jerry, o baixo, acompanhados do baterista Manny Martinez, um amigo jazzísta da área.
A experiência deu tão certo que eles recrutaram mais dois amigos da vizinhança - Francesco Licata e Mr. Jim - para gravar o disco "Static Age", no começo de '78, disco este que só acabaria saindo 20 anos mais tarde, pois na época, seu conteúdo fora todo "esquartejado" em vários compactos e coletâneas. Nesse mesmo período somaram-se à banda o guitarrista Bobby Steele e o baterista Arthur Googy, com os quais se repete a mesma história no decorrer de dois anos: um album feito em vários compactos, também!
Neste caso, trata-se do disco "12 Hits From Hell". Seu lançamento estava previsto para 2000, mas desta vez a empreitada da gravadora fora embargada por Glenn Danzig e Jerry Only, pois tanto a mixagem quanto a parte gráfica não satifizeram a ambos. É bom lembrar que o disco todo apaerece em pedaços nos albuns: "Collection I", "Collection II", "Legacy Of Brutality" e "Walk Among Us".
Não obstante, Bobby Steele deixa a banda para formar o Undead, e Paul, o irmão mais novo de Jerry, assume a guitarra e passa a pegar a estrada com a banda. Em estúdio, ajuda a completar as gravações do que já havia sido feito e assim debutar no disco "Walk Among Us". Por ser alto, magro e carrancudo, Paul recebe o apelido de Doyle Von Frankenstein, ou simplesmente Doyle.
MiSFiTS não nasceu para ser uma banda punk, mas foi perfeitamente absorvido pela cena novaiorquina que então explodia para o mundo, por meio dos Ramones e do Blondie. Os MiSFiTS, sob clara influência de Stooges e The Doors, e tais quais os ingleses do Damned, foram os criadores do chamado "death rock", um estilo cuja principal característica é o humor negro nas letras e voz empostada no melhor estilo estilo Elvis. Enquanto o Damned aproximava-se mais do ultra-romantismo Vitoriano, os MiSFiTS imprimiam elegância ao "pastelão", por meio de críticas cáusticas e irônicas ao establishment e à crescente banalização da violência. Entre 77 e 83, todas as composições da banda são atribuídas a Glenn Danzig
Em termos visuais, a banda também inovou ao lançar o DEVILOK, um penteado cuja idéia era criar um "chifre" com o cabelo, que caia pela testa.
Em '82 lançaram três epês cuja linha sonora tendia mais para o hardcore e o speedmetal: "Earth A.D.", "Wolf's Blood" e "Die, Die, My Darling"; desta vez com o apoio do colombiano Roberto "Robo" Valverde, na bateria. Segundo muitos - e até mesmo os caras do Metallica - foi ali que começou o que viria a ser chamado de thrash metal. E falando nisso, é muito comum nos depararmos com o Metallica tocando músicas dos MiSFiTS, mas isso é só um detalhe perante a áura cult que se formou em torno da banda nos anos seguintes.


O PRIMEIRO FIM

Após lançarem as sementes do que mais tarde viria a ser o metal, as relações entre Glenn e Jerry andavam bastante desgastadas e isso acabou por ocasionar o fim da banda. O nome MiSFiTS manteve-se na erraticidade por conta uma longa disputa na justiça. De um lado, Glenn Danzig, que vendera todo o catálogo da banda à gravadora Caroline Records, e de outro, Jerry Only, que seguir na estrada com a banda. A disputa durou 12 anos. Glenn continuou como dono das músicas feitas entre 77 e 83, enquanto Jerry Only ganhou o direito de usar o nome MiSFiTS como melhor lhe aprouvesse.
Nos anos em que ocorreu a disputa, muita coisa aconteceu... Glenn Danzig juntou-se a Eerie Von e Stevie Zing, dois antigos membros de apoio dos MiSFiTS, e formou o SAMHAIN, que posteriormente se tornaria apenas DANZIG. Já Jerry Only, ao lado de seu irmão, Doyle, formou o KRYST THE CONQEROR, que apesar das origens punk, flertava fortemente com o metal épico.


MiSFiTS II: a Ressurreição na Era Only



Em '95, os irmãos Caiafa, Jerry e Doyle, reformulam o MiSFiTS, mas desta vez com o baterista Dr. Chud e o crooner Michaele Graves. com esta formação lançaram 3 cedês entre 1997 e 2000: "American Psycho", "Famous Monsters" e "Cuts From The Crypt". Em '98 vieram pela primeira vez ao Brasil. Sem Graves, mas com Mike Hideous, um gótico que, aliás, representou muito bem o misencene da banda.
Em 2000, Graves e Chud deixam a banda. Jerry e Doyle juntam a uma dupla de peso: Robo (baterista que tocou com o MiSFiTS em 82/83) e o guitarrista Dez Cadena; ambos ex-membros do histórico Black Flag. Até aí, tudo bem e perfeitamente compreensível, mas o problema é o que viria depois, a partir da saída de Doyle...

Chud, Graves, Doyle e Only


Então aconteceu o "pior': Doyle se estranhou com o irmão e foi tocar com Glenn Danzig, apenas clássicos do MiSFiTS antigo, ao passo que Jerry Only passa a ter Marky Ramone como baterista convidado de sua encarnação dos MiSFiTS e contar com o apoio de Dez Cadena na guitarra e vocal, fora as sucessivas roubadas em que entra à posteriori. Em 2008, de modo menos espalhafatoso e mais digno, voltam a tocar no Brasil, mas com Jerry Only, Dez Cadena e Robo.

