terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A PRIMEIRA DAMA DO BAIXO




A PRIMEIRA DAMA DO BAIXO



Conheça um pouco sobre o toque feminino por trás do pop norte americano

Sempre quando ouvimos alguma música é comum darmos uma importância maior ao intérprete que a canta ou ao conjunto "headliner" que a executa, mas infelizmente, neste mundo de meros consumidores, a parte mais crucial, formada por compositores, maestros e demais músicos, acaba ficando de lado. E é justamente em homenagem a um desses ilustres "anônimos" que dedicamos este espaço!
Carol Kaye nasceu no noroeste dos EUA, em março de 1935. De família de músicos, começou cedo no ofício. Aos 14 anos já era conhecida como uma talentosa guitarrista de big bands. Em pouco tempo, passou a lecionar aulas sobre um novo instrumento que então entrava em evidência, a guitarra elétrica, criação de Les Paul. Assim sendo, ganhou fama como uma das primeiras guitarristas da história.
Em meados da década de 50, quando os melhores músicos de estúdio se encontravam na estrada com caras da estirpe de Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Roy Orbison e muitos outros, acontecia uma certa escassez de músicos de estúdio, e os poucos que se encontravam disponíveis, além de terem um custo muito alto, freqüentemente declinavam de convites para gravar rock'n'roll, tementes às possíveis retaliações do mercado (!!!).
No entanto foi bem em meio a esse "vácuo" que a jovem Carol Kaye - bem como uma diversidade de músicos de formação jazzística - encontrou seu lugar ao sol...

1955, na Henry Busse's Band.

Em 1957, a lenda do soul e r'n'b, Sam Cooke, procurava urgentemente um guitarrista e um baixista para gravar suas músicas em estúdio. A escolhida para as guitarras foi Carol Kaye, uma jovem professora que já acumulava grande experiência em guitarras jazzísticas. Entretanto faltava alguém para tocar os baixos. Nisso, o estúdio já dispunha da nova criação de Leo Fender: o Fender Bass.
A ideia principal do Fender-bass era a de executar o som dos baixos, mas com a praticidade de uma guitarra elétrica, já que até então a função cabia tão somente aos rabecões, que apesar de terem um charme único e insubstituível, ainda sim, perdiam muito no quesito praticidade.

Apenas uma tarde foi o tempo que Kaye pediu para conhecer o novo instrumento... No dia seguinte, já o dominava quase tão bem quanto à guitarra. Enfim, para Sam Cooke, gravou tanto as guitarras quanto os baixos dos discos "Sam Cooke" (57) e "Encore" (58).

capa da coletânea CAROL KAYE, The First Lady On Bass

A fama se espalhou, e em pouco tempo Carol Kaye teve de reduzir suas aulas e seu trabalho de tocar em clubes noturnos para ocupar-se apenas do ofício de músico de estúdio e de mãe de família também.
Escreveu métodos de guitarra e foi a responsável pelo (efetivamente) primeiro método de baixo-elétrico da história: "Como Tocar Baixo-Elétrico" (69); que até hoje é seguido! Aliás, foi ela quem quem rebatizou o instrumento, de "Fender-bass" (baixo Fender) para "electric-bass" (baixo-elétrico).
Ultra requisitada, Kaye, além de estar à frente do Wreckin' Crew (a maior orquestra de estúdio dos EUA), tornou-se presença constante nos maiores estúdios de Los Angeles.
Para se ter uma idéia de sua importância na música pop, basta levarmos em conta que no decorrer da década de 60, 9 entre 10 hits do pop norte-americano, seguramente têm os dedos dessa Rainha. Afinal, ela gravou nada menos que 10.000 músicas!!!
Exemplos não faltam, já que além de constar nos discos de Henry Mancini (Peter Gun, A Shot In the Dark, The Pink Panter Theme etc), Lalo Schifrin (Missão Impossível) e Quincy Jones, gravou também inúmeros temas para a TV (Família Addams, Hawaii 5-0, Mulher Maravilha, M*A*S*H etc) e foi inclusive a baixista preferida de jovens maestros como Frank Zappa e Phil Spector, tendo participado de hits memoráveis como "River Deep, Mountain High" (Tina Turner), "Unchained Melody" (Righteous Brothers), "Be My Baby" (Ronettes) etc.


Ah sim, Mme. Kaye também esteve presente no surgimento da surf-music, o primeiro "boom" do rock instrumental, pois gravou inúmeras pérolas com o guitarrista Dick Dale, participou de gravações cruciais dos Lively Ones, dos Marketts e dos Centurians, isso sem falar que seus baixos e guitarras aparecem em quase todos os discos de Jan & Dean e dos Beach Boys de então, que aliás, contavam frequentemente com o mesmo trio de feras do Wrecking Crew: Carol Kaye (guitarras e baixos), Glenn Campbell (guitarras) e Hal Blaine ou Earl Palmer (bateria e percussão).
Para não deixarmos de citar, os baixos que aparecem em gravações de estúdio dos Doors, como "Light My Fire", "People Are Strange", "Riders On The Storm", entre tantos... foram todos gravados por ela! O lendário bateirista Mitch Mitchel sempre frisa sua inesquecível experiência de um dia ter gravado com ela e com Jimi Hendrix.

1974

Hoje em dia, Carol Kaye se encontra aposentada das rotinas frenéticas, no entanto, continua gravando e recebendo por todo seu trabalho ao longo dos anos (só pelas músicas que aparecem em filmes de Quentin Tarantino, Kaye recebe todo mês alguns bons dólares pelos direitos de execução).
Homenagens são uma constante em sua vida, já que caras como Brian Wilson, Sir Paul McCartney, Geezer Butler e Sting, frequentemente lhe prestam seus respeitos publicamente. Não faz muito, participou do disco "Smile 2004" de Brian Wilson e também de gravações com Frank "Pixies" Black. Bom, caríssimos, por enquanto é isso. Até a próxima!


Brian Wilson & Carol Kaye

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ORIGINALMENTE PUBLICADO
28 de Dezembro de 2008

Caderno FOLHA 3Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiaba - Mato Grosso
visite http://carolkaye.com/ Carol Kaye - The Searchers (1965) *guitarras & baixo Carol Kaye - Boogalloo (1965) Carol Kaye - Slick Cat (1971) The Marketts - Out Of Limits (1964) Dick Dale - Misirlou (1963) Henry Mancini - A Pantera Cor de Rosa (1964) Henry Mancini - A shot In the Dark (1962) Beach Boys - Surf In USA (1964) *guitarra e baixo Beach Boys - Good Vibrations (1967) The Monkees - Last Train To Clarksville (1966) Four Tops - I can't help myself (1965) Nancy Sinatra - These Boots Are Made For Walking (1965) The Supremes - Baby Love (1964) Tina Turner - River Deep mountain High (1965) Lalo Schiffrin - Missao Impossível (1967) Familia Addams (1964) Mulher Maravilha (1975) Hawaii 5-0 (1977) Ronettes - Baby I Love You (1965) Ramones - Rock N'Roll Radio (1979)

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