quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RAVI SHANKAR - O adeus ao mestre da citara






RIP
RAVI SHANKAR
Por Max Merege

No dia 11 de dezembro o mundo da música foi apanhado de surpresa com a notícia da morte do mestre indiano da citara Ravi Shankar, vítima de uma insuficiência cardíaca e respiratória. Se por um lado ficamos tristes, por outro ficamos felizes por saber que este cumpriu com louvor sua missão, e de certa forma, fez do mundo um lugar melhor por meio de sua obra e de sua influência.
A Índia, também conhecida como a Terra dos Mil Deuses, é um país mysteryoso, repleto de contrastes e permeado por mais de cinco mil anos de história. É um lugar que transborda filosofia e exala religiosidade, e cuja cultura espalha sua influência pelos mais distantes rincões do planeta.
Na segunda metade do século XX, entre as décadas de 50 e 70, o ocidente viu-se diante de um gigantesco fluxo migratório oriundo do oriente, mais precisamente da Índia, da China, da Coreia e do Vietnam. Se cidadãos comuns emigravam em busca de uma vida melhor, o mesmo por assim dizer, também ocorria com mestres das mais diversas correntes, que neste interim enxergavam uma nova oportunidade de expandirem seus conhecimentos por meio de um compartilhamento com pessoas e pensamentos tão distintos. De certa forma, a geração beatnik e o flower power são reflexos dessa nova "remixagem" cultural.
Além da ansiosa espera pela Era de Aquário e do consumo inveterado de arroz integral e ácido lissérgico, pensadores ocidentais traziam à luz inúmeras obras do pensamento oriental. Meditação, yoga e artes marciais variadas enriqueciam o leque das práticas corriqueiras do dia-dia.
Na música, por sua vez, a coisa não poderia ser diferente. A cítara tornava-se um instrumento onipresente no pop de então, fosse com hippies norteamericanos, fosse com ídolos do rock britânico (vide os Byrds de Grahan Nash, os Beatles, os Rolling Stones, os Yardbirds, Led Zeppelin etc), e até mesmo com maestros modernos da Cinecittá de Roma. Os ragas de Ravi Shankar ecoavam por todos os lados...



Robindro Shaunkor Chowdhury nasceu em Varanasi, Índia , no dia 7 de abril de 1920. Filho de um professor de violino, de família bramane, desde muito cedo transitou pelo mundo artístico-cultural. Até os quatorze anos correu o mundo na companhia de teatro de seu irmão Uday Shankar. Aos quinze decidira que a música era o sua missão e foi ter aulas de com ninguém menos que Allauddin Khan, o maior mestre de citara de toda a Índia. Aos vinte e quatro anos, após concluir seus estudos, começou a trabalhar como compositor de trilhas sonoras e como diretor musical da All India Radio, de Nova Delhi, onde ficou até 1956, quando passou a excurcionar pela Europa, América do Norte e Australia, tendo inclusive gravado e lançado seu primeiro elepê 'Three Ragas', em Londres. No decorrer da década de 1950, Shankar e o violinista Yehudi Menuhin consolidaram uma forte e sincera parceria que duraria até a morte de Menuhin, em março 1999.
Das tantas corridas pelo mundo, Shankar tornou-se também amigo de Richard Bock, poderoso chefão da World Pacific Records, pela qual gravou e lançou muitos de seus discos nos anos 50 e 60. Brock, por sua vez, apresentou a música de Shankar para os Byrds, que não se fizeram de rogados e trataram de prontamente levar o novo acepipe sonoro para seu amigo, o Beatle George Harrison. A partir de então, Harrison fez de Shankar seu grande mestre na vida e na música... para tanto, basta constatar sua influência a partir da música "Norwegian Wood".
A imprensa chamou Shankar de "músico indiano mais famoso do planeta". Ravi Shankar tocou pelos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969).
Durante os noventa e dois anos em que caminhou pela Terra lecionou nos mais importantes centros do mundo; foi agraciado pelo premier Rajiv Ghandi com uma cadeira na alta câmara do Parlamento Indiano (1986-1992); e além de muitos amigos e parceiros que amealhou ao longo do tempo (trablhou com Mehunin, Harrison, John McLaughlin, Frank Zappa e tantos outros), colecionou Grammies, indicações ao Oscar (por "Gandhi", mas perdeu para John Williams em "ET", em 1982), casamentos e filhos músicos. De seus rebentos, os mais conhecidos são: o instrumentista Shubhendra Shankar (1942-1992), a cantora Nora Jones (1979) e a citarista Anoushka Shankar (1981). Curiosidade: tanto Ravi Shankar quanto sua filha Anoushka concorrem ao Grammy de 2013, com trabalhos distintos, na categoria "Melhor Album de World Music".
No último dia 6 de dezembro, Shankar deu entrada no Scripps Memorial Hospital, em San Diego-CA, EUA, com dificuldades respiratórias, tendo falecido às 4h30 da manhã do dia 11.
Segundo espiritualistas das mais diversas correntes, a partir do dia 11 de dezembro o mundo se veria diante de uma nova mudança, com o fechamento de um ciclo de 26 mil anos e o início de uma nova era chamada de "Precessional". Coincidência ou não, Ravi Shankar foi-se justamente na virada desta nova era. Misticismos à parte, a obra de Ravi Shankar transcende o tempo, o espaço e quaisquer convenções políticas, filosóficas e religiosas, já existentes ou que venham a surgir. Sua música etérea e eterna ficará para sempre guardada no coração da humanidade.

Ao vivo em Woodstock, 1969