Glenn Danzig & Doyle

Enfim, o que resta a nós, fãs, é apreciar tudo o que foi feito de bom em seu passado, longe das cópias mal-feitas que aparecem todos os dias sob o estúpido rótulo de "horror punk" e de pândegos projetos de seus ex-integrantes (por exemplo, uma questionável versão do Undead para "12 Hits From Hell").
Uma boa dica para se conhecer bem esta banda é o boxset de 4 cds, que abrange (quase) tudo de seus áureos anos ou buscar internet à fora a coletânea virtual "Caustic Age", que compila perfeitamente todas as suas fases de '77 a '83.

Por enquanto é isso. Um grande abraço a todos e até a próxima!

tic-tac... tic-tac... tic-tac...

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Originalmente publicado no jornal Folha do Estado, dia 09 de Agosto de 2009, no caderno Folha 3

O QUE SERIA DO MUNDO SEM A GUITARRA ELÉTRICA?


Les Paul: Guitarras, Guitarras e mais Guitarras

Comecemos com uma breve lista de artístas: George Harrison, Paul McCartney, Jimmy Page, Eric Clapton, Jeff Beck, Peter Frampton, Gary Moore, Pete Townshend (the Who), Steve Howe (Yes), Ace Frehley (Kiss), Tommy Thayer (Kiss), Joe Perry (Aerosmith), Adrian Smith (Iron Maiden), Duane Allman (Allman Brothers), Gary Rossington (Lynyrd Skynyrd), Daron Malakian (System Of a Down), Phil Campbell (Motorhead), John Fogerty (Creedenace C.R.), Slash (Guns'N'Roses), Zakk Wylde (Ozzy Osbourne), Noel Gallagher (Oasis), David Gilmour (Pink Floyd), Dave Grohl (Foo Fighters), Kirk Hammett (Metallica), Marcus Siepen (Blind Guardian), Jay Jay French (Twisted Sister), Billie Joe (Green Day) e Mark Knopfler (Dire Straits)

O que todos têm em comum?! Todos, de um jeito ou de outro, prestam seu tributo a Les Paul!
Aos que desconhecem e também aos que adoram praguejar contra a música eletricamente amplificada ou ao rock propriamente dito, o sr. Lester William Polsfuss - mais conhecido como Les Paul - deu ao mundo das artes uma das maiores invenções desde a máquina fotográfica: a guitarra elétrica!
Les Paul entrou para a história como o "Thomas Edson da indústria musical", pois além de inventar a guitarra elétrica, também revolucionou a forma de gravar música, quando possibilitou a gravação de todos os instrumentos em canais avulsos.
Nascido em 1915, no norte dos Estados Unidos, começou a tocar profissionalmente aos 13 em um restaurante perto de sua casa. Autodidata, começou sua vida de músico com uma simples harmônica, imitando artistas de country que tocavam no rádio. Aprendeu um pouco de piano por conta própria, aventurou-se a tocar banjo e em seguida foi a vez do violão. Ainda aos 13, afim de se fazer mais audível para seu público, descobriu que com uma agulha de gramofone e um autofalante de rádio podia amplificar o som de sua guitarra.
Aos 17 anos lagou a escola e foi seguir o caminho da música. Mudou-se de mala e cuia para Chicago, onde caiu nas graças do mundo do rádio e tornou-se uma espécie de rei da música country por aqueles prados. No final dos anos 30, juntou-se ao contrabaixista Ernie Newton e ao guitarrista Jimmy Atkins (irmão de Chet Atkins) para formar o Les Paul Trio. Mudaram-se para Nova Iorque e lá passaram a trabalhar direto com figurinhas carimbadas da música popular e do jazz, como Fred Waring, Louis Armstrong, Art Tatum, Ben Webster, Stuff Smith e Charlie Christian. Em 1941 criou, enfim, a guitarra elétrica, a partir de um corpo semelhante ao de um violão, mas feito de madeira maciça e com capitação elétrica dos sons. Les Paul passou a chamar o instrumento de "the Log" e, depois disso, o mundo nunca mais seria o mesmo...
Foi casado com a cantora Mary Ford, entre 1949 e 1963. Teve três filhos e uma filha adotiva.
Com Mary Ford produziu, além de filhos, inúmeros sucessos durante os anos 50. O próprio Paul McCartney relata que em suas primeiras apresentações, à frente dos Quarrymen (banda pré-Beatles que teve com John Lennon nos idos de 1957), tocava muitas e muitas músicas da dupla Les Paul & Mary Ford.


com Mary Ford, sua eterna parceira

Apesar de já ter sido indicado simultaneamente a inúmeros prêmios e "Halls of Fame", Les Paul só sentiu as "pernas tremerem" de fato em 2006, quando ganhou o Grammy por seu disco "Les Paul & Friends: American Made World Played". Sua saúde ficou fagilizada com tanta emoção e desde então redobraram-se os cuidados.
No decorrer de sua vida, por inúmeras vezes, Les Paul encarou a morte nos olhos, mas somente na quinta-feira, 13 de agosto de 2009, aos 94 anos, morreu de pneumonia, no White Plains Hospital, em Nova Iorque, ao lado da familia e de amigos.
Ao saberem da morte do mestre, diversos artistas prestaram suas homenagens pelos mais variados canais de tv, rádio e web: Slash, Trey Anastasio, Joe Satriani, Tom Morello, Ace Frehley, Brian "Head" Welch, Tad Kubler e Keith Richards.
Esta coluna é dedicada à memória e ao legado desta figura ímpar que revolucionou a música no século XX e com quem o mundo tem uma dívida de gratidão.

Um grande abraço a todos e até a próxima.


o bom e velho Les Paul

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 16/08/2009.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Yardbirds



For your Love

Sim, há muito essa coluna pedia um review sobre o monstro mais sagrado do rock inglês. Exagero? Absolutamente não!

Pois bem, ao lado de bandas como Shadows, Beatles, Rolling Stones, Animals e The Who, os Yardbirds figuaram como um dos nomes mais importantes de toda a história do rock, não apenas por terem sido a casa de três dos maiores guitarristas da história segundo a (verdadeira) revista Rolling Stone: Eric Clapton (#4), Jimmy Page (#9) e Jeff Beck (#14); mas por ser uma das primeiras a investir pesado em experimentações sonoras sem parecer prolixa e pedante como as bandas de progressivo e, obviamente, por fazer músicas que literalmente colam em nossas mentes e corações.

Surgidos em 1963, nos subúrbios londrinos, os Yardbirds começaram tocando clássicos do blues de Chicago (Bo Didley, Howlling Wolf, Elmore James, Sony Boy Williamson II, Muddy Watters etc) e contavam com Keith Relf (vocais e harmônica), Jimmy McCarty (bateria), Chris Dreja (guitarra) e Paul Samwell-Smith (baixo). Não demorou e juntou-se à banda o jovem Eric Clapton (guitarra).

Nesta formação seguiram até fevereiro de 1965. Gravavaram ótimos singles, até o dia em que "For Your Love" e "Heart full Of Soul" estouraram nas paradas.

Apesar de concebida para sere um blues, "For Your Love" foi muito mais além e alçou a banda para um sucesso quase instantâneo e que os integrantes sequer haviam imaginado. Clapton, vendo que aquilo não tinha nada a ver com suas convicções pessoais e artísticas, arrumou as malas, deixou a banda e foi tocar com John Mayall e em seguida formar o Cream. Para o seu lugar entrou Jeff Beck, um músico igualmente excepcional que ajudou os Yardbirds a terem as características com que seriam para sempre lembrados.

Não obstante, o baixista Paul Samwell-Smith também foi embora, abrindo vaga para um rapaz conhecidíssimo dos estúdios de Londres, chamado Jimmy Page; e dessa forma a banda seguiu até o final de 1966, quando Jeff Beck também saiu.


The New Yardbirds

Com a formação mais "enxuta", a turma continuou tocando, mas desta vez era comandada por Jimmy Page, que do baixo migrara para a guitarra.

Em julho de 1968, a banda tem seu fim. Mas não contente com essa situação, e com o nome "Yardbirds" às moscas, Jimmy Page resolve retomar as atividades, e recrutar para a nova encarnação do grupo o crooner Robert Plant, o baixista John Paul Jones e o baterista John Bohan. A nova banda se chamou, por um mes apenas, The New Yardbirds, mas graças à sugestão do amigo Keith Moon (baterista do The Who) adotaram o nome de Led Zeppelin, mas isso é assunto para outro dia.


Pós-Yardbirds

Eric Clapton, além de ter formado o Cream, fez uma brilhante carreira-solo e, assim como Jeff Beck e Jimmy Page, tornou-se uma referência universal em termos de guitarra.

Keith Relf partiu para a carreira-solo e formou um grupo de folk rock chamado Renascence. Morreu electrecutado, em 1976, enquanto tocava uma guitarra mal aterrada.
Jimmy McCarty, com a ajuda de Paul Samwell-Smith, juntou-se a Keith Relf para formar o Renascence, e Cris Dreja seguiu a carreira de fotografo de rock.


Reuniões...

Em meados dos anos 80, os Yardbirds remanescentes esboçaram uma reunião sob o nome de The Box Of Froggs. Gravaram dois elepês, alguns poucos singles, e a coisa parou por aí, ao menos até 1992...

Em 1992, os Yardbirds se reunem de fato para para o seu ingresso no "Rock'n'Roll Hall of Fame", uma espécie de "Oscar pelo conjunto da obra", aplicado aos serviços prestados ao rock. Com excessão de Eric Clapton, que na época estava em tournée com seu disco acústico, e do falecido Keith Relf, representado por viúva e filho, todos compareceram.

Neste ensejo, o guitarrista Chris Dreja e o baterista Jimmy McCarty recrutam mais uma boa turma de músicos para acompanhá-los nessa estrada. Saíram-se muito bem, diga-se de passagem, pois em 2003, os mesmos fundadores juntaram-se a Jeff Beck e mais uma série de convidados ilustres para gravarem o disco "Birdland". Desses convidados, alguns são bem conhecidos nossos: Brian May, Slash, Joe Satriani, Steve Vai entre outros.

O que vale lembrar é que os Yardbirds foram (e continuarão sendo) uma dessas poucas bandas que ouvimos com ouvidos e corações abertos, em qualquer época da vida.

Um grande abraço a todos e até a próxima.


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Artigo originalmente publicado no caderno Folha 3, jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 09/08/2009.


VÍDEOS DOS YARDBIRDS

domingo, 19 de julho de 2009

BLACK MERDA


Há poucos dias eu andei redescobrindo uma das maravilhas que há um bom tempo não ouvia: a banda Black Merda! (É verdade, o nome é esse aí mesmo!)
Pois bem, longe do que diz o nome em português, Black Merda significa, no jeitão do gueto norte-americano, "Black Murder", o que por sua vez, traduzido, quer dizer "Chacina Negra". Seus integrantes, além de serem excelentes músicos, também foram militantes políticos e fizeram parte dos Black Panthers de Detroit. Tocaram em diversas manifestações públicas e, inclusive, dividiram o palco com os caras do MC5.

Tudo começou nos idos de 1965 quando os amigos e colegas VC L. Veasey e Tyrone Hite mais os irmão Antony e Charles Hawkins, passaram a trabalhar como músicos de aluguel para gente da cena soul de Detroit, tanto em estúdio quanto na estrada. Tocaram com muita figurinha carimbada da Motown/Brunswick, Fortune Records e Golden World Studios. A princípio chamavam-se The Soul Agents e acompanharam os cantores Edwin Starr e Ellington "Fuji" Jordan.

Como Black Merda gravaram pelo selo Chess um disco homônimo em 1970 e graças a um marketing capenga, o album acabou sendo um fracasso de vendas, mas a banda não se deixou abalar.

Após uma tour pela California, em 1971, voltam a Detroit. Entram em estúdio e gravam mais um disco: Long Burn The Fire; agora com o baterista Bob Crowder. Mais uma vez, e graças às mesmas "merdas", o disco acaba sendo um encalhe nas lojas.

Desanimados com toda essa situação, a banda se desfaz e seus integrantes voltam a ser meros músicos de estúdio, até sua redescoberta em 2004...



The Folks From Mother's Mixer

Black Merda 2009

Em 2004, ambos os discos da banda foram remasterizados e relançados como um único cedê: The Folks From Mother's Mixer! E como em 2004 o compartilhamento de músicas pela web ganhava as primeiras páginas dos jornais (vide o caso Audiogalaxy e a briga Metallica X Napster), não demorou para o mundo redescobrir essa maravilha sonora. Graças a isso, a banda se reuniu e voltou para a estrada. Nos últimos 5 anos têm se apresentado regularmente pelos mais diversos cantos da américa do Norte, Europa, Australia e Japão. Lançaram mais alguns discos: Psych-funk of Black Merda (2006, coletânea que só saiu em vinil), Renaissance (2006), Take a Little Time (2009, single) e mais recentemente, Force of Nature (2009).

Muita gente os considera mais viscerais que Jimi Hendrix (!!!), mas isso é uma opinião muito pessoal e que varia de fã para fã.
Este mesmo que vos escreve, descobriu essa banda não faz muito tempo (coisa de 3 ou 4 anos) e pode certamente dizer que seu som quebra tudo! É um prato cheio para quem curte Jimi Hendrix, MC5, Parliament Funkadellic e The Stooges também! Ademais, quero dedicar esse review em primeira pessoa à memória do meu amigo e mestre Cleiton Lucas Santigo (22/03/77 - 30/05/09) que, se bem me lembro, quando ouvia o disco do Black Merda, costumava dizer: "PQP! Esse disco é tão bom que me dá ainda mais orgulho de ser negão".

Um grande abraço a todos e até a próxima.

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 19/07/2009.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

VOCÊ CONHECE INDO-ROCK?!


The Javalins


Indo-Rock foi uma das mais enigmáticas e explosivas cenas da história. Ocorreu no curto período de cinco anos (de 1959 a 1964), na Holanda e foi encabeça por bandas literalmente doidas por música, formadas em sua maioria por jovens imigrantes indonésios.

Embora sua história comece nos idos de 1945, quando a então colônia holandesa da Indonésia conquista sua independência, culminando em uma emigração massiva para a Holanda, a paixão dos indonésios pelos instrumentos de corda remonta ao século XVI, quando tal qual as origens de nossa viola-de-cocho, exploradores portugueses e espanhóis introduziram por aquelas paragens o gosto pela sonoridade de alaúdes e violões, o que originou um gênero de música popular chamado chamado "krontjong", marcado principalmente pelo "diálogo instintivo" entre os instrumentos. Além do que, já no século XX, também nutriam uma forte predileção por música hawaiana e sucessos da música norte americana difundidos por rádios instaladas em bases nas Filipinas e na Austrália.


The Tielman Brothers


Mas voltando à Holanda... a cena indo-rock surgiu de fato graças a esses jovens que imprimiam suas tão peculiares características culturais a sons tão característicamente ocidentais como o jazz, o country e o blues. Indubitavelmente, o maior nome do cena indo-rock é o dos Thielman Brothers, que quando crianças já tocavam pelos clubes de Jacarta e tão logo se mudaram para os Países Baixos, tornaram-se um dos nomes mais selvagens e incógnitos da história do rock.

No período, só a Holanda já contava com cerca de 300 bandas de indo-rock (catalogadas). Além dos já citados Tielman Brothers, bandas como The Javalins, The Crazy Rockers, The Black Dynamites, The Hep-Cats, incendiavam os bailes e as vitrolas daquele minúsculo país europeu.


The Black Dynamites


Como o mercado holandês já se encontrava bastante saturado, muitas dessas bandas foram tentar a sorte na Alemanha, principalmente nos pubs portuários da mesma Hamburgo que lançara o Beatles, de onde sempre voltavam com os bolsos abarrotados de dinheiro.

Uma das caracteríticas principais das bandas, além de serem formadas por indonésios, era sua configuração física, pois além de terem uma bateria e um baixo, eram marcadas pela presença média de três guitarristas, os quais costumavam deixar a platéia em polvorosa com suas guitarras "customizadas" ao seu gosto. Uma das marcas mais usadas então era a alemã Höfner.

Em 1964 a cena indo-rock perde sua força, pois a invasão britânica também tomou conta da Holanda. Não obstante e buscando se reinventar, as já sacramentadas bandas se desfazem e o talento de seus músicos acaba sendo absorvido pela então nascente e visceral cena Nederbeat, mas isso já é assunto para outra ocasião. Um grande abraço a todos e até a próxima semana.

The Hap-Cats



Electric Johnny & The Sky Rockets
( vai pro trono ou não vai?! )

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 12/07/2009.

Videos de INDOROCK!!!!

domingo, 12 de julho de 2009

STRAY CATS + SLIM JIM PHANTOM

UM POUCO SOBRE STRAY CATS



Surigida na região de Long Island, EUA, em 1980, Stray Cats é/foi uma das bandas que mais fez história nas décadas de 80 e 90. Sua maior inovação foi "desenterrar" clássicos dos primódios do rock e reinventá-los de modo simples e pulsante. Tão logo começaram, não deram em nada em sua terra natal. Sua grande chance veio mesmo quando decidiram se mudar "de mala e cuia" para a Inglaterra e por lá consolidarem um estilo que até então era restrito a círculos: o neo-rockabilly.

É fato, o Reino Unido sempre contou com grandes nomes na cena como Buzz & The Flyers, The Polecats, Paul "Meteors" Fenech e o veterano Gorgon "Crazy" Cavan, mas foram os Stray Cats quem alçaram o estilo a um patamar mais alto.

Formada por Brian Setzer (guitarra), Lee Rocker (rabecão) e Slim Jim Phantom (bateria), essa trupe fez e continua fazendo muito barulho. Em '89 vieram para o Brasil e suas apresentações são lembradas até hoje por todos que presenciaram. Inclusive, a própria TV Gazeta de São Paulo veiculava à exaustão o clipe de "Stray Cat Strut".

Em quase trinta aonos de banda, esses caras já encararam inúmeros fins e retornos. enquanto Brian Setzer levava seus trabalhos solo, Slim Jim Phantom e Lee Rocker juntavam-se a Earl Slick, o famoso guitarrista de David Bowie e que também tocou um montão com John Lennon, para formarem o Phantom, Rocker & Slick, mas esse é pano para uma outra manga...

Na metade dos anos 90, a banda se desfez novamente. De seus integrantes, foi cada um pro seu quadrado... tanto Brian Setzer quanto Slim Jim Phantom ganharam notoriedade por conseguirem concatenar em seus discos, figurinhas carimbadas do rock, como Brian Wilson, Robert Plant, Lemmy Kilminster e muitos outros, enquanto que Lee Rocker manteve-se também igualmente fiel à sonoridade dos Cats. Brian Setzer comandou o "swing revival" e a volta das big bands com sua Brian Setzer Orchestra, ao passo que Lee Rocker lançou bons discos, mas não com tanta expressão, já Slim Jim Phantom é um caso à parte, graças à sua capacidade de sempre juntrar a Nata para os melhores espetáculos.

Aliás, no que tange esses artístas, tudo quanto é disco deles é certeza de bom material, seja com Stray Cats, ou com seus trabalhos adjacentes.

SLIM JIM PHANTOM NO BRASIL
e impressões acerca do show de Brasília



Como não é todo dia que chega alguma figura lendária por terras brasileiras, tivemos a oportunidade única de ver um desses heróis de perto. Afinal, tratava-se do show de Slim Jim Phantom Trio, formado pelo supracitado na bateria e vocais, Jimmy Rip (músico de apoio de Jerry Lee Lewis, Mick Jagger, Blondie, Television etc) na guitarra e vocais, e mais o argentino Nicolas "Nixxx" Valle (Historia Del Crimen, Motoramas etc) no rabecão. Enfim, uma super banda ao que tudo indicava.

Com shows pelas principais capitais do país, a capital Federal fora a escolhida para representar o centro-oeste. O show aconteceu na noite de 3 de Julho, no Mercado Alternativo. Não obstante, poder-se-ia dizer que, de um show como este seria preciso esperar ao menos uma semana para se recuperar, entretanto, podia ter sido uma festa melhor, não fosse a banda ter tocado pouco menos que 60 minutos, um fã ensandecido ter tentado beijar SJP na boca e a forma como absolutamente ninguém - dentre as bandas de abertura, imprensa e fãs - pode ter qualquer acesso ao ídolo rocker.

Mas assim mesmo, foi uma ótima noite, pois as bandas de abertura - Perigoso & Seus Dinamites e Sapatos Bicolores - deram o melhor de si, como se fossem abrir um show dos Stray Cats propriamente, e caíram nas graças do público. Nicolas Valle, o baixista da banda de SJP também foi um show à parte, pois além de ter sido o único cara empolgado naquele palco, fez as honras da casa ao se misturar com a platéia e conversar com todo mundo, como se morasse há tempos por aqui (aliás, há quem diga que o sujeito é brasileiro por natureza e porteño por acaso), contudo Slim Jim continua sendo um baterista brilhante por sua simplicidade e destreza ao tocar aquele minúsculo drumkit.

Enfim, se você deseja conhecer um pouco mais sobre os Stray Cats, eis aqui alguns endereços úteis:



Stray Cats


Brian Setzer


Slim Jim Phantom


Lee Rocker

Conheça também as bandas


MOTORAMA (banda Argentina do baixista Nicolas Valle)


SAPATOS BICOLORES


PERIGOSO & SEUS DINAMITES

Alguns vídeos do Slim Jim e dos Stray Cats

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Agradecimentos: Ana Paula Dantas, Fernando Rosa, Nicolas Valle.

Matéria originalmente publicada no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 05/07/2009.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

SKY SAXON TAMBÉM MORREU!


Na última quinta feira o mundo encarou perplexo a morte de Michael Jackson e da eterna Pantera, Farrah Fawcett.
Logo, como todos têm falado de Michael Jackson (e vão continuar falando pelos próximos seis meses, pelo menos), poderíamos comentar sobre a Farrah Fawcett, que mostrou-se incrivelmente forte na alma ao encarar e brigar contra um câncer que, infelizmente, acabou levando a melhor nessa parada; mas vamos falar de um velho hippie que se foi exatmente no mesmo dia e que o mainstream fez questão de ignorar: Sky Sunlight Saxon, líder do seminal grupo The Seeds.


Tal qual o Dr. Timoty Leary, Sky Saxon, que se foi aos 63(?) anos, notabilizou-se como um dos maiores entusiatas do "flower power". Afinal, como todos sabemos (desde criancinha) é que os versos que Geraldo Vandré proferia em "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores" ("... Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor / Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão...") exprimiam com clareza o ideário do "poder da flor", devidamente adequado aos anos de chumbo da ditadura militar, ao passo que nos EUA o alvo era a guerra do Vietnã, que mandava milhares de jovens para levar tiros no outro lado do mundo.


Embora mais lembrado por clássicos como "I Can't Seem To Make You Mine", "Pushin' Too Hard" (que no Brasil tornou-se "Vou Lhe contar", com Wanderlea), "No Escape", "Mr Farmer" entre outros mais, Sky Saxon foi um sujeito extremamente político, sem soar partidário, panfletário ou burocrático, mas sim, por compor músicas acerca da arte de se tomar decisões, descrevendo com clareza a condição humana adequada ao seu tempo e espaço e que, aliás, conservam-se atuais até hoje, quatro décadas mais tarde.

Eis aqui um fragmento traduzido da letra original de "Pushing Too Hard":

"Você está forçando a barra, forçando pro meu lado
Você está forçando a barra com o que você quer que eu seja
Você está forçando a barra quanto às coisas que você diz
Você está forçando a barra toda noite e dia
Você está forçando a barra, forçando a barra comigo ...
tudo o que eu quero é apenas ser livre
e viver minha vida do jeito que eu quiser
Tudo o que eu quero é apenas me divertir
e viver minha vida do jeito como começou
Mas você está forçando a barra
forçando a barra comigo (forçando demais)"


com Billy Corgan

Apesar de não ser laureado por grandes publicações, Sky Saxon atravessou as décadas como uma figura cultuada pelo underground e por figurões do mainstream: David Byrne era seu fã confesso, Patti Smith tocava "Pushin' Too Hard" em seus shows, tanto os Ramones quanto Garbage regravaram "I Can't Seem To Make You Mine", tanto Kurdt Cobain quanto Billy Corgan foram discípulos seus (Sky Saxon inclusive faz uma pontinha no clipe "Superchrist" do Smashing Pumpkins).


Dos Seeds, apenas ele se mantinha como único remanescente, mesmo com inúmeros nomes para seus projetos sonoros, mas com o mesmo repertório e a mesma atitude. Foram mais de 40 discos e um box de 13 cds de música tribal psicodélica que ele fez em seus tempos de comunidade YaHoWha.

Aos que quiserem conhecer mais sobre esse sujeito, visitem seu site oficial (em inglês): http://www.skysaxon.com/Discography.html

Um abraço a todos e até a próxima (sem obituários, espera-se).

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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 29/06/2009.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

THE VENTURES, OS PATRIARCAS DO ROCK DE SEATTLE

Bob Bogle

Domingo passado, dia 14 de junho, tanto o rock como o mundo da música pop sofreram uma perda irreparável: Bob Bogle, guitarrista e baixista, fundador da banda The Ventures, morreu vítima de um câncer linfático.
Além de seus 75 anos - muito bem vividos, por sinal - contava com uma estrada invejável a todos aqueles que seguem ou desejam um dia seguir na carreira musical.
Mas por que irreparável?!
Foi Bob Bogle, junto com seu parceiro Don Wilson, que arquitetaram um dos grupos mais influentes da história do rock, já que inúmeros nomes do rock citam os Ventures como influência, pois junto com os ingleses The Shadows e o californiano Dick Dale, foram eles os edificadores da cultura do rock instrumental (verdadeiro).



Patriarcas de Seattle

Outro detalhe interessante é que graças a eles, Seattle se tornou um importnte polo no mapa do rock, pois exerceram influência mais que direta sobre bandas como The Sonics e The Fabulous Wailers (principais expoentes da primeira geração grunge, da década de 60) e, é claro, Jimi Hendrix.
Por volta de 1958, na cidade de Tacoma (uma espécie de Várzea Grande de seattle), a dupla Bogle & Wilson chamou chamo os amigos Nokie Edwards e Skip Moore para gravarem o single "Walk Don't Run". Mas como nenhuma gravadora se interessava, criaram o próprio selo: Blue Horizon.
Pat O'Day, um famoso disck-jockey de Seattle, recebera algumas cópias do single. Nisso, a música de Chet Atkins na interpretação dos Ventures, passou a ser o tema de seu noticiário. daí para a fama foi um pulo... Conseguiram um bom esquema de distribuição nacional e, logo em seguida, o topo das paradas da Billboard, na segunda metade de 1960.
Skip Moore já não tocava mais bateria na banda. Logo, para seu lugar entrou Howie Johnson, mas por conta de um acidente automobilístico que lhe causara sérios danos na espinha, viu-se obrigado, por odens médicas a deixar a banda.




Formação clássica e influência universal

Quatro Ventures e Uma Gueixa

Para preencher a vaga de Howie Johnson, entra Mel Taylor, um músico de formação jazzística, que deu à banda o pique com que ficaram conhecidos. Assim sendo, a formação que sacramentou os Ventures foi: Nokie Edwards & Don Wilson nas guitarras, Bob Bogle no baixo e Mel Taylor na bateria.
Foram a primeira banda de rock ocidental a se apresentar no Japão. Logo, tiveram um papel importantíssimo na formação do pop nipônico, pois diversos cantores de "enka" (musíca tradicional japonesa) passariam a adotar a guitarra elétrica em seus acompanhamentos.
Assim como o Brasil contava com programas do estilo Jovem Guarda, o Japão também tinha inúmeros programas televisivos nos quais sempre rolavam concursos de guitarra (sim, graças aos Ventures o Japão agarrou a guitarra elétrica com unhas e dentes! ) em que o mote principal era a interpretação/releitura de sucessos dos Ventures.
Apesar de nunca terem vindo tocar no Brasil, os Ventures também tiveram uma influência estrondosa sobre a jovem guarda, pois muito de sua parte instrumental, deve-se a essa banda. O exemplo mais forte é o d'Os Incríveis que, sob o nome The Clevers, começaram sua carreira como "clones" dos Ventures e também, no esteio de seu sucesso, foram a segunda banda de rock ocidental a se apresentar no Japão, o que garintiu à MPB uma excelente colocação na preferência do exigente (e por vezes frio) público nipônico, mas isso já é assunto para uma outra ocasião.


Período morno

Em 1968, o guitarrista Nokie Edwards cansa-se da estrada, sai dos Ventures e resolve dar novos à sua vida. O competente Gerry McGee assume o seu lugar. No decorrer dos 70's, Edwards volta algumas vêzes mas não como membro fixo. Os Ventures gravam muita coisa e continuam tocando pelo mundo, principalmente pela Europa e Japão.


Resgate

No começo da década de 80, são redescobertos pelo pessoal do punk rock e da new wave. Ganham o status de banda cult e seus discos passam a figurar entre os preferidos de gente como Poison Ivy (The Cramps), Johnny Ramone (Ramones), Chris Stein (Blondie), Ricky Wilson (The B-52's), Roger Fisher (Heart), Elliot Easton (The Cars), Andy summers (The Police) e muitos outros mais. Isso sem falar que os nomes de caras como Jeff Baxter (The Doobie Brothers) e Gene Simmons (Kiss) constam entre os primeiros inscritos no Fã clube Oficial da banda.
Na década de 90, sua música deu uma revigorada quando Quentin Tarantino usou a clássica "Surf Rider" (tocada pelos Lively Ones) na trilha sonora de sua famigerada obra, "Pulp fiction", junto a outros medalhões do surf-instro, dando um belo desfecho ao diálogo de Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) no final do filme.

Slash fazendo reverência ao mestre Nokie Edwards



Curiosidades:


The Ventures, em seus 50 anos de carreira, é a única banda da história que nunca "furou" uma data sequer.

O Japão só passou a fabricar guitarras depois que os Ventures passaram por lá, o que alavancou a fabricação de instrumentos musicais eletro-eletrônicos por lá. O resto é história...

Por enquanto é isso. Fiquem ao som dos Ventures tocando "Walk don't Run", "Hawaii 5-0", "Surf Rider", "Telstar" e "Drivin' Guitars".

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Max Merege, além de pesquisador do rock também adora passar os dias com Ventures nos ouvidos.

MAX MEREGE APRESENTA: REVOLVENDO WALTER FRANCO




por Rubens Leme da Costa


Um dos mais renomados, vanguardistas e geniais compositores brasileiros da década de 70, Walter Franco é um dos nomes mais importantes da música brasileira e um dos primeiros a fazer música concreta no país. Contestador, deixou quatro grandes discos nos anos 70, antes de entrar em uma reclusão e ser recuperado no ano 2000, com um documentário e no ano seguinte, com um novo disco. Desde então, Walter tem se apresentado e mostrado seu talento pelo país. Um enorme talento que merece uma homenagem humilde, mas sempre reverente.

...

Poucas pessoas sabem quem é Walter Franco, algo bem normal em um país que desconhece os artistas com mais de 10 anos de carreira ou quem busca um caminho totalmente pessoal e não se prende às armadilhas da indústria musical.

Mas esse paulista, nascido em 6 de janeiro de 1945, foi um dos principais expoentes da música brasileira dos anos 70, ao lado de Jards Macalé, Itamar Assumpção, e por que não, Arnaldo Baptista.

Desde jovem, Walter mostrou tendências artísticas e por isso resolveu estudar teatro, onde compunha trilhas para algumas peças, além de se apresentar em festivais na virada dos anos 60 para os 70. Conseguiu alguma projeção quando Geraldo Vandré defendeu sua canção "Não se Queima um Sonho", entre outras.

Porém, seu primeiro momento solo aconteceu em 1972, no Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, quando tocou "Cabeça". A confusão começou quando o júri formado por Nara Leão, Roberto Freire, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Décio Pignatari, resolveu premiar aquela música estranha, experimental, com poesia cortada, com o primeiro lugar, apesar das vaias da platéia.

Se a platéia odiou, o que dirá a conservadora emissora, nos anos de chumbo da ditadura. O resultado é que o júri foi demitido. Mas o momento de tensão ficou ainda maior quando Roberto Freire foi ao palco e denunciou toda a armação, junto com o grupo Pholhas. Acabou sendo preso por isso.

Walter já tinha chamado atenção suficiente para conseguir um contrato e em 1972 assinou com a Continental. O produtor escolhido para a empreitada seria o radialista Walter Silva, o Pica-Pau, mas ele resolveu chamar o amigo Rogério Duprat, para a missão, por não entender muito as idéias de seu xará.

Com total liberdade no estúdio, o apoio de Duprat, e a melhor tecnologia disponível na época, Walter estréia com o clássico disco "Ou Não" (também conhecido como "Disco da Mosca" ou "Disco Branco"). A capa trazia apenas uma mosca ao centro de um capa branca e apenas o título na contra-capa.

"Ou Não" foi um lançamento revolucionário. Walter utilizava técnicas incomuns, como a poesia concreta, repetições de fragmentos de letras e arranjos extremamente elaborados. Não são poucos os que consideram como a melhor estréia de um artista brasileiro.

No ano seguinte, Walter saiu com o show "A Sagrada Desordem do Espírito" onde se apresentava sozinho, com um violão e em posição de lótus. Seu único companheiro era a mesa de mixagem comandada por Peninha Schmidt e que era usada como uma orquestra, dando liberdade para Walter criar em cima do palco.

Em 1975, Walter participa do Festival Abertura, com a música "Muito Tudo", ao lado de amigos, como Jards Macalé.

A música é uma homenagem a alguns ídolos, casos de João Gilberto e John Lennon. Os arranjos ficaram com o maestro Júlio Medaglia. E, para variar, Walter foi duramente vaiado pela platéia, apesar do terceiro lugar obtido.

Walter conseguiu mais uma polêmica quando ele, o flautista Tony Osanah e Medaglia subiram ao palco para apresentar a canção. Sob vaias intensas, e sem ter como se apresentarem, os três começaram a jogar um estranho jogo de dados, até que Medaglia rasgou a partitura e a atirou no público.

Mas nada disso seria páreo para o novo trabalho de Walter. Gravado em outubro de 1975 e lançado no ano seguinte, Revolver mostrava um Walter totalmente diferente. Antes de mais nada, o nome do disco é tirado do verbo "revolver" e não uma tradução do disco dos Beatles lançado em 1966 (até porque em português seria Revólver).

Contudo, há uma enorme influência de John Lennon na obra. Primeiro, porque Walter se veste de terno branco, como Lennon na capa de Abbey Road e em diagonal. Segundo, porque a sonoridade está mais perto do rock, com guitarras, e principalmente da sonoridade do ex-Beatle com sua Plastic Ono Band.

O álbum é uma pérola do começo ao fim, abrindo com "Feito Gente", um rock enérgico, conciso e com versos maravilhosos: "feito gente / feito fase / eu te amei / como pude / fui inteiro / fui metade / eu te amei / como pude... fui a vela / fui o vento / eu te amei / como pude / a partida / fui a volta...". Outros momentos inesquecíveis são a vinheta de sete segundos "Apesar de tudo é muito leve", a linda "Cachorro Babucho". Um dos discos mais importantes da nossa música, seja rock ou MPB, com Walter mostrando-se mais inspirado do que nunca e buscando novos horizontes.

Walter só voltaria a lançar um novo disco em 1978. O resultado seria outra obra-prima: Respire Fundo, que levou oito meses de gestação e mais de 200 músicos envolvidos.

O disco traz grandes clássicos, casos da faixa-título e de "Coração Tranqüilo", com o belíssimo verso "Tudo é uma questão de manter / a mente quieta / a espinha ereta / e o coração tranqüilo", explicitando a influência da filosofia oriental em sua vida e obra.

No ano seguinte, Walter lança outra obra fundamental, Vela Aberta. O disco trazia a controversa canção "Canalha", que rendeu a ele, novamente, vaias quando foi defendida no Festival da Tupy. Berrada, gritada, Walter recebeu enormes vaias e defendeu sua obra, dizendo que não estava chamando ninguém de canalha e apenas falando de uma dor canalha, que é a dor da existência de todo ser humano.

Outro grande momento é a faixa título, composta com seu pai, Cid Franco, que escreveu a letra.

Em 1981, ele ainda participou do festival, MPB-Shell, com a música "Serra do Luar", grande sucesso posteriormente na voz de Leila Pinheiro. No ano seguinte, lança um último disco antes da reclusão, apenas com seu nome, pela pequena gravadora Lança.

Após o disco, Walter desapareceu da mídia, fazendo poucos e esparsos shows. Sua voz só foi ouvida novamente, quando em 2000, foi realizado o documentário Walter Franco Muito Tudo, de 25 minutos e rodado em 16 mm, e com depoimentos do poeta Augusto de Campos (um de seus grandes fãs e amigo), que traduziu o poema "Um Lance de Dados", de Mallarmè, além de entrevistas com Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Jards Macalé, Lívio Tragtenberg, Leila Pinheiro e Itamar Assumpção.

Em 2001, Walter voltou aos estúdios e lançou Tutano, seu último disco pela pequena yesbrazil? e posteriormente pela Trama e com participações especiais, como a de Arnaldo Antunes.

Ele ainda continua dando seus shows, sendo reverenciado pelos novos músicos e por gente que não o conhecia, mas que acabaram virando novos fãs.

Justamente em 2001, seus dois primeiros discos foram relançados na série "Clássicos da MPB - Série Dois Momentos", com a edição produzida pelo baterista dos Titãs, Charles Gavin.

Eis a letra de "Revolver" e a discografia completa.

Lembrar de esquecer
esquecer de lembrar
cansar de dormir
dormir descansar
sorrir de doer
doer de sangrar
sangrar de morrer
morrer de lembrar
lembrar de esquecer
esquecer de lembrar
cansar de dormir
dormir descansar...

Discografia

Ou Não (1973)
Revolver (1975)
Respire Fundo (1978)
Vela Aberta (1979)
Walter Franco (1982)
Tutano (2001)

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Max Merege, pesquisador cuiabano trintão, que nasceu ouvindo Walter Franco. Rubens Leme da Costa é um profundo conhecedor sonoro que mantém o site MOPHO . Conheça também a página da BEATRIX.